Catherine Millet usa arte e sexo para explicitar sua literatura
TERESA CHAVES
colaboração para a Folha Online
São inúmeras as críticas que descrevem a francesa Catherine Millet como uma figura extremamente contraditória. Como pode uma mulher considerada séria e brilhante, fundadora e editora de uma importante revista de arte na França, crítica de arte e curadora, escrever não um, mas dois livros que expõem sua vida sexual de maneira explícita e suas relações mais íntimas com o marido? Até escrever seus dois últimos livros Catherine Millet havia escrito uma série de livros de artes que são referência no universo das artes plásticas, como "A Arte Contemporânea" e "Dali e Eu", ambos inéditos no Brasil.
Porém, a publicação de "A Vida Sexual de Catherine M." (Ediouro, 2001) e "Dia de Sofrimento" (que será publicado pela editora Agir em junho) chocou a sociedade parisiense ao mostrar a respeitada e poderosa intelectual como uma "serial lover" (algo como "amante em série", como ela foi descrita pela própria Ediouro).
| Bel Pedrosa/Folha Imagem |
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| A escritora francesa Catherine Millet, que participa da Flip, em julho |
Apesar disso, a figura de Millet não corresponde ao imaginário que se criou em torno dela nos países nos quais ela não era conhecida pelo seu trabalho como crítica de arte. Aos 54 anos, a francesa de cabelos curtos se veste de maneira sóbria e fala com propriedade sobre seus livros. Diversos jornalistas, ao encontrá-la, se dizem espantados com a seriedade e mesmo com uma certa timidez encontrada nela. Há razão de fato para esse espanto? Existe de fato uma contradição entre os chamados "dois universos" da vida de Catherine Millet? A própria escritora afirma que não: a liberdade de sua vida sexual certamente se reflete em seu trabalho no campo da arte e na revista que dirige. Os dois mundos são a mesma Catherine, que mantém a liberdade como elemento-chave de sua vida profissional e pessoal.
Em 1972, aos 24 anos, Catherine Millet fundou a revista "Art Press", voltada para a arte contemporânea. A partir de então tornou-se um ícone da crítica de arte na França, além de fazer curadorias de exposições dos mais diversos artistas. Especialista em Salvador Dalí, fez de sua revista uma publicação independente, que prestigia a arte nas suas mais diversas formas, com a difícil missão de não rotular os tipos de arte. Desde 1992 a revista é lançada em francês e em inglês, abordando o que se conhece como "artes vivas" (teatro, performances etc.), literatura, cinema, além de apresentar sempre dossiês voltados para temas políticos e ideológicos: racismo, antissemitismo, liberdade de expressão.
A diretora da "Art Press" se mantém no comando da revista desde a sua fundação, e considera que seu trabalho como crítica de arte é o que a torna de fato uma figura relevante.
Mas é inegável que foi o livro sobre sua vida sexual que a tornou conhecida mundialmente. "A Vida Sexual de Catherine M." foi traduzido para 45 línguas, vendeu mais de 1 milhão de exemplares e fez com que sua autora passasse três anos viajando pelo mundo para falar sobre ele. Que a repercussão do livro foi tremenda ela não nega, como já publicado pela imprensa inúmeras vezes, mas assume que não era, de maneira nenhuma, esperada.
Millet diz que começou a escrever o livro como forma de explicar como ela e seus amigos haviam praticado uma ideologia de liberdade sexual, assunto muito abordado e discutido na própria "Art Press" em artigos sobre psicanálise ou sobre escritores voltados para a literatura erótica, como Georges Bataille. Para ela, nada dessa bagagem intelectual realmente explicava suas experiências individuais. Era necessário devolver complexidade ao tema da liberdade sexual; as teorias desenvolvidas a esse respeito, muitas delas feitas por homens, transformaram algo tão polêmico em umas poucas ideias simplistas.
