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22/04/2009 - 08h28

Compositor Paulo Vanzolini ganha filme, debates e shows

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IVAN FINOTTI
da Folha de S.Paulo

Compositor, cantor, sambista, músico, poeta. Nada disso descreve o paulistano Paulo Vanzolini como ele gostaria. Zoólogo? Aí, sim. Cientista? Certo. Teórico da biodiversidade? Agora estamos chegando lá.

"O que você tem que entender, meu amigo, é que sou zoólogo", diz ele no documentário "Um Homem de Moral", de Ricardo Dias, que tem pré-estreia hoje no Espaço Unibanco, com promoção da Folha.

Divulgação
Paulo Vanzolini e a cantora Ana Bernardo em cena do documentário "Um Homem de Moral"
Paulo Vanzolini e a cantora Ana Bernardo em cena do documentário "Um Homem de Moral"

"Nunca fiz música profissionalmente. Nunca quis perder tempo nisso, porque nunca considerei minha profissão", diz Vanzolini, formado em medicina pela USP e com doutorado em biologia em Harvard.

São essas as credenciais que lhe interessam, não o fato de ter composto clássicos do samba paulistano como "Ronda" ("De noite, eu rondo a cidade, a lhe procurar, sem encontrar) e "Praça Clóvis" ou de ter inventado a expressão que dá título a "Volta por Cima" ("Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima").

Vanzolini trabalhou por mais de 50 anos no Museu de Zoologia da USP e foi diretor da instituição entre 1962 e 1993, quando se aposentou.

Mas, como não o deixam em paz com seus répteis, o teórico da biodiversidade, que faz 85 no sábado, vai enfrentar uma bateria de homenagens nesta semana (veja quadro à direita). "Não gosto de homenagens", reclama. "Mas de show eu gosto", concede. "Pego uma cerveja e sento na mesinha da frente. Adoro", contou à Folha na entrevista a seguir.

FOLHA - O senhor fazia a ronda em São Paulo quando compôs "Ronda". O senhor era cabo da polícia...
*PAULO VANZOLINI - * Polícia, não. Da polícia foi o Nelson Cavaquinho. Eu era da cavalaria, que era a polícia do Exército. Mas a patrulha era a pé. A gente patrulhava a pé o baixo meretrício, o Bom Retiro, o centro, a região da São João.

FOLHA - E se inspirou assim?
*VANZOLINI - * Cansei de ver mulher chegar na frente do bar, olhar para dentro como se procurasse alguém e ir embora. Não foi uma só que vi. Escrevi sobre isso.

FOLHA - E quanto a "Volta por Cima"? Qual é a história por trás da composição?
VANZOLINI - Não tem. Fiz porque fiz. Tem até uma história de que fiz porque perdi um filho num acidente. Mas, na verdade, fiz a música antes.

FOLHA - O senhor ainda compõe?
*VANZOLINI - * Larguei. Fazia música por prazer. Perdi o gosto. Eu estava em Mato Grosso, na década de 80, e fiz a última, "Quando Eu For, Eu Vou Sem Pena". É muita mão de obra. Ficava seis meses para resolver uma rima...

FOLHA - E o que o senhor está fazendo atualmente?
VANZOLINI - Difícil explicar. Fiz recentemente um trabalho sobre cascavéis e alguma coisa em cima de relatórios de impactos ambientais.

Arte/Folha

FOLHA - O senhor ganhou dinheiro com música?
*VANZOLINI - * Dinheiro, só ganhei com "Volta por Cima". Foi a única. Não sei por quê, deu uma enxurrada de dinheiro. Foi em 1959, 1960. Comprava livro sem ver o preço. Sempre coloquei tudo o que ganhei na biblioteca que tinha na minha sala do museu. Agora doei tudo para o museu.

FOLHA - Por que quis ser zoólogo?
*VANZOLINI - * Pelos répteis. Fui ao Butantan menino e gostei muito dos répteis.

FOLHA - Quais répteis?
*VANZOLINI - * Répteis só existem quatro: tartaruga, jacaré, lagarto e cobra.

FOLHA - Nunca trabalhou com sapos e rãs?
*VANZOLINI - * Sapo, não, graças a Deus.

FOLHA - Seu maior orgulho é musical ou científico?
VANZOLINI - Não tenho orgulho. Tenho satisfação. Trabalhei em todos os Estados do Brasil. Tive um barco no Amazonas.

FOLHA - Qual é a maior satisfação?
VANZOLINI -É a teoria dos refúgios. Sobre ciclos de vegetação no Amazonas. O clima fica mais seco, depois mais úmido, e acaba criando "ilhas" de vegetação sem contato umas com as outras. O lagarto fica ali e vai se diferenciando. Quando o clima permite que as ilhas se juntem de novo, os lagartos já não conseguem procriar. Já são espécies diferentes.

FOLHA - Que lagarto foi esse que o senhor estudou?
*VANZOLINI - * O lagarto anolis. Mas fui o segundo. Um alemão, estudando pássaros, publicou três meses antes os mesmos resultados. Estava escrevendo o meu artigo quando chegou a revista "Science" com o dele.

FOLHA - Que tragédia!
VANZOLINI - Mas o meu é original. Não usei o dele. Tenho enorme satisfação por esse trabalho. Fiz em conjunto com Ernest Williams, cientista americano. E continuei trabalhando até 2004, quando saí do museu. Tive quatro úlceras hemorrágicas e três infartos na mesma noite. Ouvi os enfermeiros falando: "O velhinho não passa dessa noite". Fiquei com 30% da capacidade do coração.

FOLHA - E o que senhor acha dessas homenagens nesta semana?
*VANZOLINI - * Não gosto de homenagem. Mas gosto de show. Pego minha cervejinha e sento na mesa ali na frente. Adoro.

FOLHA - Cerveja com ou sem álcool?
VANZOLINI -Com. Isso os médicos ainda não tiraram.

 

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