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Ilustrada
29/06/2009 - 19h42

Quadrinista gaúcho tem como referência lugares para desenho

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TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online

Inspiração vem de qualquer lugar. De rabiscos em muros, de intrincados desenhos de Gustave Dorée [desenhista francês do século 19], de músicas dos anos 80, de frases prontas em parachoques de caminhão. Para Rafael Grampá, 31, um dos desenhistas brasileiros mais reconhecidos atualmente, tudo pode ser influência. Tudo é desenho. Tudo é traço.

Fotomontagem Folha Online
Primeiro livro solo do gaúcho Grampá é o livro "Mesmo Delivery"
Primeiro livro solo do gaúcho Grampá é o livro "Mesmo Delivery"

O gaúcho de 31 anos trabalhou muito para alcançar o destaque que tem hoje. Começou a trabalhar com desenho aos 14, ilustrando "livros de autoajuda para pais de adolescentes problemáticos", como ele define em seu blog. Foi nesse mesmo ano que incorporou a igreja evangélica em sua vida, intrigado pela religião.

Apesar de expulso após fazer um folheto que dizia "Jesus é a fudê", a experiência lhe rendeu o apelido pelo qual é conhecido hoje: um escritor de ascendência norte-americana, ajudado um dia por Grampá, lembrou-se de seu avô e começou a chamar o menino de "grandpa" (diminutivo de avô, em inglês). Pronto, nascia o nome artístico. Mas a vontade de desenhar é muito anterior. Suas primeiras lembranças são de rabiscar folhas enormes, aos 3 anos. As folhas podem ter diminuído, mas o traço cresceu, tornou-se sintético, virou arte.

Ao longo desse percurso, ele aproveitou todas as oportunidades que teve para desenhar. Fez estampas de camisetas, decoração de festa infantil e até brasões de bandeiras e logotipos de açougue --o que parece irreal dentro das ilustrações complexas e sofisticadas que seus quadrinhos têm hoje.

"Bang Bang"

Sua carreira como desenhista de HQ começou com o lançamento da coletânea "Bang Bang" (Devir, 2005), organizada por Shane Amaya e que reuniu, entre outros autores, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, nomes consagrados do HQ nacional. Os dois haviam feito um trabalho para o estúdio Lobo, conheceram o desenhista gaúcho e o convidaram para participar do projeto. Para ele, aí nasceu o autor Rafael Grampá. Mas seu nome se tornou verdadeiramente conhecido no mundo dos quadrinhos em 2007, ano em que Grampá, Moon e Bá, juntamente com Vasilis Lolo e Becky Cloonan, ganharam o Prêmio Eisner de Melhor Antologia, uma espécie de Oscar dos quadrinhos.

Foi a primeira vez que artistas brasileiros ganharam o Eisner; a partir daí, a visibilidade de Grampá na mídia cresceu, assim como a possibilidade de lançar seus próprios trabalhos no Brasil.

"Mesmo Delivery" (Editora Desiderata, 2008) é a primeira publicação solo do gaúcho. É uma HQ de ação, com cenas que lembram muito filmes do diretor Quentin Tarantino. O roteiro é uma história de suspense que tem como foco a empresa de entregas Mesmo Delivery, um entregador nada convencional -- o enorme Rufo -- e uma carga muito misteriosa. A inspiração começou a partir de um bloco de desenhos que ele tinha desde criança, e cresceu por todos os lados: da infância, época em que seu pai era gerente de uma transportadora, e ele e o irmão se divertiam brincando nos caminhões; da série "Além da Imaginação"; do aviso encontrado em elevadores, referente a uma norma de segurança ("Ao entrar no elevador, verifique se o mesmo está parado neste andar"), que inspirou o nome da HQ. Ao final da história, fica claro o fato de que o mistério não foi solucionado e que haverá uma continuação.

Carreira e mercado

Grampá explica que, normalmente, o que acontece com um desenhista no Brasil é conseguir um emprego para desenhar para um título específico, sem nenhuma liberdade de criação das próprias obras. É o que acontece com aqueles se dedicam a desenhar super-heróis: são parte de uma indústria enorme, mas têm que ter seu traço padronizado. "As editoras mandam os artistas se adaptarem ao mercado deles, você é reconhecido não como autor, mas como um bom reprodutor do que se faz lá", disse em uma entrevista ao UOL.

Ele nunca fez aula de desenhos nem faculdade. Para encontrar o seu estilo partiu de criações livres baseadas nos trabalho de outros cartunistas, até perceber que havia chegado em um tipo de desenho que não via em lugar nenhum. Ele tinha ideias, muitas referências, e se incomodava com o excesso de influência que elas pareciam exercer sobre seu desenho.

Mas foi em frente, procurando pensar cada vez menos em traços que conhecia para poder dar liberdade ao seu próprio estilo. Assim nascia o seu traço, autodidata e confiante, como ele mesmo. Achou sua maneira precisa de contar histórias, com ou sem texto. E não tem nenhuma dúvida de que o que faz é um trabalho artístico --não porque se encaixe em algum conceito de arte, mas sim porque seu trabalho é fruto, principalmente, do seu prazer.

Fontes: Folha de S.Paulo; UOL; Aguarrás

 

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