Ilustrada
10/05/2009 - 03h14

Leia a íntegra do debate entre Steven Johnson e Paul Starr

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Steven Johnson, um dos pioneiros da internet, e Paul Starr, Prêmio Pulitzer e professor de sociologia em Princeton, travam um debate acirrado sobre o futuro do jornalismo e o acesso à informação.

*

6 de abril de 2009

Prezado Paul,

Comecemos pelos pontos sobre os quais provavelmente vamos concordar. Em primeiro lugar, os jornais historicamente forneceram e fornecem bens cívicos e públicos essenciais para uma cultura democrática saudável.
Em segundo, os jornais se encontram em situação financeira difícil, em razão de transformações de longo prazo operadas em grande medida pela internet, também em razão da crise econômica --que esperamos ser de curto prazo-- e, no caso de alguns jornais, por decisões financeiras insensatas de seus proprietários.

Sejam quais forem as causas subjacentes, porém, acho que você e eu concordamos que, dentro de cinco ou dez anos, o setor dos jornais --e, portanto, seu produto editorial-- terá aparência fundamentalmente diferente da atual.

A dúvida é se vai ou não emergir um novo modelo que forneça os bens públicos antes garantidos pelos jornais por meio de seus monopólios locais que geravam alta margem de lucro (pelo menos nos EUA).

Acho que existem boas razões para pensar que o sistema de notícias que está se desenvolvendo on-line será melhor que o modelo dos jornais com o qual convivemos nos últimos cem anos.

Uma maneira de enxergar essa transformação é pensar na mídia como um ecossistema.

Na maneira como ela circula a informação, a mídia de hoje é, de fato, muito mais próxima de um ecossistema do que era o velho modelo industrial e centralizado da mídia de massas.

O novo mundo é mais diversificado e interligado --é um sistema no qual as informações fluem com mais liberdade. Essa complexidade o torna interessante, mas dificulta as previsões de como será sua aparência dentro de cinco ou dez anos.

Em lugar de começar pelo futuro, proponho que olhemos para o passado. Quando os ecologistas pesquisam os ecossistemas naturais, procuram as florestas mais antigas, onde a natureza teve mais tempo para evoluir. Para estudar as florestas tropicais, eles não analisam um campo desmatado dois anos antes.

Por analogia, devemos examinar as partes do noticiário on-line que passaram por uma evolução mais longa.

Uma dessas áreas é a reportagem sobre a própria tecnologia. Esta vem crescendo e se diversificando há décadas, fazendo dela uma floresta antiga de notícias on-line.

Por qualquer medida, esse campo hoje é imensamente mais informativo do que era quando comecei a acompanhar questões ligadas à tecnologia, no final dos anos 1980, ainda estudante universitário.

A web não possui uma aptidão intrínseca para cobrir a tecnologia --ela apenas tende a cobrir a tecnologia em primeiro lugar porque as primeiras pessoas que usaram a web eram mais interessadas nessa área.

Mas isso mudou e está continuando a mudar. A transformação do deserto do noticiário de tecnologia dos anos 1980 na rica diversidade da cobertura feita hoje está acontecendo em todas as áreas do noticiário.

Ela está aqui, mas, como no ditado de William Gibson em relação ao futuro, ainda não está distribuída de maneira igual.

Tomemos a política como outro exemplo. A primeira eleição presidencial que eu acompanhei de maneira obsessiva foi em 1992. Todo os dias o "New York Times" publicava um punhado de matérias sobre escalas nas campanhas, debates ou pesquisas de opinião.

Todas as noites eu assistia a programas da televisão a cabo como "Crossfire" para ouvir o que os palpiteiros tinham a dizer sobre os acontecimentos do dia. Eu lia "Newsweek", "Time" e "The New Republic" e vasculhava a "New Yorker" em busca de seus ocasionais artigos políticos. Quando os debates presidenciais eram transmitidos, eu assistia religiosamente, ficando acordado até tarde para ouvir os comentários dos especialistas reunidos.

É verdade que tudo isso estava longe de constituir um deserto de noticiário. Mas compare-se o que havia então com as informações disponíveis na eleição de 2008.

Tudo que existia em 1992 ainda estava presente, mas fazia parte de uma nova e vasta floresta de notícias, dados, opiniões, sátira --e, o que possivelmente seja mais importante, experiências diretas.

