Publicidade

Ilustrada
29/06/2009 - 19h38

Busca pela palavra impulsionou a escritora irlandesa Anne Enright

Publicidade

TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online

Foi assim que tudo aconteceu. Se escrever tivesse sido uma escolha, e não um impulso, e se um escritor tivesse controle pleno sobre suas histórias, é com essa sentença que a irlandesa Anne Enright, 46, gostaria de começar um livro, como ela mesma diz na introdução de seu livro, na versão em inglês, "O Encontro" (Alfaguara, 2007), única obra da autora publicada no Brasil. Para ela, isso indicaria um caminho pronto, uma história escrita com começo, meio e fim planejados. Uma história na qual o narrador pudesse guiar seu leitor em meio aos eventos narrados. Uma história fácil. Correta.

Divulgação
Anne Enright recebeu relevantes prêmios como o Booker de 2007
Anne Enright recebeu relevantes prêmios como o Booker de 2007

Mas isso é o que a escritora não faz. Enright diz não acreditar haver uma maneira correta de as coisas acontecerem, e menos ainda que ela soubesse como aconteceram. Escrever é um ato de pesquisa, de investigação feita pelo escritor e traduzida em seus personagens ao longo dos livros. Não há narrativas absolutas.

A irlandesa nasceu em Dublin em 1962, num momento em que seu país se encontrava envolto em um caos provocado por uma ruptura com a mentalidade cristã. Nos anos 1960, a partir de uma série de denúncias de abusos sexuais cometidos por padres da Igreja Católica, a Irlanda debateu furiosamente a questão do aborto, a religiosidade e a moral, a liberdade.

As pessoas se dividiam e se enfrentavam com uma ferocidade assustadora. Os pais de Enright acompanharam as mudanças e as incorporaram na educação da filha: aos 16 anos, ela conseguiu uma bolsa para estudar numa das escolas do grupo United World College, uma associação que, até hoje, se dedica a levar adolescentes de todas as partes do mundo para colégios internacionais, presentes em quatro continentes. Ela passou dois anos no Canadá, numa escola que reunia jovens de 50 países. Foi nesse ambiente internacional que Enright teve seu primeiro contato mais direto com literatura: um professor de inglês provocava debates entre seus alunos, fazendo-os esquecer as diferenças de fronteira, dominadas pelas diferenças em relação a questões literárias.

Sem planos

Enright apaixonou-se pelo cenário da literatura e pela liberdade com a qual livros eram escritos e interpretados. Ainda assim, não tinha o plano de se tornar escritora. Não que a Irlanda lhe deixasse muita escolha. Para ela, uma das principais imagens que foi formada do irlandês no imaginário europeu é a de que ele é um escritor, e seus pais e professores já tinham definido para si mesmos que ela seguiria esse caminho. Era uma excelente maneira de não ser anônima --algo que horrorizava sua mãe-- e manter suas raízes e tradições.

Enright seguiu o plano, apostando que tinha talento, mas sem necessariamente saber onde ele estava. Ganhou uma bolsa para estudar redação criativa na Universidade de East Anglia, uma das mais prestigiadas nos Estados Unidos, onde foi aluna de Ângela Carter e Malcon Bradbury, importantes escritores norte-americanos. Eles não lhe ensinaram nada sobre escrever --mas ela diz que aprendeu muito.

Passou, na universidade, por uma profunda crise de depressão ao encarar a sua realidade como pretensa escritora, que tinha as ideias mais geniais e pilhas de folhas de papel completamente em branco. Ela era como um balão, explica Enright, num artigo que escreveu para o jornal inglês "The Guardian", "que quanto maior e mais vistoso é por fora, mais recheado de nada se torna por dentro. Para terminar a metáfora: balões explodem".

Essa explosão, a necessidade de encarar-se como fracasso quando todos esperavam dela o sucesso, foi fundamental no seu processo de se tornar escritora --não mais na imaginação alheia, ou por um destino imposto, mas por um impulso próprio e incontrolável. "Escrever é algo que se aprende de dentro para fora, e é uma disciplina. Como tal, o fazer é tudo. Ninguém pode fazer isso por você", diz, no mesmo artigo.

Outras áreas

Apesar disso, Enright não voltou à Irlanda com um romance pronto, nem mesmo em pensamento. Tornou-se roteirista, produtora e diretora para o canal irlandês RTÉ (Radio Telefís Éireann, ou Radio e Televisão da Irlanda), escrevendo principalmente para o aclamado programa humorístico "Nighthawks", que marcou muito a transformação do pensamento e da censura na Irlanda. Foram seis anos nesse trabalho; nos dois últimos, produzindo um programa infantil, ela começou a escrever nos finais de semana.

Escrevia contos, gênero que considera seu favorito até hoje. "Contos, eu apenas os escrevo, não me preocupo demais. Com um romance isso não é possível, quer dizer, ele mora com você e é um problema e você não pode não escrevê-lo. Não se pode escolher não escrever um romance, e é irritante e está com você, e além disso você sabe que, se resolver o romance, resolverá também algo em si mesmo. É uma forma de crescimento. Um conto, eu posso deixá-lo de lado até que a peça que estava faltando se encaixe; não é um casamento, é apenas um encontro", relatou em entrevista à rádio australiana ABC.

