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08/06/2009 - 12h49

Diretora de Festival de Miami sugere cota para produtoras na Globo

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DEISE DE OLIVEIRA
da Folha Online

A produtora de cinema e diretora da Inffinito Produções, Cláudia Dutra, defende parcerias entre TVs e produtoras independentes para promover e impulsionar o cinema nacional. Ante a força da Rede Globo na TV e da presença cada vez maior da Globo Filmes na produção e distribuição de filmes, Cláudia defende que a empresa estabeleça uma cota de 10% ou 20% de promoções para filmes não realizados pelo grupo.

Mariana Vianna/Divulgação
A produtora de cinema e diretora da Inffinito Produções, Cláudia Dutra
A produtora de cinema e diretora da Inffinito Produções, Cláudia Dutra

Cláudia vê a medida como uma forma de estimular o mercado audiovisual brasileiro e também formar profissionais para a própria emissora.

Para ela, é compreensível que a Globo use os canais que dispõe para divulgar suas produções para o cinema, mas reconhece que a empresa é um veículo massa e, com isso, larga na frente.

"Quanto mais gente produzindo, melhor, porque movimenta o mercado. Mas claro que a Globo é [veículo de] massa. Ao fazer uma promoção dentro de um programa, a tendência é que um público muito maior vá assistir ao filme. Mas também acho uma hipocrisia fingir que eles não têm esse mercado na mão, fingir que eles não são a Globo e também não fazer nada. Não sou contra, mas acho que poderia haver parcerias com outros filmes", afirma a empresária.

Cláudia é uma das produtoras do Festival de Cinema Brasileiro de Miami, que ocorre no Estado da Flórida, nos Estados Unidos. Em sua 13ª edição, o evento vai ter a exibição de 34 filmes para um público estimado em 20 mil pessoas. Na mostra competitiva são 19 filmes, entre longas e curtas-metragens, todos inéditos no mercado norte-americano e alguns deles, também no Brasil.

Conforme Cláudia, o Festival de Miami surgiu, ainda no período da retomada do cinema brasileiro, em 1995, para vender o cinema brasileiro "na terra deles", que domina as salas no Brasil, e inserir o Brasil no circuito audiovisual fora do país.

"Somos bombardeados por produções norte-americanas. Criar um festival como o de Miami é para ter certeza de ter uma janela de exibição do cinema brasileiro no território deles. A função de um estival é vender a produção e criar oportunidade de visibilidade", diz Cláudia. "O festival, como o de Miami, leva o cinema brasileiro para o mundo e traz o mundo para o Brasil."

Antes mesmo de começar o Festival, ainda no Brasil, Cláudia concedeu uma entrevista à Folha Online. Veja os principais trechos:

Folha Online - Qual é a avaliação da produção brasileira lá fora?

Cláudia Dutra - O cinema brasileiro compete em igualdade com o de qualquer país. Lógico que o cinema americano tem gestão financeira e poder tecnológico muito maior. Mas todos os problemas que já existiram no cinema nacional, em termos de qualidade, já superamos. Acho que o cinema brasileiro tem público no mundo inteiro, porque existe público ávido por cinema estrangeiro. E hoje conseguimos ter um leque muito grande, desde drama, comédia, ação, ficção, documentários. Vai ter filme muito bom e mais ou menos, como qualquer safra.

Folha Online - O cinema brasileiro tem alguma vantagem no mercado internacional?

Dutra - O Brasil não tem uma cultura como a Índia, que de norte a sul é tudo igual. O Brasil é um país com uma diversidade cultural muito grande e isso pode ser uma vantagem. Uma história do Sul é completamente diferente do Nordeste, ou de uma história de uma grande metrópole como São Paulo e Rio. Também temos influência da Europa e dos EUA. Temos uma linguagem universal, ao mesmo tempo que uma cultura muito arraigada. Vemos hoje os filmes brasileiros ganhando prêmios mundo a fora. Acredito realmente no potencial do cinema brasileiro.

