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A madeira torta da teoria
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ROBERT KURZ
Especial para a Folha de S.Paulo
O pensamento liberal não pertence apenas aos representantes de uma liberdade radical do mercado, que atualmente estão dando os últimos suspiros, mesmo se com isso os problemas da crise mundial capitalista permanecem sem solução.
Isaiah Berlin, cujo centenário de nascimento se aproxima, foi mais um dos representantes daquele liberalismo que com frequência é percebido nos países de língua inglesa como "de esquerda" por preocupar-se mais com os direitos de minorias do que com os direitos dos grandes grupos industriais e comerciais.
Para Berlin, o conceito cambiante de liberdade ganhou substância a partir da oposição às ideologias doutrinárias do século 20, que ele experimentou por assim dizer fisicamente, na sua condição sofrida de judeu emigrado da Rússia e da Letônia para a Inglaterra.
Berlin não quis vincular-se a nenhuma doutrina --e também não a um capitalismo completamente desenfreado.
Como todos os pensadores de um liberalismo mais político do que econômico, aderiu à ideia de uma liberdade abstrata do indivíduo, sem refletir sobre as condições históricas e sociais concretas desse programa. Por isso, compartilhou também a cegueira do liberalismo diante do caráter totalitário da máquina capitalista, incapaz de ser domada apenas por instituições políticas da democracia.
Embora quisesse fazer justiça à teoria marxista no seu primeiro livro ["Karl Marx"], não pôde, em última instância, percebê-la de modo diferente do que sob a impressão do stalinismo, que procurou, à semelhança de muitos outros intelectuais, compreender como consequência das ideias de Marx.
Quando justamente Marx teve em mente uma outra liberdade do indivíduo, que não deveria ser estatizado, mas liberto das coações de uma finalidade autotélica da economia, assim como da conexa administração estatal de seres humanos.
Um traço característico de Berlin reside no fato de desconfiar, na esteira da tradição cética e antidogmática de Montaigne [pensador francês do século 16], em princípio de todas as ideias, considerando-as ao mesmo tempo necessárias.
Compreendia-se como adepto da [filosofia da] Ilustração, sem compartilhar a "crença supersticiosa na razão", mas também sem historicizar essa razão como razão especificamente capitalista.
No entanto o próprio marxismo não logrou fazer isso. Inversamente, Berlin queria compreender a contra-ilustração romântica como contrapeso necessário à razão doutrinária, embora ele mesmo condenasse seus efeitos doutrinários nos séculos 19 e 20.
Isso poderia lembrar a metafísica pós-moderna da ambivalência e contingência, para a qual todas as teorias estão um pouco corretas e um pouco erradas. Mas o paradoxo de um "relativismo absoluto" deve afigurar-se verdadeiramente dogmático só à luz da filosofia de Berlin.
Por outro lado, ele quis relativizar seu "pluralismo moral" por meio do postulado de valores universais, que deveriam valer em igual medida para todas as pessoas. Esse dilema remete ao fato de toda a filosofia moral desembocar em uma quadratura do círculo, uma vez que não lança luz sobre as suas próprias premissas sociais.
Por outro lado, o ceticismo de uma divinização da razão moderna lembra também [o filósofo e sociólogo alemão Theodor] Adorno, que desconfiou à sua maneira de uma "derivação" do mundo do mero conceito teórico e quis pensar "com a ajuda do conceito contra o conceito", para levar em consideração o que não se dissolve na lógica da identidade de um pensamento supostamente esclarecido.
Berlin apreciou muito a expressão kantiana da "madeira torta da humanidade". Transposta para o plano da reflexão crítica, poder-se-ia falar também da "madeira torta da teoria", que deve conhecer seus limites sem abdicar de si mesma. Ocorre que Adorno sempre virou essa ideia contra as aporias da razão moderna nos próprios [filósofos] Kant e Hegel. A pluralidade liberal de Berlin ficou trancada nessas aporias. Ao criticar o monismo de Marx, ignorou que ele é negativo e critica a falsa unidade identitária do mundo capitalista a partir dos seus fundamentos. Uma sociedade plural, na qual as pessoas "podem ser diferentes sem medo" (Adorno), só seria possibilitada por uma superação dos ditames imperiais da economia, que o Estado pode tão somente executar.
A distinção berliniana entre "liberdade negativa" e "liberdade positiva" tornou-se famosa. A primeira compreende-se como mera liberdade de uma coação exterior, a segunda como liberdade para uma vida autodeterminada. Como Berlin não logrou decifrar a coação interna da sociedade fetichista do capitalismo, essa diferenciação se tornou interessante para o pensamento neoconservador do radicalismo econômico. Se as pessoas são aprisionadas na "autorresponsabilidade" justamente sob as coações da concorrência universal e são solicitadas a se conceberem como "capital humano" com a finalidade da "auto-valorização", o conceito berliniano da liberdade positiva sofre uma instrumentalização brutal. Na maioria das vezes, os pregadores de uma ética tão repressiva da responsabilidade nem conhecem a origem dos seus slogans.
Isaiah Berlin permanece dessarte como um pensador problemático do liberalismo no século 20. A liberdade do indivíduo, visada também por Marx na sua crítica radical da economia, não é realizada.
Evidencia-se assim que as ideias da época passada ultrapassaram a data da sua caducidade. Isso vale para o liberalismo político bem como para o marxismo tradicional, que representam apenas uma oposição no invólucro comum do sistema produtor de mercadorias.
O totalitarismo do mercado e o totalitarismo do Estado constituem os dois polos dessa "valorização do valor" (Marx) autonomizada, não acessível a nenhum valor de ordem moral, que esbarra no seu limite histórico interno em meio à nova crise da economia mundial.
Enquanto o desejo pela liberdade e autodeterminação for coagido a uma corrida inclemente entre esses dois polos, deverá esgotar-se até a morte.
Robert Kurz é sociólogo alemão, autor de "O Colapso da Modernização" (Paz e Terra).
Tradução de Peter Naumann.
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