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05/06/2009 - 12h53

Irlandesa que participa da Flip teve livros banidos em seu país

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TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online

A irlandesa Edna O'Brien, 78, descrita pelo romancista norte-americano Philip Roth, ganhador do Prêmio Pulitzer, como "a mais talentosa escritora em língua inglesa em atividade hoje", cresceu longe dos livros e de quase qualquer forma de literatura que não fossem os Evangelhos cristãos. Nasceu e passou a maior parte de sua infância e adolescência em um vilarejo no oeste da Irlanda, Twamgraney, onde fazendeiros e suas famílias viviam sob o peso dos sermões do padre e o medo do inferno.

Divulgação
A escritora irlandesa Edna O`Brien, 78, que participa da 7ª edição da Flip, em 3 de julho
A escritora irlandesa Edna O`Brien, 78, que participa da 7ª edição da Flip, em 3 de julho

Em entrevista exclusiva à Folha Online, por telefone e e-mail, O'Brien contou que sua principal influência literária foi o romance "Rebecca", de Daphne du Maurier (1907-1989), cuja leitura foi feita através de páginas soltas e fora de ordem. A escritora, que participa da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece entre os dias 1º e 5 de julho, disse que está feliz de vir pela primeira vez ao Brasil e de saber que tem fãs no país.

Ouça trecho do livro "Byron in Love", inédito no Brasil, lido pela própria O'Brien especialmente à Folha Online

Edna Obrien

Autora premiada de mais de 20 livros, entre romances, peças de teatro e biografias, O'Brien ficou também conhecida por seus estudos sobre James Joyce (que, ela reconhece, foi sua maior influência na literatura) e, mais recentemente, o poeta inglês lorde Byron (1788-1824). Seus livros foram, durante muito tempo, banidos na Irlanda e vistos, naquele país, como imorais, pela liberdade com que descrevem as vidas particulares das mulheres fortes que ela criou para serem suas personagens. Atualmente, sem o peso da censura da Igreja Católica, as histórias criadas pela irlandesa transformam-se em filmes e séries de televisão em sua terra natal, e recebidas por muitas mulheres como libertadoras [e não mais como libertinas].

No dia 03 de julho, em Paraty, ela conversará com a inglesa Liz Calder [uma das fundadoras da editora inglesa Bloomsbury e idealizadora da Flip] sobre os sentidos da transgressão na literatura. Publicados no Brasil, O'Brien tem, além de "Dezembros Selvagens" (Bertrand Brasil, 2003), "Uma Mulher Escandalosa" (Francisco Alves, 1982) e "James Joyce" (Objetiva, 1999). O último, uma biografia do autor de "Ulysses", será reeditado pelo selo Alfaguara, da Objetiva, no final deste ano. A Bertrand Brasil também lançará, até o final de 2009, o inédito "Byron in Love".

Leia a seguir íntegra da entrevista concedida à Folha Online:

Folha Online - Seu livro "Dezembros Selvagens" conquistou fãs no Brasil, em sua maioria mulheres. O que a senhora diria a essas mulheres que tentam conciliar no seu cotidiano a falta de tempo e seu desejo de mudar o mundo, a "desesperança" que se vê nos jornais a cada manhã e suas crenças e vontades determinadas?

Edna O'Brien - Estou bastante ansiosa para ir ao Brasil e à Flip. Fico feliz em saber que tenho fãs de "Dezembros Selvagens", que acabou de ser filmado para a televisão irlandesa. Sim, o mundo, com suas guerras e escassez, e partidos e barbáries e todo o restante, é insuportável de ser observado, e isso me leva à questão de escrever e do porquê alguém deveria escrever. Seria a literatura um luxo? Sim, mas é um luxo de que não podemos abrir mão.

Acho que foi Stefan Zweig [escritor austríaco que viveu no Brasil na primeira metade do século 20] quem disse que a arte era um grande consolo para o indivíduo, mas inútil diante da história. Sim, a arte é necessária, responde a uma necessidade espiritual e intelectual das pessoas. Imagino que muitos escritores sintam-se impotentes por não conseguirem reportar todas as atrocidades que acontecem espalhadas pelo mundo, mas também acredito que reportagens esclarecidas feitas em todo o mundo ultrapassam o drama e a ficção contemporâneos. Como últimas palavras, eu diria que os seres humanos necessitam da mágica da poesia e do grande prosa ou drama.