E assim Millet começa a narrativa de suas experiências sexuais, a partir do momento em que perdeu sua virgindade, aos 18 anos. Narra orgias, relações sexuais em lugares públicos (como o Bois de Bolougne, em Paris, local conhecido por ser um ponto de prostituição) e até mesmo na própria redação de sua revista. Tudo é descrito em detalhes, com exceção dos parceiros de Catherine. Isso porque, para ela, boa parte do seu prazer no ato sexual estava justamente no anonimato dos homens com quem se encontrava. Fazia questão de pouco olhar para o rosto deles e concentrar-se somente em senti-los, fosse um homem só ou dezenas na mesma noite, um depois do outro. Nisso encontrava a sua liberdade: "Transar para além de qualquer noção de nojo ou moral não era somente uma maneira de se rebaixar, mas era principalmente se elevar acima de qualquer preconceito. Há aqueles que rompem tabus tão poderosos como o incesto. Eu me decidi por não ter que escolher meus parceiros", disse Millet em uma entrevista ao jornal inglês "The Guardian", em 2002.
O livro dividiu a crítica: alguns o consideraram libertador, criativo, trazendo realmente uma inovação em relação à sexualidade. Afinal, todo o texto está centrado no ato sexual em si, na sua forma mais física, totalmente desvinculada de romantismo --qual é o sentido em ser romântico para alguém que identifica apenas 49 parceiros sexuais, apesar de já ter participado de orgias com 150 pessoas? Afastar a ideia de prazer de sua associação com o romance era um dos objetivos da autora: ao procurar o sexo em todas as suas formas (ou quase), ela buscava apenas satisfação física, e nunca viu necessidade de construir histórias de amor a partir do sexo. Ela fazia sexo porque queria, porque podia, e estava disponível para isso o tempo todo.
Por outro lado, diversos críticos viram o livro como uma obra narcisista, sem nada de interessante --pelo contrário, de tanto descrever o sexo, o texto acabava por torná-lo chato. Millet também foi muito criticada por se distanciar do movimento feminista, oferecendo-se como instrumento para os homens. Para ela, isso é bobagem: nunca se aproximou das teorias feministas, uma vez que, nos anos 1970, elas remetiam a uma guerra entre os sexos na qual a escritora nunca acreditou. Muito pelo contrário, ela via os homens como fonte do seu prazer, qualquer que fosse ele.
Casada com o romancista Jacques Henric há 20 anos, encontrou nele seu objeto de amor, assim como de prazer --o que nunca a impediu de buscar esse prazer em outros homens.
Seja na linguagem usada em seus livros, seja nas entrevistas que dá, Millet se mostra a mulher inteligente, ácida e bem-humorada que está presente nos editoriais que escreve para a "Art Press": na edição de março último, faz uma crítica divertida e cruel sobre a mídia e sua relação com a arte, especialmente com a arte como mercado. Mesmo em seus textos mais acadêmicos ela não deixa de mencionar o que considera ser uma das coisas mais importantes do ser humano: a contradição.
Na verdade, foi uma contradição que apareceu em uma página de "A Vida Sexual de Catherine M." que levou a crítica de arte a voltar à ficção. Em uma única página do livro Millet faz referência ao ciúme --e foi muito questionada por isso. Como alguém com uma atividade sexual tão intensa e com tantos parceiros diferentes poderia falar em ciúme? E como ficava a relação dela com o marido?
Foi para responder a essas questões e explorar a crise em seu casamento provocada pelo seu próprio ciúme que a francesa decidiu expor novamente sua vida privada, mas desta vez em um livro carregado de sentimento. Foi assim que nasceu "Dia de Sofrimento". Nesta obra ela encontrou também um objetivo: discutir a questão da sexualidade livre a partir da contradição humana. Segundo ela, sua crença na liberdade não a torna uma pessoa imune ao ciúme e ao sentimento de posse; mas foi essa crença que a obrigou a conviver com ele e a manter o respeito pela liberdade de seu parceiro. Do fundo de todas as suas contradições --as existentes e aquelas criadas pela imaginação dos outros-- Millet é uma pessoa profundamente coerente dentro de suas próprias convicções.
Fontes: Artecapital.net; Ediouro; Folha de S.Paulo; "The Gardian"
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