Folha Online - Você acha que o Brasil ganha maior visibilidade internacional ao focar a cultura local?

Dutra - Não. Acho que justamente por ter temáticas universais, o Brasil tem condição de competir em pé de igualdade. Tem a vantagem de ter o cultural, o folclore, a raiz, contar histórias que nunca ninguém ouviu, mas também tem a grande metrópole, uma linguagem universal. Acho que o Brasil não precisa ficar restrito à cultura local. Pode contar uma história como "Divã", "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", que mostra uma época do Brasil, mas tem uma linguagem universal. A tendência é melhorar, para se transformar em um potencial de negócios maior.

Folha Online - Que resultados o cinema brasileiro tem colhido com isso?

Dutra - Com melhores roteiros, excelente diretores, histórias bem contadas, o cinema brasileiro passa a competir também no mercado interno. Cria condições para ficar mais protegido e ter mais tempo em cartaz, para que seja divulgado aqui de maneira mais generalizada e que o povo em geral possa ir, não só quem tem acesso à televisão ou aos grandes centros. Também tem o aspecto de promoção. O cinema é a maior ferramenta propagação de negócios para um país. Não só para vender filme. Onde tem cinema, os mais diferentes produtos estarão. O cinema dos EUA é o potencial que é porque foi entendido como uma ferramenta de negócios. O Brasil precisa apostar nisso, que ter filmes em qualquer parte do mundo é uma forma de promover produtos e turismo, por exemplo. Desperta o interesse das pessoas pelo país e muda imagem.

Folha Online - Um filme precisa do mercado norte-americano e dos festivais para ter reconhecimento?

Dutra - Acredito que não. Mas é uma tendência natural. Os Estados Unidos são um grande centro, um polo produtor e distribuidor de cinema. E para passar por grandes festivais, tem de ser exibido no mercado estrangeiro. Eu acho que o caminho natural do filme é esse: primeiro ele é feito, é exibido em festivais, vai para o mercado, é exibido internamente, depois distribuído externamente. Os festivais são o termômetro da bilheteria de um filme. Ir para os EUA é uma tendência para quem tem interesse de venda, e quem faz filme, quer que seja exibido, quer criar oportunidades para o filme. Não acho que o filme dependa dele, mas acho que é um 'plus' e vai ajudar o filme a deslanchar e criar novos mercados. Fazer um filme para ser visto só no seu país talvez para um mundo globalizado dos dias de hoje é um pensamento pequeno.

Folha Online - A presença da Globo na produção e na distribuição de filmes mais ajuda ou atrapalha? Concentra o mercado ou divulga o cinema brasileiro?

Dutra - Eu acho bom que a Globo produza filmes. Quanto mais gente produzindo, melhor, porque movimenta o mercado. Mas claro que a Globo é [produto de] massa. Ao fazer uma promoção dentro de um programa, a tendência é que um público muito maior vá assistir ao filme. Mas também acho uma hipocrisia fingir que eles não têm esse mercado na mão, fingir que eles não são a Globo e também não fazer nada. Não sou contra, mas acho que poderia haver parcerias com outros filmes. Ter um pacotão promocional para outros filmes, para promoção do cinema nacional dentro da Globo, o que é bom inclusive para a Globo Filmes.

Folha Online - É preciso ampliar a parceria da TV com produtoras?

Dutra - Acho que deveria ter uma fatia, nem que 10% ou 20% das produções e promoções sejam revertidas para filmes não produzidos pela Globo Filme. Talvez seja uma forma de capitalizar para eles mesmos novos diretores e produtores. Nós temos uma relação ótima com a Globo, temos parcerias. E a Globo Filmes também é uma distribuidora. Eles muitas vezes distribuem filmes que não são feitos por eles. Seria muito bom para todo mundo, se criassem uma forma de promover. Mas falar que eles não vão usar um meio que eles têm na mão é infantil.

 

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