Folha Online - Como a senhora se tornou uma leitora? Gostava de livros quando era criança?

O'Brien - Como cresci no oeste da Irlanda, não posso dizer que houvesse uma abundância de livros. Na realidade, apenas um romance, "Rebecca", de Daphne du Maurier (1907-1989), conseguiu se infiltrar em nossa pequena vila, e era emprestado uma página de cada vez às mulheres que esperavam ansiosamente pela possibilidade de ler essa história de amor. Porém, e infelizmente, as páginas não eram emprestadas na sequência do livro, então todas liam a história fora de ordem. Mas eu tinha sede por literatura, apesar de não saber muito bem do que isso se tratava. Uma das primeiras linhas de verso que copiei em meu caderno de escola e que ainda gosto muito foi "Eu acordo renovado pela morte, o casaco de um pastor atirado sobre mim". Esse verso confirmou para mim a alquimia da literatura, o milagre, o poder das palavras e como elas podem mudar e enriquecer nossa vida interior.

Eu tive, de qualquer forma, o benefício da beleza da linguagem do Evangelho, que devorei tanto por sua aproximação com a literatura quanto por seu impacto religioso. Preciso acrescentar que eu era profundamente religiosa e cresci em um ambiente em que os mandamentos e o medo do inferno permeavam cada segundo da vida de todos. Na escola, aprendi alguns dos grandes mitos irlandeses, histórias forasteiras de grandes feitos, nas quais a terra podia tornar-se água e peixes podiam se transformar em sereias ou vice-versa. Eu aprendi a maior parte do conteúdo escolar em irlandês, exceto, claro, por língua inglesa.

Os grandes autores irlandeses, como James Joyce (1882-1941), Samuel Beckett (1906-89) e J.M. Synge (1871-1909) deram à língua inglesa uma poética celta muito particular. Eu não li Joyce até começar a estudar farmácia em Dublin em 1952 e encontrar um livro usado, por quatro centavos, chamado "Introdução a James Joyce", de T.S. Eliot (1888-1965). Foi o começo da minha educação literária e uma revelação para mim. Lendo o trecho do jantar de Natal de "Retrato de um Artista quando Jovem", percebi que, como escritor, o material mais rico que eu poderia ter era a minha história tão singular, com todas as suas variações vívidas e turbulentas. Há também a questão da paisagem. A nossa [dos irlandeses] é bela de uma maneira árida, e toda a minha ficção é permeada por esse cenário, esses campos, essas mulas barulhentas e cavalos irrequietos e nervosos. Escrevi meu primeiro livro, "The Country Girls", quando deixei a Irlanda e vim para a Inglaterra; só então percebi quão grande havia sido a ruptura. "The Country Girls" causou um certo tumulto na Irlanda e mesmo na Inglaterra. Algumas cópias foram queimadas no jardim da capela de minha vila natal, as mulheres ficaram indignadas, os homens puniam, e aqueles que estavam no poder, tanto a igreja como o Estado, condenaram o livro como "não recomendável para qualquer lar decente". Então foi banido, assim como meus seis romances seguintes.

Folha Online - Como a senhora explica o fato de ser uma das autoras mais celebradas no Reino Unido atualmente, mesmo tendo passado a maior parte de sua infância e adolescência num vilarejo onde livros não eram bem-vindos?

O'Brien - Honestamente, não me sinto assim tão celebrada, e isso não é uma coisa ruim. Um autor precisa de privacidade para continuar escrevendo, para se manter fiel às palavras. Beckett disse "As palavras foram meu único amor, e não muitas [palavras]", e acredito que todo escritor dedicado deveria se guiar por esse princípio. Como uma garota muito jovem escrevendo pequenas histórias, andando nos campos --eu sempre escrevi fora de casa, para não ser descoberta-- eu costumava imaginar de onde vinham as palavras, e até hoje me pergunto como é que compilamos nosso próprio tesouro pessoal delas.

Folha Online - O que a senhora pensa da censura na Irlanda, e do banimento de seus livros?

O'Brien - Naquele momento, me senti enervada, pois sabia que isso magoaria minha mãe, o que de fato aconteceu. Como muitas pessoas em nossa paróquia, ela sentiu como se eu a tivesse traído ou exposto para o mundo. Em retrospectiva, eu compreendo esse julgamento, apesar de, no momento, ter me sentido ferida e até amedrontada. Não havia livros em nossa casa exceto por um livro de cozinha, "Mrs. Beeton", e manuais de cavalos puro sangue que eram de meu pai, já que ele adorava cavalos. Portanto, meus primeiros livros, escritos em primeira pessoa como são, pareciam ser meros informes sobre a minha casa, os quais meus pais gostariam de poder ter reprimido.

Acredito que o fato de eu ter continuado a escrever e ter me distanciado do burburinho acerca do banimento de meus livros deve dizer algo sobre minha rebeldia interior. James Joyce disse que um escritor deve ser cruel, e eu concordo, no sentido de que um escritor não pode se submeter à autoridade, seja ela de amigos ou familiares, igreja ou Estado. Eu apenas fui cruelmente criticada, enquanto escritores menos afortunados foram presos por suas crenças. Eles são os heróis e heroínas não cantados, e penso especialmente em Mandelstam, o maior poeta do século 20, em minha opinião, que sofreu prisão domiciliar, vigilância, exílio e a perda de sua poesia.

Folha Online - A senhora acredita que seu trabalho tenha contribuído de alguma maneira para formar uma geração de mulheres mais livres na Irlanda?

O'Brien - Tudo o que posso dizer é que, quando faço leituras em público, as mulheres vêm falar comigo em seguida e dizem que meus livros as libertaram. A ironia é que eu não me sinto nem um pouco liberta, uma vez que estou constantemente preocupada com meu próximo livro, e o que virá depois dele e assim por diante. Eu acredito, e tenho certeza de que Franz Kafka (1883-1924) concordaria, que escritores são permanentemente ansiosos e têm um traço masoquista, por toda a sua bravura. Eu suponho que minhas primeiras histórias sobre duas meninas, crescendo e determinadas a romper com seu ambiente sufocante, tenha atingido um nervo sensível em muitas outras mulheres jovens e semirrebeldes.

Folha Online - Como é sua relação com seu país? A senhora acredita que mantém a identidade irlandesa, que seu coração ainda está lá?

O'Brien - Minha relação com a Irlanda é muito boa. Há diversas razões para isso --o ambiente cultural está mais aberto e livros não são mais banidos. Eu gostaria apenas que houvesse mais leitores! Ainda que meu romance "In the Forest" [livro publicado em 2002, que conta uma história baseada no assassinato da artista Imelda Riney e seu filho de três anos, Liam, por um jovem de 22, numa floresta próxima ao vilarejo onde viveu O'Brien] tenha recebido críticas severas, havia uma voz contrária a elas, o que não teria acontecido nos anos 1960.

Na semana passada, em Dublin, recebi um prêmio pelo conjunto da minha obra, que me foi dado num esplêndido teatro por meu grande amigo, o poeta Seamus Heaney. Depois recebi muitos cumprimentos, e acredito que foram sinceros. No próximo mês, uma escultura em minha homenagem será inaugurada em meu vilarejo natal, e estou ansiosa para ver o público que irá se reunir e para ouvir algumas perguntas curiosas! Minha identidade permanece lá, é claro; County Clare ainda é a paisagem física e emocional da minha ficção e é a fonte tanto de meus distúrbios como da minha inspiração.

Folha Online - A senhora não é autora apenas de livros de ficção, mas também de biografias sobre outros autores, como James Joyce e, mais recentemente, lorde Byron. Como escolhe os escritores que se tornam o alvo de seu interesse? Afinal, seus romances são bastante passionais e transmitem essa impressão ao leitor; a senhora transmite essa paixão também a suas biografias?