Sites como Talking Points Memo e Politico faziam reportagem direta. Blogs como o Daily Kos traziam relatos aprofundados sobre corridas individuais, algo que o "New York Times" jamais teria tinta suficiente para cobrir.

Blogueiros como Andrew Sullivan reagiam a cada nova virada no ciclo noticiário, e novos analistas como Nate Silver, no Fivethirtyeight.com, faziam análises de pesquisas que superavam de longe qualquer coisa oferecida pela CNN.

Quando a economia implodiu, procurei os blogueiros econômicos, como Brad de Long, e assisti aos debates com mil amigos virtuais tweetando a meu lado no sofá. Tudo isso era remixado por meio das sátiras de Jon Stewart e Stephen Colbert, visto em clipes virais na internet tanto quanto na televisão.

Podemos ver a mesma paisagem em mutação no Reino Unido, onde o blogueiro Guido Fawkes, que não é repórter de jornal, vazou os e-mails que levaram à renúncia do assessor de imprensa de Gordon Brown.

E há mais: o ecossistema de noticiário político incluía informações dos próprios candidatos. Pense no discurso de Barack Obama sobre a questão racial, possivelmente um dos acontecimentos-chave da campanha. Oito milhões de pessoas o acompanharam no YouTube.

Teriam as redes de TV transmitido esse discurso na íntegra em 1992? Com certeza não. Ele teria sido reduzido a um minuto no noticiário noturno. A CNN talvez o tivesse transmitido ao vivo, para 500 mil pessoas. A Fox News e a MSNBC nem sequer existiam.

Para mim, não há dúvida alguma que o ecossistema do noticiário político em 2008 foi muito, muito superior ao de 1992. Alguns podem apresentar o argumento da "câmara de ecos", dizendo que as fontes que cito têm viés político.

Mas mesmo isso soa suspeito. Afinal, em 1992 eu lia apenas o "New York Times" e o "Nation". Já em 2008, passei horas lendo a conservadora "National Review" on-line. Ainda era uma "pesquisa junto à oposição", mas o fato é que essas visões de direita estavam a apenas um clique de distância.

Algumas pessoas argumentam que essa nova diversidade é parasítica: os blogueiros são interessantes, é claro, mas, se as organizações noticiosas tradicionais perdessem peso, os blogueiros não teriam mais sobre o que escrever.

Isso talvez fosse verdade no início desta década, mas não é mais. Imagine quantos barris de tinta foram comprados para imprimir comentários em jornais sobre a gafe de Obama em relação a "pessoas que se apegam a suas armas e à religião".

Mas essa frase não foi reportada originalmente pelo "New York Times" ou o "Wall Street Journal", e sim pelo Huffington Post. É possível, é claro, que grandes jornais nacionais, como o "Times", possam acabar florescendo nesse novo ambiente. Mas a sala de briefing da Casa Branca vai ficar mais e mais cheia. Não é que os jornais irão desaparecer --é apenas que deixarão de ser a espécie dominante.

A cobertura política da campanha de 2008 foi fértil pelas mesmas razões por que a cobertura das notícias na web é fértil: porque a web já é uma mídia de crescimento antigo.

As primeiras ondas de blogs eram focadas na tecnologia; mais tarde, se voltaram à política. A cobertura política em estilo "web 2.0" já teve uma década para amadurecer e chegar a seu estado atual.

Agora a mesma coisa está acontecendo com a cobertura de esportes, economia, cinema, livros, restaurantes e notícias locais --todas os temas padrões do velho formato dos jornais estão proliferando on-line. Há mais perspectivas e mais profundidade.

E isso é apenas o crescimento mais recente. As notícias on-line estão apenas começando a amadurecer.

Cordialmente,

Steven

*

10 de abril de 2009

Caro Steven,

Concordo que um novo modelo de noticiário e controvérsia pública está emergindo on-line e que sob alguns aspectos, especialmente a gama de opiniões que abrange, o ambiente on-line apresenta vantagens em relação ao mundo tradicional do jornalismo impresso.

Mas a realidade é que os recursos para fazer jornalismo nos EUA, especialmente nos níveis metropolitano e regional, estão desaparecendo mais rapidamente do que as novas mídias conseguem gerá-los.

Você emprega a metáfora de um "ecossistema", e é um conceito reconfortante: à medida que morrem as formas de vida velhas, nascem outras novas.

