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26/10/2005 - 09h37

Cinema com lugar marcado vira moda em São Paulo

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SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo

Quando uma lei ameaçou obrigar os cinemas de São Paulo a vender ingressos com lugares numerados, o presidente da Cinemark, Valmir Fernandes, levantou sua voz contrária e se tornou o principal opositor da medida.

A idéia, originalmente do vereador José Mentor (PT), surgiu em 1993 e se arrastou até 2002, quando outra lei excluiu os cinemas da relação de estabelecimentos obrigados a manter venda numerada de ingressos ao público. Hoje, Mentor está ameaçado de cassação de seu mandato --em análise no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.

E Fernandes inaugurou, na semana passada, em São Paulo, o primeiro complexo Cinemark no país com venda numerada de ingressos (Cine Iguatemi). Como diz a palavra cantada do ministro da Cultura, Gilberto Gil, "e-ê, mundo dá volta, camará".

Estupidez

Fernandes afirma, porém, que não houve mudança em sua opinião sobre o tema. "Continuo achando a lei da venda numerada uma estupidez. O governo não tem que cuidar disso", diz.

A discordância do exibidor, líder no mercado brasileiro com 310 salas, é quanto à obrigatoriedade da medida. "O mercado vai evoluir para isso [a venda numerada] naturalmente. Mas temos que ter o direito de voltar atrás se não der certo", afirma.

A "evolução" que permite ao espectador escolher o seu lugar na sala parece ser mesmo tendência no mercado paulistano.

No mês passado, a rede Playarte de cinemas passou a adotar o método em dois de seus complexos --os cines Iguatemi (vizinhos às recém-inauguradas salas da Cinemark) e Market Place. O Cine Bombril, atualmente ocupado com a programação da 29ª Mostra de Cinema de São Paulo, será o próximo adepto da novidade.

As duas salas (que já foram Cinearte e renasceram na sexta passada com o patrocínio e o nome da Bombril) pertencem a Adhemar Oliveira e Leon Cakoff, organizadores da Mostra.

Oliveira planeja testar uma regra particular para o sistema da venda numerada: "Apagou a luz, a numeração não vale mais".

A intenção é evitar que o espectador retardatário perturbe os demais, procurando seu lugar. Afinal, o objetivo dos exibidores com a venda numerada é ampliar o conforto do freqüentador de cinema, não o contrário.

O curioso na venda numerada de ingressos é que ela contraria um preceito fundamental do mercado exibidor: o de que o consumo de cinema é determinado por impulso. Desse princípio surgiu e se multiplicou o formato de salas multiplex, com sua oferta pródiga de títulos em horários não coincidentes.

A base da fórmula multiplex é garantir alternativas para que o espectador decida a que filme irá assistir no momento de comprar o ingresso.

É o contrário disso o que a Cinemark espera do público de seu novo complexo no Iguatemi. Supõe-se que o espectador chegará ao local com seu ingresso (numerado) já adquirido pela internet. A compra com lugar marcado também pode ser feita em três terminais de auto-atendimento --que a empresa chama de tótens-- instalados no shopping.

Se o espectador, porém, deixar para comprar seu bilhete na bilheteria, provavelmente não conseguirá mais escolher o seu lugar. Será informado de que "o sistema" identificará os melhores assentos entre os disponíveis. É um eufemismo para dizer que os bons lugares já têm dono.

Essa é a razão por que a venda numerada de ingressos não convence a todos no mercado cinematográfico. "Para mim, não funciona. Quem vai querer aquelas quatro primeiras fileiras [do Cinemark Iguatemi], por exemplo? Essas você já sabe que não pode vender", diz Francisco Pinto, diretor de planejamento e expansão da rede Severiano Ribeiro (vice-líder no país, com 210 salas).

Pinto afirma que pretende observar a experiência de seus concorrentes com a venda numerada em São Paulo. "Mas, se fizermos isso [venda numerada], será criando uma zona especial dentro do cinema, com poltronas diferenciadas." E preços também.

Para Oliveira, a venda numerada de ingressos será incorporada ao hábito do espectador brasileiro, como "uma mudança paulatina". "Não se faz nada por decreto", diz, ecoando o argumento antiobrigatoriedade de Fernandes.

No futuro, a mudança poderá ir além e se aproximar, por exemplo, do que já é comum em cidades como Buenos Aires. Na capital argentina, os assentos numerados ajudam os atendentes do serviço de bar (mantido em alguns cinemas durante o intervalo de trailer e publicidade na sala, que dura cerca de 20 minutos) a localizar os clientes para a entrega de pedidos feitos anteriormente.

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