Edna Obrien parte 2

O'Brien - Acredito que sim. A paixão é como a cor dos olhos de alguém, não pode ser modificada. Escolhi escrever sobre James Joyce porque ele foi uma influência tão radical e formadora sobre mim, como foi para todo escritor irlandês que veio depois dele. Eu também senti uma profunda empatia com sua vida --sua perseverança, seu humor, sua pobreza e, é claro, com o fato de ter sido massacrado por seus compatriotas! Byron foi um outro interesse volátil e passional. Como digo em meu "Byron in Love" [biografia lançada pela escritora em 2008 sobre lorde Byron e ainda não publicada no Brasil], ele foi um poeta tremendo, mas foi também um homem que, nos 36 anos que viveu, embutiu uma imensidão de vidas, ousadas, turbulentas e, em última instância, heroicas.

Frequentemente, ao longo dos três anos em que escrevi sobre sua curta e ousada vida, desejei não ter escolhido Byron, porque o trabalho de pesquisa era considerável. Na verdade, foi exaustivo. Em seus poucos anos Byron viveu 20 vidas. Para começar a responder à pergunta do porquê escolhi Byron: tinha acabado de terminar meu romance "The Light of Evening" [em que conta a história de uma mulher de 78 anos que, internada num hospital, aguarda a chegada de sua filha e rememora seu passado e sua relação com a menina], que é um trabalho completamente diferente, é uma ficção, se passa na Irlanda, onde se situam todos os meus romances. E pensei em, como fiz com James Joyce há alguns anos, imergir no trabalho de um grande escritor. Joyce não era poeta, mas ele era poético, era um gênio. Então escolhi Byron porque admiro enormemente sua poesia. Mas também porque percebi, ou senti, antes de começar minha pesquisa - que me convenceu de que estava certa --de que a vida de Byron foi tão cheia de dramas, tão cheia de acontecimentos, tão cheia de, como eu escrevi, de uma composição de mulheres (havia também uma composição de homens) que daria um livro extremamente interessante, desde que eu pesquisasse o suficiente. E de fato, foi muito difícil.

Eu fui, como sempre, instigada e intoxicada pelos 12, talvez 13 volumes de cartas e diários escritos por Byron, nos quais ele se revelou tão completamente, de forma tão nua e, acredito, tão verdadeira. Se eu tivesse, por exemplo, escolhido escrever sobre Keats [John, poeta inglês] (1795-1821)--, que morreu aos 24 anos, teria escrito apenas um ensaio, nunca um livro. Mas Byron nos deixou tanto sobre si mesmo naqueles volumes de cartas e diários (editados pela professora Leslie Marchand) que eu consegui trabalhar com eles, além de, claro, ter a poesia de Byron e muitos livros sobre ele como referência, para então escrever um livro mais curto. Mas o trabalho de pesquisa que esse processo exigiu foi imenso.

Folha Online - A senhora vê hoje um tipo diferente de luta para jovens e brilhantes mulheres?

O'Brien - Sim, vejo. O que eu diria para qualquer jovem mulher que queira se tornar escritora é para que seja totalmente verdadeira para com sua vocação, que escreva pelo valor de escrever, para amar a linguagem e não se deixar seduzir pela trivialidade e egocentrismo que permeia boa parte da ficção contemporânea. Mas mesmo em 2009, a mesma jovem mulher, a aspirante a artista, precisa enfrentar o fato de que seu papel entre os cânones da literatura ainda será visto como secundário. A história, o domínio dos homens e, francamente, as opções dos críticos literários, homens e mulheres, favorecem os homens. Não deveria ser assim, mas é. Uma mulher precisa trabalhar mais com as palavras para ultrapassar essa percepção subjetiva da superioridade masculina, mas nós chegaremos lá. Sim, nós conseguiremos, como diz o mantra.

Folha Online - O que levou a senhora a escrever, já que Estudou para se tornar farmacêutica?

O'Brien - Estudei para ser farmacêutica porque era o que meus pais queriam. Eu fui, de certa forma, obediente; mas meu outro lado, minha face rebelde e impositiva, não estava muito longe da superfície. Escrever foi minha tábua de salvação que, com todas as suas provações, me permitiu manter um estado, ainda que precário, de sanidade.

Áudios - Tradução e locução: TERESA CHAVES; edição: ANAÍSA CATUCCI (colaboração para a Folha Online)

 

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