Primeiro livro

"The Portable Virgin", seu primeiro livro, foi publicado em 1991 e reúne os contos escritos nesses dois anos. A obra foi premiada na Irlanda e aclamada pela crítica --algo que raramente acontecia com uma escritora irlandesa--, e esse sucesso encorajou a então produtora a se tornar escritora em tempo integral. Mas o principal elemento responsável por essa decisão foi uma segunda crise de depressão, provocada pelo trabalho na televisão. Escrever foi a sua saída.

Entre 1995 e 2002, Enright escreveu três romances, todos muito diferentes entre si. Ao contrário de boa parte dos autores irlandeses, suas obras não se voltam necessariamente para seu país. Ela escolhe cenários completamente distintos (como sua Dublin natal, Nova York ou a Venezuela do século 19) para abordar temas que parecem percorrer sua obra, embora muitas vezes nem ela mesma reconheça as conexões entre um texto e outro. Talvez essa diversidade seja o resultado de sua educação internacional.

Se, como ela mesma diz, Enright escreve apenas sobre o que sabe, é possível supor que conviver com pessoas de muitos lugares deu-lhe maior liberdade nas fronteiras da sua escrita. Porém, há uma razão mais profunda: o desejo de escapar do estereótipo irlandês e do fantasma dos grandes escritores que parecem pesar sobre aqueles que se aventuram a escrever na terra de James Joyce (1882-1941). Para ela, mesmo os mais subversivos foram domados pelo que define como uma espécie de molde para o escritor irlandês, criada na diáspora dos irlandeses pelo mundo.

Há dois pontos fundamentais, porém, que mantém enquanto irlandesa. O primeiro é a preocupação com o desenvolvimento intelectual de seu país --e para ela a questão da mulher é central. Diz acreditar que é preciso incentivar o trabalho de escritoras, em um universo que foi dominado por homens. Suas personagens são, em sua imensa maioria, mulheres que descortinam todos os aspectos do ambiente feminino. Surpreendem na forma como abordam o amor, suas relações, seu passado, seu sexo. A liberdade dessas mulheres reflete a forma como Enright vê as irlandesas: sedutoras, criadoras e muito, muito divertidas. E não é porque não aparecem assim descritas na literatura que essas características sejam menos reais.

Essa veia divertida das irlandesas é o outro ponto-chave da obra da escritora. Ela escreve livros incômodos, tensos, obscuros muitas vezes, sempre passionais. Investe profundamente em manter um lado cômico em seus personagens, que acaba por guiá-los para finais felizes. Finais de contos de fada? De maneira nenhuma. Mas finais que ofereçam ao leitor o alívio que ela mesma busca em um livro, e que encontra cada vez menos entre os escritores europeus. Enright enxerga uma saída para tudo. Mais do que isso, é uma escritora que não tem medo de desafiar os clichês ao dizer que "acredita na literatura como forma de mudar o mundo".

Man Booker

Esse sentimento só se reforçou com a publicação de seu último e mais premiado romance, "O Encontro" (Alfaguara, 2008). Foi o livro que lhe trouxe o reconhecimento que ela sempre desejou e temeu (porque significa o início da luta contra o tal molde de escritor), ao receber o prêmio Man Booker de 2007, surpreendendo a crítica em geral ao derrotar escritores já consagrados internacionalmente como Ian McEwan.

O livro conta a história de uma família de 12 irmãos (dos quais nove ainda estão vivos) completamente disfuncional, que se reúne para o funeral de Liam, o irmão que se suicidou. Verônica, a mais nova, é quem faz a narrativa, descobrindo segredos enterrados dos irmãos e de seus pais. O romance trata de suicídio, morte, tristeza, abuso sexual, depressão --caminhos percorridos pelos personagens até encontrarem seu destino. Foi descrito pela crítica como um livro denso, cruel, angustiante, especialmente porque cada personagem é profundamente real. Ainda assim, Enright insiste em lembrar o "final feliz", redentor, apesar das circunstâncias funestas; um final que é resultado da felicidade dela mesma com o livro e de sua satisfação como escritora.

Madeleine McCann

Enright é amante da palavra e investigadora da linguagem. O maior exemplo disso talvez não esteja em seus livros, e sim em um belíssimo artigo que ela escreveu para a revista literária "London Review of Books", sobre o desaparecimento da menina inglesa Madeleine McCann, em 2003. Intitulado "Disliking the McCanns" (algo como "Desgostar dos McCanns", em tradução livre), o artigo trata sobre as impressões da escritora sobre o caso, a partir da linguagem utilizada pelos pais da menina em suas entrevistas.

Numa abordagem sensível e meticulosa, ela discute o voyerismo inegável das pessoas sobre a família McCann e nossa facilidade de julgar e condenar o outro, traçando os rumos de uma história que pode não ter solução. Tudo isso por meio da linguagem: como soam determinadas palavras e expressões ao ouvido de um irlandês, para depois avaliá-las sob a ótica da semântica inglesa e escocesa.

Fala-se inglês na Irlanda, na Inglaterra, na Escócia, mas cada lugar tem sua compreensão particular da linguagem. Nesse artigo, Enright ilumina um pouco do mistério que cerca sua escrita e sua extraordinária facilidade de envolver o leitor na teia de seus textos, ou seja, a pátria de Enright pode ser a Irlanda --mas sua identidade é a palavra.

Fontes: "The Guardian"; Booker Prize; Just Write a Book"; lrb.co.uk; "Independent"

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca