Obra de Lobo Antunes é carregada de impressões de guerra
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online
O português António Lobo Antunes vive hoje em Lisboa apenas da sua literatura. Porém, a vida desse escritor deu muitas voltas antes de atingir a tranquilidade com a qual ele vive seus 67 anos.
Durante a juventude, não pensava em ser escritor. Licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa, especializando-se em psiquiatria. Durante anos exerceu a profissão, até ser chamado, em 1970, para lutar em Angola, durante o final da Guerra Colonial portuguesa (1961-1974). Embarcou para o país africano em 1971, regressando a Portugal dois anos depois, com a necessidade de refazer sua vida e repensar seus valores.
A experiência da guerra marcou profundamente a vida de Lobo Antunes. Ele decide exorcizá-la transformando a vivência em ficção: seus primeiros dois livros, publicados em 1979, são profundamente autobiográficos. "Memórias de Elefante" (Objetiva, 2006), o primeiro deles, trata de um psiquiatra que lutou na Guerra Colonial em Angola e voltou à Lisboa, separado da mulher e das filhas. A narrativa toda se passa em um único dia, no qual o personagem principal conta suas tristezas em relação à guerra e ao fracasso de seu casamento.
| Fotomontagem Folha Online |
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| A experiência da guerra marcou a vida e as obras de Lobo Antunes |
Já "Os Cus de Judas" (Objetiva, 2007) é inteiramente narrado em primeira pessoa. O narrador conversa com uma mulher que encontra em Lisboa sobre suas experiências na guerra em Angola. Numa narrativa fragmentada, na qual a fala do narrador é sempre cortada por intervenções da mulher, percebe-se a violência da experiência da guerra e as marcas profundas que ela tem sobre os seres humanos. O livro choca pela crueza com que descreve a crueldade dos soldados no front de batalha, mas traz também o brilho da esperança curiosa que esses mesmos homens que matam são capazes de manter em relação a suas mulheres e famílias. Centrada no fluxo de consciência do personagem, a narrativa é entrecortada e nada linear, mimetizando o próprio desespero da guerra. Levanta ainda questões incômodas e sem resposta que não se referem apenas a Angola, mas a todos os países em guerra: qual será o futuro de uma geração marcada pelo conflito militar? Os filhos da guerra repetirão a violência em seus filhos e em suas nações, ou serão capazes de viver, caso sobrevivam, sem medo e sem angústia? Talvez por mostrar a inquietação do homem que não esquece e que se desespera por não conseguir se distanciar do horror vivido o livro recebeu o Prêmio Franco-Português de Literatura.
O sucesso das duas primeiras obras colocou o então psiquiatra no centro do debate literário europeu, como um escritor que se revelava a partir de uma linguagem crua e de uma temática extremamente atual; um homem que revirava os fragmentos da memória, sua e de Portugal, para questionar a transformação do homem em um ser apático e marcado pela violência. As obras foram tão bem recebidas que possibilitaram a Lobo Antunes a se despedir da carreira como psiquiatra e passar a viver somente da literatura --profissão que ele não conseguiu mais abandonar.
Curiosamente, o escritor não se deixa levar pela fama que seus mais de 15 livros lhe trouxeram. Ao ser cogitado para o Prêmio Nobel de 1996, disse que, se havia um escritor de língua portuguesa que mereceria um prêmio, seria o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. A escolha pode parecer estranha, mas tem explicação: seu parentesco com o Brasil não existe apenas por causa da língua, pois seu avô era brasileiro de Belém (Pará), e lhe apresentou autores como José de Alencar e Machado de Assis.
Exigente diante do próprio texto, Lobo Antunes diz que nunca teve pressa em ser publicado no Brasil, com medo das reações que seus livros poderia provocar no país de seus antepassados. É um escritor compulsivo, que se considera um homem terno, apesar da agressividade de seus textos. Considera que a própria temática da sua obra é a ternura, a emoção que move o homem. Escreve de 12 a 15 horas por dia, e durante seu processo de escrita não se envolve com mais nada [apenas escreve para corrigir os trabalhos anteriores, cada novo livro é filho de todos os outros].
Apesar da temática constante da Guerra Colonial em suas obras, seus livros não podem ser considerados obras políticas. Na verdade, a política é apenas o cenário confuso que possibilita a criação de personagens perdidos no caos de descobrir o horror humano em si mesmos e tentar se prender a fios de memória. É o caso do romance "O Auto dos Danados", ainda inédito no Brasil, que tem com pano de fundo a Revolução dos Cravos, 1974, que pôs fim à ditadura de Antônio Oliveira Salazar (1889-1970), que governou Portugal de 1932 até 1968.
Seus personagens são estrangeiros em suas nações e em suas vidas, talvez como o escritor, que insiste em perseguir a sua própria vida no momento em que a vive, sem preocupação com o depois. "Daqui a 50 anos, tenho a boca cheia de terra. Ser-me-á completamente indiferente que me leiam ou não. Talvez até tenha uma estátua equestre, a cavalo no editor, e uma viúva para inaugurar a estátua, o meu tempo é agora, porra!", disse Lobo Antunes em entrevista dada à publicação portuguesa "Jornal de Letras, Artes e Ideias", em 1985.
Porém, talvez tenha chegado a hora de o escritor pensar o que vem a seguir: em fevereiro deste ano anunciou, em entrevista ao jornal português "Diário de Notícias", que pretende abandonar a carreira dentro de dois anos, após a publicação de seu próximo livro. Com o lançamento previsto para outubro, a obra recebeu o título "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?". Seus leitores, já aflitos com a "morte anunciada" de Lobo Antunes, tentam antecipar o tema do novo livro --sem muito sucesso, de acordo com o próprio autor.
Ele também não explica sua decisão de parar: diz apenas que é hora de se calar, tudo o que queria era deixar sua obra "redonda". "Arquipélago da Insônia", o livro mais recente do escritor e ainda não publicado no Brasil, parece contribuir muito para esse objetivo. O romance conta a história de três gerações de uma família proprietária de uma fazenda no interior de Portugal; se inicia com a história do avô e seu melhor amigo, que se tornou feitor da fazenda, até chegar ao declínio total dos netos. A família é disfuncional: um neto que é autista, o avô, que não respeita um filho, tem como amante uma empregada que se casará com outro de seus filhos; a avó que é louca. É um livro que se aproxima do que António Lobo define como seu maior objetivo --encher seus livros de silêncio, e no silêncio que as palavras trazem, provocar a reflexão.
Livros publicados no Brasil (Todos pela ed. Objetiva)
"Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo"
"Memória de Elefante"
"Conhecimento do Inferno"
"Os cus de Judas"
"Eu Hei-de Amar uma Pedra"
"Meu Nome é Legião
Fontes: DN. Sapo.PT; Livro sem Critério; nao-til; Objetiva; 5dias. net
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- "[Romance de LOBO ANTUNES aborda comportamento violento de jovens; leia trecho]:http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u588622.shtml


