Chinesa que vai à Flip começou contando histórias de mulheres
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online
Em 1988, uma voz suave começou a ecoar diariamente nos lares chineses. Entre 22h e meia-noite, as mulheres da China encontravam um eco, um conforto e uma realidade nas palavras de Xinran Xue. Nascida em Pequim pouco antes da Revolução Cultural (1966) de Mao Tsé-tung, um movimento que dividiu o povo chinês [os comunistas, no poder desde 1949, procuravam massacrar o que acreditavam ser os "ideais burgueses e capitalistas" de seus compatriotas], ela encontrou na sua história uma coragem inédita para desafiar o lugar submisso do universo feminino na tradição chinesa.
"Palavras na Brisa Noturna" era o nome do programa. Por mais poético que possa soar, o significado pode ser interpretado de forma quase literal, pois o que ela fazia todas as noites era ler e comentar as cartas enviadas por seus ouvintes. A partir da cidade de Nanquim, onde gravava, as histórias que recebia de todas as partes da China construíram um retrato fiel e assustador da diversidade existente no país e, mais ainda, de como viviam as mulheres chinesas nos primeiros anos após a reabertura do país para o Ocidente.
| Reprodução |
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| A jornalista e escritora chinesa Xinran Xue, que participa da Flip 2009, de 1º a 5 de julho |
A cada noite essas mulheres podiam conhecer as vidas de desconhecidas e se sentir um pouco menos deslocadas e solitárias em suas experiências. Xinran descrevia o que nunca havia sido pronunciado, enquanto as vozes das muitas mulheres condenadas ao silêncio por anos uniam-se em uma única frequência.
Começar o programa de rádio não foi nada fácil para a chinesa. Ela só o conseguiu depois da reabertura econômica do país [na década de 1980], e se manteve no ar pela imensa notoriedade que ganhou durante o primeiro mês de cobertura: em três semanas já havia recebido mais de cem cartas por dia, cem histórias diferentes que ela queria --e precisava-- contar. Essa vontade não surgiu por acaso, mas sim das próprias experiências de Xinran.
Perseguições
Nascida em 1958, com um mês de idade foi mandada para viver com sua avó. Sua mãe mal teve tempo de abraçá-la após o parto, e não o faria pelos quarenta anos seguintes, pois o governo incentivava as pessoas a devotarem sua energia e amor à pátria, e não à família, uma instituição secundária durante o governo de Mao Tsé-tung. Xinran e seu irmão cresceram com os pais de sua mãe, membros de uma família abastada, culta e ocidentalizada. Eram, assim, o alvo perfeito para a polícia da Revolução Cultural, para quem os intelectuais eram a camada mais negra de todos os antirrevolucionários.
Antes mesmo do nascimento de Xinran sua família já havia sofrido perseguições. Seu avô paterno foi preso aos 70 anos, acusado de ser capitalista; sua mãe foi considerada desde adolescente como membro da "classe negra" [pessoas descendentes de "capitalistas"], e foi mandada para trabalhar em campos agrícolas distantes. Só assim, acreditava-se, é que os filhos dos capitalistas conheceriam o valor dos camponeses, considerados como os verdadeiros chineses e símbolo da Revolução Cultural. Apesar disso, a infância de Xinran e de seu irmão foi tranquila até voltarem a viver com os pais, sete anos depois do nascimento da escritora, quando a guarda cultural de Mao chegou até ela.
O que começou como um dia comum resultou na maior transformação na vida da autora. Xinran voltou da escola para encontrar sua casa revirada, seu pai espancado e preso, os livros e objetos que constituíam a história da família queimados numa enorme fogueira. O choque aumentou quando um guarda agarrou-a e cortou as duas tranças enfeitadas com fitas que prendiam seus cabelos --eram a marca de uma criança "imperialista" e "antirrevolucionária". As tranças foram atiradas ao fogo, enquanto a menina muda via seus fios se retorcendo nas chamas, as fitas coloridas se transformando em um único amontoado cinza --aparentemente cor do futuro reservado a ela e ao irmão: dias depois dessa primeira invasão, a mãe de Xinran também foi presa. Durante os dez anos que os pais passaram na cadeia, as duas crianças foram mandadas para escolas militares, marcadas como "crianças negras", filhos de uma família antirrevolucionária e traidora da nação.