Mas você está tomando algumas árvores por uma floresta. Vamos tomar cuidado com as extrapolações que atendem aos nossos desejos.

Se uma região de um país sofre chuvas pesadas e outra enfrenta uma estiagem, a presença de chuva em algumas áreas não me faz inferir que amanhã os desertos vão verdejar --não sem irrigação, pelo menos.

Além disso, a própria metáfora orgânica induz ao engano. As mídias não se desenvolvem naturalmente. Elas se desenvolvem historicamente, e as forças que regem seu desenvolvimento são sobretudo políticas e econômicas.

A maioria das sociedades, mesmo aquelas que têm uma imprensa nacional livre, não possui a abundância de mídia metropolitana que historicamente caracteriza os EUA. A imprensa no Reino Unido e na França, por exemplo, é muito mais concentrada no nível nacional.

Mas nos EUA, desde a fundação da república até o século 19, a política governamental subsidiou a ascensão de jornais locais. Esses jornais, por sua vez, exerceram papel econômico importante como intermediários entre os vendedores (anunciantes) e os compradores. A partir desses lucros, os jornais puderam subsidiar a produção de notícias como bem público. De fato, os jornais diários metropolitanos têm sido a maior fonte de cobertura noticiosa original nas cidades norte-americanas.

Essa função tem sido especialmente crítica nos EUA, porque, num sistema federal como o americano, funções públicas vitais são confiadas aos governos estaduais e locais.

A democracia depende da cobertura noticiosa independente de todos os níveis de governo, especialmente os níveis que respondem diretamente aos eleitores. As pesquisas em ciências sociais mostram que, onde a mídia noticiosa é fraca, a corrupção está muito mais presente. Sem uma imprensa independente capaz de cobrar responsabilidade dos governos locais e estaduais, o projeto básico de uma democracia federal fica comprometido.

A internet está enfraquecendo a capacidade da imprensa de subsidiar a produção de jornalismo de serviço público, e isso por uma razão, sobretudo.

Os jornais diários metropolitanos já não ocupam a posição estratégica de intermediários entre compradores e vendedores que ocupavam no passado; existem maneiras alternativas, on-line, para os vendedores chegarem a seus mercados e para os consumidores encontrarem informações sobre produtos e vendas.

A competição crescente para chamar a atenção dos leitores no ciberespaço também enfraquece a capacidade de a mídia noticiosa cobrar por seus conteúdos. A recessão atual e, em alguns casos, a administração insensata vêm agravando esses problemas, gerando cortes draconianos tanto no quadro de profissionais das Redações quanto na profundidade da cobertura jornalística.

Jornais na Europa e outras regiões enfrentam as mesmas transformações estruturais graves, à medida que a internet prejudica suas fontes de receita.

Nos EUA, a cobertura jornalística dos governos estaduais vem caindo de maneira nítida. Em meu próprio Estado, Nova Jersey, antigamente havia 50 repórteres que cobriam a política em tempo integral. Hoje esse número caiu para 15. Muitas notícias nem sequer chegam a ser cobertas.

Contrariamente ao seu relato, o recuo dos jornais não vem sendo compensado por uma tendência de veículos on-line preencherem a brecha criada.

Alguns sites de jornalismo estão se desenvolvendo em Estados e cidades em outras partes do país, mas quase todos operam em base sem fins lucrativos e em escala muitíssimo menor que a dos grandes jornais diários americanos.

Existem na realidade três problemas separados aqui: 1) a produção de notícias feita com profissionalismo; 2) a produção de um público engajado; e 3) a produção de responsabilidade política efetiva.

Embora seja inquestionável que a internet oferece uma diversidade de opinião e acesso a novas fontes, ela não vem conservando o jornalismo profissional generalista em seus níveis anteriores.

Estão sendo servidos alguns públicos de nicho. No nível nacional, ao mesmo tempo em que o número de jornalistas da mídia generalista profissional vem diminuindo, muitos jornalistas têm encontrado trabalho em publicações de preço elevado que atendem a setores econômicos específicos. A indústria petrolífera, estou certo, receberá informações confiáveis sobre os fatos ocorridos em Washington. Mas não é igualmente certo que o público em geral receberá informações igualmente boas sobre a influência política da indústria petrolífera. E essa privatização do jornalismo provavelmente será ainda maior nos níveis estaduais e locais.

