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17/06/2009 - 07h35

Grupo Galpão reencontra palcos ao ar livre depois de 12 anos

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LUCAS NEVES
da Folha de S.Paulo, enviado especial a Belo Horizonte

Cria das ruas de Minas, cenário das canções e folguedos que servem de combustível a boa parte de seus espetáculos, o Grupo Galpão volta a elas em "Till Eulenspiegel", seu primeiro trabalho, em 12 anos, concebido para palcos ao ar livre.

Pedro Silveira/Folha Imagem
Inês Peixoto (à frente, sentada) interpreta Till Eulenspiegel na montagem do Grupo Galpão
Inês Peixoto (à frente, sentada) interpreta Till Eulenspiegel na montagem do Grupo Galpão

Depois de "Um Molière Imaginário" (1997), livre recriação de "Um Doente Imaginário", a companhia fundada em 1982 na interseção de circo, farsa e tradições populares repisa espaços abertos para contar a história de um anti-herói da Alemanha medieval, o personagem-título.

"A rua traz um risco, desde a chuva até a possibilidade de um bêbado ou um menino cheirando cola entrar em cena, como já aconteceu. Ela deixa a gente em forma, preparado para qualquer situação", diz o diretor Júlio Maciel, 42 -também ator do Galpão, que volta a recrutar um dos seus para a direção depois de um hiato de nove anos.

Mas a familiaridade do grupo com a rua, espaço em que chegou a exibir-se sobre pernas-de-pau, no inaugural "E A Noiva Não Quer Casar" (82) e em "Romeu e Julieta" (92), não torna tudo muito mais fácil, previsível? "Não acho que a gente já tenha esse domínio. Na rua, o ator tem de ficar mais alerta, não tem aquela luz em cima dele que o impede de ver o espectador ou, por outro lado, aquela escuridão da caixa preta que de certa forma o protege. A rua não deixa a gente envelhecer, apesar de o corpo não dizer a mesma coisa", brinca Maciel.

Primo de nosso Macunaíma, ou seja, preguiçoso que só, Till não quer saber de deixar a boa vida do útero materno. Exasperada pela gravidez de cinco anos, sua mãe aceita que um anão vá "buscar" o rebento --dentro dela, bem entendido, truque possibilitado pela construção de um alçapão no palco.

Realizado o parto, Till se mostra encapetado demais para o gosto da progenitora, que o abandona. Começa aí o seu périplo pelo mundo, emendando "bicos" como exorcista da vez ou semiescravo na lavoura de um padre de caráter volátil.

No caminho, não se furta a praticar pequenos golpes ou maldades contra comerciantes ou mesmo um trio de peregrinos cegos que, meio instintivamente, busca chegar às torres de Jerusalém.

O diabo e suas gravatas

A certa altura, despojado de tudo, Till negocia sua consciência com o diabo -um sujeito fino, de calça vermelha de veludo, botas com salto e um colete cheio de gravatas (ou seriam bravatas?), aceno do figurinista Márcio Medina aos poderosos de qualquer época.

"A Idade Média é um período muito rico, fértil, de extremas desigualdades, não muito diferente do tempo de agora, onde convivem o desenvolvimento em alguns bolsões e a miséria em outros. São territórios semelhantes", diz o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, 57, que, em 99, adaptou do folclore alemão a saga desse parente do português Pedro Malasartes.

Leitmotiv das peças recentes do Galpão, a ética --ou os intervalos dela, mais precisamente-- reaparece aqui como protagonista. A cegueira da trinca de andarilhos, os trapos vestidos por quase todos os personagens e seu aspecto depauperado são só algumas das remissões a esse vazio moral. "Essa turba de rebotalhos somos nós, que trombamos e nos desesperamos dia após dia com essas falhas de caráter, esse poder discricionário, absolutista.

É derrota atrás de derrota. A ética é uma utopia, mas ela precisa estar na ordem do dia", afirma Abreu, cuja parceria com o grupo belo-horizontino começou em 2000, com "Um Trem Chamado Desejo". Em "Till Eulenspiegel", além dos pecadilhos éticos que são a base da intriga, o Galpão reincide em duas de suas marcas: o tom de farsa e a execução ao vivo da trilha sonora por seus integrantes, com direito a trompete, sax, tambor e outros.

Depois da contenção de "Pequenos Milagres" (2007), incursão da companhia pelo drama intimista, o que se vê agora é o reencontro com a vibração de "A Rua da Amargura" (1994) ou a mais recente "O Inspetor Geral" (2003).

TILL EULENSPIEGEL
Quando: estreia no dia 3/7
Onde: pça do Papa, em Belo Horizonte

 

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