Em termos práticos, isso significava que não podiam brincar com as "crianças vermelhas", o modelo de pureza do período maoísta; comiam apenas as sobras deixadas por elas e não podiam revidar nenhum tipo de agressão. Ela cresceu acreditando que seus pais eram traidores do país e aprendeu a considerar a si mesma como inferior às outras crianças por causa de sua origem. Mas um de seus antigos mestres foi responsável por seu amor aos livros: com a promessa de que ela não contaria a ninguém, ele deu a Xinran a chave de um armário cheio deles, para que ela pudesse ler ao invés de chorar.
Durante o lento processo de reabertura da China Xinran estudou, conseguiu dois diplomas universitários e serviu no Exército. Foi para resistir à prisão que lhe havia sido imposta na infância que ela, quando pôde finalmente se libertar e escolher uma profissão, decidiu ser jornalista. Queria experimentar, conhecer e ouvir as pessoas, buscar o contato pessoal que não teve durante tantos anos. Era sua liberdade, claro --mas era também a oportunidade de libertar as vozes da China.
O programa de rádio a tornou conhecida por toda a China, além de uma profissional extremamente bem remunerada e admirada por sua coragem. Mas, quando começou a receber as primeiras cartas que pediam sua ajuda [como um pedido de resgate de uma menina de 12 anos que havia sido raptada por um velho de mais de 60 anos para ser sua mulher), é que Xinran sentiu o impacto do país em que vivia, ou seja, conseguir auxílio das autoridades era quase impossível, e ela passou a ser massacrada por críticas que diziam que ela estava desperdiçando tempo e dinheiro da emissora com suas tentativas de resgate.
Preço da mulher
Depois de seis anos à frente do programa e da rádio, ela largou tudo para empreender uma viagem de 24 meses, quando circulou pelos pontos mais distantes da nação, buscando a resposta à "quanto vale, afinal, uma mulher na China?".
A descoberta da Colina dos Gritos, uma comunidade que vivia em cavernas, na qual as mulheres mal tinham roupas e nenhum cuidado, foi a resposta que ela precisava para decidir sair do país e procurar outra realidade sobre o universo feminino. Em 1997, ela deixou seu filho Panpan, de dez anos, com os avós e mudou-se para a Inglaterra sem praticamente falar inglês. Queria descobrir como era ser chinesa no exterior. Trabalhou como faxineira, deu aulas de chinês, foi garçonete. Durante dois anos descobriu um novo horizonte e o interesse por parte dos ingleses em expor as histórias que havia recolhido enquanto fazia "Palavras na Brisa Noturna". Das centenas de cartas recebidas por ela enquanto manteve o programa, e que ela respondia uma a uma, resultou seu primeiro livro, "As Boas Mulheres da China" (Cia. das Letras, 2003). Nele ela relata algumas histórias escolhidas, entremeando-as com a sua própria história. Fala de mulheres de todos os tipos e classes, especialmente das camponesas (categoria até hoje majoritária na China).
Afinal, as distâncias e a falta de comunicação de certas Províncias chinesas impediram por muito tempo que as histórias das mulheres que trabalhavam no campo fossem conhecidas nas principais cidades do país, que dirá no resto do mundo. O livro foi publicado primeiro na Europa; as editoras chinesas só começaram a cogitar lançá-lo em 2002, pelo conteúdo considerado escandaloso e ofensivo para a política do país.