A filantropia poderá subsidiar a reportagem investigativa e remediar esse problema parcialmente. Mas o segundo problema --a criação de um público engajado-- é ainda mais difícil. Os jornais, que no passado eram lidos por metade das pessoas de uma cidade, ajudavam a criar um público urbano consciente. Aqueles que compram um jornal podem interessar-se sobretudo pela seção de esportes ou a página das palavras cruzadas, mas, mesmo assim, olharão a primeira página pelo menos de relance, com isso tomando conhecimento de algo sobre sua cidade e o mundo.

On-line, as pessoas que se interessam por esportes ou palavras cruzadas vão diretamente aos sites que os oferecem, evitando ser expostas a notícias e polêmicas sobre suas comunidades. A informação incidental que se ganha com um jornal metropolitano inclusivo deixa de existir.

O impacto dessa mudança provavelmente irá variar segundo o nível de renda, de instrução e de interesse político dos leitores. Os mais ricos, mais instruídos e mais politizados possuem os recursos e a motivação necessários para procurar informações on-line, mas esse não é o caso de muitos outros.

O que está em jogo aqui é o desenvolvimento maior de uma sociedade de informação estratificada. Os EUA já vêm assistindo a um aumento tremendo na disparidade social nas últimas décadas, e qualquer pessoa que se preocupe com a justiça e o futuro da democracia deveria preocupar-se com outros desenvolvimentos que ameaçam agravar essas tendências.

Isso guarda relação com o terceiro problema: a criação da responsabilidade política efetiva. A capacidade da mídia noticiosa de servir como freio ao governo não depende apenas das leis que protegem a liberdade de expressão, mas também do poder econômico da imprensa. Interesses poderosos podem intimidar organizações que sejam financeiramente fracas.

Seria insensato prever se a internet vai ou não, em última análise, ser capaz de sustentar o tipo de jornalismo para o público geral que os jornais têm produzido, historicamente.

Mas seria ainda mais insensato ignorar as evidências do que está acontecendo hoje e confiar numa visão feliz de progresso inexorável proporcionado pela internet.

O perigo dessa indiferença alegre às realidades desagradáveis é que ela pode nos induzir à inação. Tanto a política governamental quanto a filantropia precisam ser incentivadas a apoiar o jornalismo independente de maneiras novas.

Espero que você se convença a reconhecer essa necessidade.

Paul Starr

*

16 de abril de 2009

Caro Paul,

É verdade que sou otimista quanto às possibilidades de longo prazo do jornalismo, mas a última coisa que quero fazer é incentivar a "inação". O objetivo todo de meu argumento é sugerir um futuro otimista e inspirar as pessoas a construí-lo. Você quer ação para preservar um modelo de jornalismo de jornais que nos serviu bem durante um século. Eu acho que podemos construir algo melhor.

Você fala das forças de longo prazo que se alinharam contra os jornais. Elas são reais. Mas você passa por cima de muitas das forças compensatórias --políticas, econômicas e tecnológicas-- que beneficiam o jornalismo e também a cultura cívica que o cerca.

Hoje vemos novas e vastas eficiências na distribuição, graças à passagem da imprensa impressa à digital. Existem oportunidades inusitadas de participação na criação, curadoria e discussão das notícias. O acesso às informações governamentais se tornou mais fácil, graças em parte a iniciativas de transparência como as tomadas pela administração Obama.

Enquanto isso, novos sites --incluindo um que eu criei, Outside.in-- permitem aos cidadãos tratar de questões "hiperlocais" ao nível de quarteirões e bairros das cidades, coisas que os jornais de cidades jamais poderiam alcançar.

Tudo isso vem acompanhado da capacidade de agregar muitas vozes diferentes num único site, sem pagar pelos custos de criação desse conteúdo. E não se esqueça dos US$ 10 bilhões de publicidade local que virão on-line nos próximos cinco anos.

Mas não falemos das tendências de longo prazo. Falemos sobre o que está acontecendo agora mesmo em minha cidade natal, Brooklyn.

Você fala do declínio da cobertura jornalística do governo estadual em Nova Jersey. Nos últimos três anos, a questão cívica dominante em Brooklyn tem sido a polêmica em torno de um grande projeto de reurbanização, o Atlantic Yards.

