Memorialista francês lançou sua primeira obra depois dos 40 anos
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online
Quando se fala de arte, é comum ouvir o clichê "a arte imita a vida", ou vice-versa. Mais comum ainda é que se pergunte a um artista, qualquer que seja sua especialidade, se é a arte que imita a vida ou a vida que imita a arte. As respostas são diferentes para cada vez que a questão é proposta; porém, alguns artistas parecem levar essa questão a outro extremo, borrando por completo qualquer linha fronteiriça entre vida e arte. É o caso do memorialista francês Grégorie Bouillier, que afirma categoricamente em seu primeiro livro: "Não há distinção entre vida e arte. Nem entre ficção e realidade. Realidade é ficção!".
Bouillier nasceu em 21 de junho de 1960. Sua primeira publicação ocorreu em 2002, quando ele já havia passado dos 40 anos, com o livro "Rapport sur Moi", que conta as experiências que vivera até aquele momento. É uma autobiografia ou um romance? Nem um nem outro. Ele o define como "realidade". Trabalhava como editor e pintava nas horas vagas, quando achou que sua vida podia ter algo a dizer ao mundo. Se isso é verdade ou não, cabe ao leitor questionar a si mesmo quando decide ler um dos livros do escritor. Esse começo considerado tardio não incomoda Bouillier. Ele questiona a relevância de escritores muito jovens e oferece diversas explicações para a demora em publicar seu primeiro livro.
| Divulgação |
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| O esccritor francês Grégoire Bouillier, que participa da festa literária em Paraty, em julho |
A primeira delas é a mais curiosa, pois quando criança caiu doente, e passou por uma quarentena num hospital. A experiência, segundo ele, foi tão traumática que manteve a palavra "quarentena" ("quarentine", em francês) no inconsciente do autor e o fez acreditar que não realizaria nada de importante antes dos 40 anos. O próprio escritor define essa explicação como a mais neurótica de todas, e oferece outra --em um mundo obcecado pela juventude, iniciar uma carreira tardiamente e brilhar nela é quase um ato político. Se fosse um "jovem autor", ele diz acreditar que a ênfase estaria em "jovem", e não em "autor", deslocando por completo o sentido de seu trabalho. Para aqueles que não se contentam com suas explicações, ele ainda traz uma terceira --sua crença de que, para escrever algo que valha a pena ler, é necessário ter vivido algo que valha a pena contar.
A experiência de vida testa os homens, os desafia e os engole: o maior teste que um homem pode superar é conseguir colocar no papel aquilo que, quando vivido, o deixou sem palavras.
Essa visão particular sobre a literatura explica o fato de a obra de Bouillier ser centrada na vida do autor. O memorialista insiste em afirmar o quanto rejeita a literatura que se desprende da realidade, a ficção que se afasta do que é vivido. Para ele, se a verdade é muito mais surpreendente e interessante que a ficção, porque ainda há livros que não colocam um gancho sequer no mundo real? Essa distância impede que um livro possa transmitir o que ele chama de "leis universais da vida": experiências de amor e morte, de dor e estranhamento. Livros que se distanciam disso são a contramão da literatura --pelo menos daquela feita por Bouillier.
Com muitas opiniões e três livros publicados, o francês procura constantemente explicar a função exercida pela história em um livro de memórias. Como um homem que cresceu entre os anos de 1960 e 1970, ele poderia ser visto como um dos "filhos de 1968", e imprimir a crítica daquela época em sua obra [como faz boa parte dos escritores de sua geração]. Mas ele se recusa, e diz acreditar que o momento em que um homem vive é apenas conjuntura.
Isso fica bastante claro em "Rapport sur Moi", que lhe rendeu o prestigioso prêmio "Prix de Flore". Começa pelo começo. Seus pais foram parte do furacão da década de 1960, constantemente retratada como um período marcado pela liberdade sexual. Ao longo da leitura do livro, a impressão que se tem é de que isso afetou profundamente a vida do autor quando tinha cinco anos e ouve de sua mãe que foi concebido em um "ménage a trois" [relação sexual feita a três pessoas] na Nigéria, entre seus pais e um residente do hospital no qual o pai de Bouillier cumpria seu serviço militar. Ela não para por aí: diz que, quando o esperma de dois homens se unem em uma mulher, a criança que nasce será um mutante, e que ele devia saber disso por sua própria mãe.
São as marcas da liberdade sexual e da irresponsabilidade associada a ela? Talvez. Crítica de Grégoire a isso? Certamente não. Ele é enfático ao declarar que, se tratou dos anos 1960 e 1970, foi apenas porque nasceu e cresceu nessa época. Tanto faria se tivesse nascido em 1920 ou 1930, pois escreveria as mesmas coisas, relataria sua infância do mesmo jeito. E vai além, ao afirmar que a realidade dos homens não pertence ao período histórico em que viveram, mas sim ao acúmulo de experiências que resultaram naquele período e naquilo que é vivido pelo próprio homem.