Desde 2000, quando Panpan juntou-se a ela na Inglaterra, Xinran vive lá com o filho e o marido, o agente literário inglês Toby Eady. Tornou-se professora de Estudos Asiáticos na Universidade de Londres, e ficou impressionada com quão pouco seus alunos sabiam sobre o passado de suas famílias chinesas. Aos poucos, incitou-os a ligar para suas mães e perguntar-lhes sobre sua história As respostas eram sempre variações da mesma ideia: não falar do passado, porque falar traz de volta a dor vivida. A motivação de dar a conhecer ao mundo um pouco mais da história da China levou-a a escreveu seus livros seguintes, sempre na Inglaterra: "O que os Chineses Não Comem" (Cia. das Letras, 2003), uma coletânea de artigos que a autora escreveu para o jornal inglês "The Guardian", do qual foi colunista por alguns anos; "Enterro Celestial" (Cia. das Letras, 2004), que conta a história de uma mulher que desafiou as explicações oficiais sobre a morte de seu marido e viajou durante três décadas pelo Tibete para encontrá-lo; "Miss Chopsticks", ainda não lançado no Brasil, no qual retrata as diferenças de tratamento entre homens e mulheres chineses; e seu livro mais recente, "Testemunhas da China", que será publicado aqui em junho deste ano.
É o resultado de uma série de entrevistas feitas por Xinran com homens e mulheres da geração de seus pais, coletadas ao longo de 20 anos. Seu objetivo era entender como viveu a geração que passou por todo o processo da Revolução Cultural e resgatar a memória dessas testemunhas. Foi auxiliada por seis estudantes chineses, que ficaram absolutamente chocados com a descoberta de uma história de seu país que lhes era desconhecida.
Hoje, Xinran não pensa em voltar a viver na China: mantém o vínculo com a terra natal por meio de constantes viagens para lá, que a surpreendem mais e mais a cada volta. A China se transforma em passos acelerados, rumo ao... A que? A própria chinesa não sabe e, às vezes, mal reconhece o país que deixou. "No ano passado abriram uma Starbucks na Cidade Proibida! Acharam que era a união perfeita entre as culturas ocidental e chinesa. Em 20 anos se pode mudar uma rua com dinheiro e ideias do Ocidente, mas não se pode mudar a cabeça das pessoas, sua história e sua cultura tão rapidamente. Em 2003 viajar livremente foi permitido pela 1ª vez. Antes disso podíamos ser presos se viajássemos sem uma permissão. Muitos não sabiam o que acontecia no vilarejo ao lado! Agora, todos podem ser educados através de seus próprios olhos --é uma liberdade que nunca tivemos antes", escreveu em um artigo publicado no "The Guardian", no ano passado.
Essa liberdade lhe parece positiva, mas não a impede de estranhar essa "nova China". Xinran chega mesmo a se perguntar se ainda é chinesa de fato, um questionamento profundo sobre onde reside sua identidade, onde permanece seu coração.
Ainda é muito difícil, ela não nega, fazer com que as mulheres da China encontrem sua voz e contem suas histórias. É difícil para ela mesma, que pouco fala da relação com o pai de Panpan, seu primeiro marido. Sobre isso, ela limita-se a dizer que ele não percebia quão pouco a respeitava. Também não consegue se impedir de defender seu país a cada vez que surge numa conversa o "lado negro" da China: conhecer a realidade, para ela, não significa abandonar o orgulho por sua nação e por suas origens. Apesar disso, continua seu trabalho e procura um alcance cada vez maior. Em 2003, fundou a ONG Motherbridge's of Love para tentar estabelecer uma relação entre as crianças chinesas de todo o mundo, desde as que vivem na China, as filhas de imigrantes e aquelas que foram adotadas por casais estrangeiros.
A história da ONG se tornou um livro com o mesmo nome da organização, e faz com que Xinran consiga cumprir o papel que estabeleceu para si mesma quando escolheu seu nome. Batizada apenas como "Xue", aos 15 anos ela acrescentou "xinran" (ideia tirada de um poema do escritor chinês Ziqing Zhu), que significa "dar prazer".
Mais do que prazer, ela busca levar conforto às mulheres da China, àquelas que ali vivem e às que, como ela, construíram suas vidas ao redor do mundo. O ditado chinês que ela um dia usou para homenagear sua sogra descreve também a ela própria "Uma vida selvagem tem um gosto melhor...". A trança de cabelos pretos que um dia Xinran perdeu para o fogo transformou-se num entrelaçado de muitos fios e de muitas histórias, numa trama feminina mais complexa e profunda que fogueira nenhuma é capaz de silenciar.
Fontes: "The Guardian"; "Independent"; UPI Asia; Xinran Books
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