No Outside.in, a página dedicada ao Atlantic Yards reúne notícias, reportagens, comentários e bate-papo. Nos últimos cinco dias saíram 30 artigos. A edição impressa do "New York Times" publicou exatamente uma matéria nos últimos 30 dias mencionando o assunto.

Quão mais rica será a cobertura de uma questão pública importante como o Atlantic Yards nos próximos cinco anos? Como você diz, é arriscado dar um palpite, então imaginemos um futuro baseado inteiramente em empreendimentos e sites já existentes.

Eis o que eu acho que existirá. Grandes bloggers, como o blog imobiliário do Brooklyn Brownstoner, vão apresentar notícias pela primeira vez, comentar acontecimentos e até ganhar dinheiro. Plataformas de dados como Everyblock vão informar as pessoas sobre novos empreendimentos imobiliários. Pessoas e sites com paixão por trazer fatos escusos à tona --como o corajoso blog Atlantic Yards Report-- vão comparecer a todas as audiências públicas para formular perguntas difíceis e vão postar na internet transcrições das audiências, com comentários adicionais. Amadores locais vão vasculhar documentos públicos em busca de detalhes reveladores, e pais presentes às audiências escreverão em blogs sobre o impacto sobre escolas específicas à sombra do projeto. E sites como o Outside.in vão circular as observações deles a leitores que vivem nessa zona escolar, enquanto novas organizações beneficentes como a Spot.us vão financiar artigos investigativos sobre o histórico passado das empresas envolvidas na construção.

Se forem espertos, jornais de Nova York como o "Times" e o "Post" vão aproveitar essa cobertura, compartilhá-la com seus leitores, usá-la para vender anúncios locais e às vezes colocar um de seus repórteres treinados para desenvolver artigos novos.

Estes últimos, por sua vez, acrescentarão valor enorme à cadeia de informação, e o ciclo inteiro recomeçará.

Sim, é verdade que no final desse processo haverá menos jornalistas oficiais de jornais cobrindo acontecimentos como o Atlantic Yards. Mas haverá um declínio correspondente no engajamento cívico público? Não acredito. Você fala sobre o velho sistema dos jornais aumentar o engajamento em parte porque as pessoas tropeçavam na primeira página a caminho das páginas de quadrinhos. Eu nem sequer aceito essa premissa. Desconfio que a web vai mostrar-se muito mais afortunada que os jornais impressos. Mas, mesmo que não o seja, qual sociedade lhe parece incluir mais participação cívica? Uma em que o noticiário é controlado por uma pequena minoria e onde as interações cívicas das pessoas acontecem como leitura feita a caminho da seção de esportes? Ou uma em que milhares de pessoas comuns participam ativamente na criação do próprio noticiário?

Steven

*

17 de abril de 2009

Prezado Steven,

Que tal olharmos mais de perto a seu negócio, o Outside.in, e ver se funciona como substituto do jornalismo profissional.

Vejo que, quando você lançou o Outside.in, em outubro de 2006, empregou o mesmo exemplo do projeto Atlantic Yards. Dois anos e meio já se passaram desde então, e tenho certeza de que você já deve ter outro. Mas qualquer pessoa que navegue por seu site verá que ele não faz reportagem investigativa. Pelo que pude apreender, ele não faz nenhum trabalho de reportagem próprio. Ele agrega o que aparece em outros lugares. Não parece haver qualquer critério de relevância ou importância. E, se o que aparece em outros lugares é lixo, o site ajuda a difundir esse lixo, porque, por sua própria natureza, um site de notícias automatizado não possui aquilo que tem todo bom editor: um detector de lixo.

Você se refere a um blog chamado Atlantic Yards Report como uma das fontes chaves das notícias sobre o Brooklyn publicadas no Outside.in.

Chequei essa informação com o editor do Report, Norman Oder. Eis o que ele disse em resposta à pergunta de se o Outside.in faz qualquer trabalho de reportagem ou exerce qualquer seleção editorial: "O Outside.in não 'cobre' o Atlantic Yards e, a meu ver, não exerce virtualmente nenhum impacto sobre a discussão local. Ele apenas agrega uma multidão de cobertura noticiosa e de blogs, pegando carona especialmente no meu blog e no portal NoLandGrab.org".

É claro que você não paga Oder ou qualquer outra pessoa pelo uso de seu trabalho. Isso pode ser um bom modelo econômico. Mas, se é um modelo para resolver os problemas do jornalismo, isso é outra história.

Vamos também olhar mais de perto o discurso que você vem usando para colocar-se como corajoso defensor da inovação. Você diz que eu "quero agir para preservar um modelo de jornalismo impresso".

Mas, como deixei claro num artigo recente, "Adeus à Era dos Jornais" [publicado em 4/3 na "New Republic"], precisamos buscar novas formas de jornalismo adaptadas às exigências de um ambiente digital, aproveitando plenamente as vantagens deste. O problema é que o tipo de inovação que você está promovendo não responde com eficácia ao problema triplo que mencionei: financiar o jornalismo de serviço público, engajar o público e gerar responsabilidade política.

Sites como o seu, que tiram notícias, comentários --e lucros-- da web dependem inteiramente de que outros paguem pelo trabalho original de reportagem. Alguns blogueiros podem dar furos jornalísticos ocasionais, mas fazer de conta que eles possuem as capacidades de um grande jornal metropolitano é enganoso.

Um site que tira notícias de outros lugares pode ampliar o público do material que coleta, mas, se existe algum efeito de engajar o público, isso acontece porque outros estão fazendo o trabalho. Engajar o público requer que se identifiquem os acontecimentos e apontem seu sentido, e não apenas que se reproduzam informações (e desinformações) isoladas.

Finalmente, criar responsabilidade política efetiva requer um poder compensatório da imprensa que um site que tira notícias de outras fontes não terá. Quando falei de jornais reduzindo sua produção e da incapacidade de o jornalismo on-line preencher essa brecha, eu estava me referindo à cobertura do governo estadual em Nova Jersey. Isso é verdade, e se aplica também à cobertura dos governos de outros Estados.

Nada do que você disse propõe soluções para essa diminuição da cobertura jornalística e suas implicações para a responsabilidade política, e seu site com certeza não é uma solução --você não pode agregar artigos que não estão sendo escritos.

Para resolver esse problema serão necessários novos investimentos em jornalismo por parte de organizações sem fins lucrativos, novos modelos econômicos que financiem o jornalismo e novas políticas públicas que permitam a organizações noticiosas captar uma parte maior da receita do bem público que produzem.

E, já que estamos falando em receita, que tal pagar a Norman Oder e outros pelo trabalho que você vem divulgando como se fosse a contribuição de seu próprio site ao debate público?

Paul

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17 de abril de 2009

Caro Paul

É claro que o Outside.in não faz um trabalho de reportagem original. Eu dei o exemplo do Atlantic Yards para mostrar o volume de informações já criadas sobre uma questão pública no Brooklyn. Eu não estava me atribuindo o crédito por esses conteúdos.

O que acho promissor nessa página, e em milhares de outras em todo o país, é que informações estão sendo criadas e obtidas de uma gama diversificada de fontes, mas são espalhadas por centenas de sites diferentes.

Embora boa parte dessas informações diga respeito explicitamente a questões hiperlocais --questões imobiliárias, sobre escolas ou crimes--, frequentemente é difícil é encontrar notícias geograficamente próximas ao leitor. Essa é uma parte do ecossistema em que o Outside.in exerce um papel produtivo. Nós organizamos e ampliamos essas vozes. Ajudamos os jornais a se conectarem com os blogueiros e ajudamos os blogueiros a fazer seus artigos chegarem aos sites de "mídia antiga". Com o tempo, vamos ajudar empresas a publicar anúncios geograficamente selecionados. E, quando o fizermos, se Norman Oder, do Atlantic Yards Report, quiser publicar seu anúncio em nossas páginas, teremos prazer em lhe entregar um cheque mensal. Nosso negócio tem sucesso se os jornais apresentam lucros e se os blogueiros abandonam seus outros empregos.

Parte de nossas desavenças se devem, acredito, ao fato de que estamos destacando tipos diferentes de engajamento cívico. Há questões maiores --como, por exemplo, se um governador está recebendo propinas de uma construtora. E há milhões de questões locais: uma proposta para fechar uma ciclovia ou um diretor de colégio que os pais dos alunos querem que seja substituído. As primeiras vêm sendo cultivadas pelos jornais há cem anos, e as segundas têm sido insuficientemente atendidas.

É verdade que são necessárias habilidades jornalísticas tradicionais para as questões macro, mas, no nível hiperlocal, os verdadeiros especialistas são as pessoas na rua.

Acho que nós dois concordamos que o futuro desse segundo tipo de noticiário é bom. A questão é se o primeiro poderá ser mantido no nível que aprendemos a esperar.

Acho que poderá, sim, mas concordo que isso vai exigir trabalho. Temos mais participação, uma distribuição mais barata e o fim dos monopólios sobre as informações locais. Sim, podemos ter menos jornalistas investigativos completos, mas também teremos um aumento enorme nas pessoas que mantêm "seus olhos voltados às ruas", nas palavras da socióloga urbana Jane Jacobs.

Com certeza deveríamos ser capazes de aproveitar esses ingredientes e moldar um sistema mais eficaz de limites ao poder institucional.

Mesmo com os jornais em crise, estamos assistindo a inovações sem precedentes e a novos e instigantes modelos de criação de notícias. Seu argumento faz um ótimo trabalho de descrever o que corremos o risco de perder com o fim do modelo de jornalismo impresso antigo.

Eu gostaria muito de ouvir o que você pensa que devemos criar para tomar o lugar dele.

Steven

*

18 de abril de 2009

Caro Steven

Infelizmente, não consigo enxergar a contribuição positiva feita por sites que retiram materiais da internet, misturando releases para a imprensa e trabalhos genuínos de reportagem de maneira indiscriminada, sem aplicar nenhum critério de relevância ou confiabilidade.

Na melhor das hipóteses, isso é irrelevante para o problema de manter o jornalismo independente, o engajamento cívico e a responsabilidade política.

Na pior, pelo fato de rasparem alguns dos lucros, os sites de notícias automatizados agravam os problemas financeiros da imprensa.

Até recentemente eu não levava a sério a ideia de que os agregadores estariam violando direitos autorais, mas agora vejo que os tribunais deveriam deixar claro que a agregação não paga, sistemática e concentrada do trabalho de outras pessoas --sem o acréscimo de valor editorial-- não constitui "utilização justa".

Uma decisão judicial nesse sentido obrigaria os agregadores a pagar seus próprios repórteres e editores, pagar por outros conteúdos ou então deixarem de operar. E essa seria uma maneira pela qual seria possível canalizar os lucros da agregação de volta para o jornalismo.

Como já sugeri, organizações sem fins lucrativos e filantrópicas deverão exercer um novo papel de financiar trabalhos de jornalismo investigativo e outros. Enquanto isso, diversas políticas regulatórias poderiam fortalecer o jornalismo local. O governo poderia tratar mais favoravelmente as fusões ou operações conjuntas entre jornais e emissoras, desde que se dispusessem a manter determinados níveis de cobertura jornalística.

Ele poderia criar novas licenças de emissão de notícias a telefones celulares, condicionadas à obediência aos mesmos tipos de critérios de serviço público ou poderia gerar novas formas empresariais que permitissem que a mídia fosse financiada por entidades com e sem fins lucrativos.

Existem muitas experiências de jornalismo real on-line. Boa parte delas vem ganhando forma em redes colaborativas, não em organizações de jornalismo tradicionais.

Em razão disso, as notícias frequentemente são decompostas em segmentos pequenos e divulgadas à medida que se acumulam, em lugar de serem seguradas e desenvolvidas para formar uma narrativa longa.

Tudo isso atende às demandas peculiares do ambiente on-line, e doadores privados e instâncias públicas deveriam apoiar essas inovações on-line, em lugar de tentar manter os jornais em seus formatos tradicionais.

O jornalismo independente e profissional poderá sobreviver e crescer se a política oficial e instituições sem fins lucrativos encontrarem maneiras criativos de apoiá-lo.

Duvido, porém, que ele consiga florescer exclusivamente com as forças do mercado e as novas tecnologias, embora os jornalistas não possam ignorar nenhum desses fatores.

No entanto, mesmo se o jornalismo independente se adaptar com sucesso, o novo ambiente da mídia provavelmente levará a um abismo maior entre a minoria pequena que se interessa intensamente pela vida pública e o número consideravelmente maior de pessoas que se afasta por completo da esfera pública, informando-se pouco sobre política e importando-se menos ainda com ela.

Esse é um problema antigo que retornou sob forma nova. O futuro da democracia depende de sermos capazes de descobrir uma maneira de fazer frente a ele.

Paul

A íntegra deste debate saiu na "Prospect".
Tradução de Clara Allain

 

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