Parece contraditório. É possível que não sejamos fruto dos momentos históricos em que vivemos? A fala de Bouillier e seus livros não esclarecem a dúvida. Ao contrário, a tornam mais complexa. Os eventos que ele escolheu para contar sobre sua vida talvez não fossem possíveis em outros tempos --e o afetaram profundamente, isto ele deixa claro. Por exemplo, um de seus irmãos se revelou homossexual e morreu de Aids; a mãe tentava o suicídio constantemente [a primeira vez que ele presenciou uma dessas tentativas foi aos sete anos] e abortava um filho após o outro; o pai abandonou a família para viver com sua amante, mas foi recebido de braços abertos pela antiga mulher um ano depois. Sem dúvida, uma vida repleta de incidentes dramáticos que parecem ter resultado em um homem inseguro, desconfiado, um tanto autocentrado e dono de um humor muito particular --é preciso reconhecer que todos os problemas de família são contados muitas vezes como anedotas, e as risadas que provocam tiram muito do peso que a história poderia ter.
Mas o final ganha um tom depressivo e desiludido. "Minha ação não mudou nada. Tudo permaneceu no mesmo lugar. O mundo é o mesmo, e eu sou seu prisioneiro. Minha intervenção nele não realizou nada. Não causou nenhuma revelação. É sempre o mesmo vazio opressivo. O mesmo tempo, que se repete. A mesma morte em vida. É o mesmo eu (trecho do livro "Rapport sur Moi")".
A conclusão de "Rapport sur Moi" não parecia indicar uma continuação de seu trabalho. Mas Bouillier tinha --e tem-- mais a contar. Em 2004 lançou seu segundo livro, "L'Invité Mistyère", que será publicado neste ano pela Cosac Naify. Nele, o autor desenrola um evento mencionado no primeiro livro --o fim de um relacionamento amoroso com uma mulher chamada Laurence, e que o perturbou imensamente. Depois de sete anos juntos, quando ela se encontrava grávida dele, os dois param para tomar um café. Ela vê um homem, se levanta, senta-se à mesa do desconhecido e, horas depois, vai embora com ele sob o olhar estarrecido de Grégoire. Sem uma palavra. E assim permanece até que, quatro anos depois, ela ressurge em um telefonema, não para se desculpar ou dar explicações, mas apenas para convidá-lo para uma estranha festa de aniversário de uma artista contemporânea. Atordoado com o retorno, o escritor aceitou, e terminou por se tornar o "convidado misterioso" de uma das famosas comemorações da artista Sophie Calle.
Entre 1983 e 1990, a cada ano ela convidava o número de pessoas correspondentes à sua idade e um completo desconhecido, que representava a idade que faria. Depois de passar horas obcecado com o significado do convite e com o mimo que levaria para a aniversariante desconhecida, Bouillier saiu de casa levando como presente uma garrafa de vinho mais cara do que seu aluguel --e que nunca foi tomado, pois Calle guardava os presentes recebidos sem abri-los para uma exposição --a famosa "Le Rituel d'anniversaire" ("O Ritual do Aniversário"). Ele pouco permanece na festa, sentindo-se humilhado pelo encontro com a ex, sua única conhecida na reunião. Mas o que poderia ser o mote para lamentações amorosas resulta em um livro termina, em tom bem-humorado, com a descoberta das razões do rompimento. Uma conclusão digna de um final feliz. Parece contraditório? Talvez. Mas a esta altura o leitor já sabe que contraditórios não são os livros, e sim o próprio autor.
Essa festa marcou o início da relação de Grégoire Bouillier com Sophie Calle, que seria sua namorada anos depois. Durante todo o relacionamento ela sempre teve muito mais projeção do que ele; e, quando decide romper com a artista, o escritor decide fazê-lo por e-mail. Acabou a missiva com a frase 'Prenez soin de vous' (algo como 'cuide-se') - e teve que ver seu texto ser dissecado por 107 mulheres na exposição que Calle fez para se livrar do sofrimento provocado por ele. Como a artista coloca, levou o conselho ao pé da letra... e cuidou-se. Aparentemente, Bouillier não gostou de ver sua vida e seu texto desconstruídos e tão expostos (o que não parece fazer muito sentido, uma vez que seus livros tratam de sucessões de episódios humilhantes), mas não pode negar que a exposição deu a seu trabalho - e a ele, principalmente - uma projeção que nem mesmo o Prix de Flore foi capaz de conseguir.
Em 2008 o escritor lançou seu último livro, "Cap Canaveral". Novamente a história narra um episódio de sua vida --afinal, ele é um memorialista--, mas com uma diferença fundamental. Para contar a relação amorosa com uma jovem 25 anos mais nova que ele, Bouillier abandona o relato em primeira pessoa e utiliza um recurso não muito popular: todo o texto é narrado na segunda pessoa do singular. Seu objetivo com essa mudança era ganhar maior liberdade na narração, o que ele diz acreditar ser impossível dentro da subjetividade exigida pelo uso do pronome "eu".
O leitor sabe que o narrador é Bouillier --ele faz questão de deixar isso claro-- mas o antigo "eu" se torna outro, um "você" que parece transitar dentro e fora do narrador. É sem dúvida uma experiência de leitura bastante distinta de seus dois livros anteriores, mas o escritor não deixa claras as razões pelas quais decidiu fazer essa mudança. É uma experiência narrativa? A história que ele conta exigiu esse formato? Somente ele é capaz de responder a essas perguntas, ele que rompe com as convenções literárias de que narrador e autor são diferentes. Afinal, uma vida escancarada em livros não significa deixar para trás uma certa dose de interpretação e enigma.
Se há algo em comum nos livros de Bouillier, além da temática centrada em sua vida, é uma sensação profunda de conexão entre o narrador (ou será autor?) e o leitor. Ele é absolutamente franco em suas memórias; dentro da edição que faz de sua vida, não hesita em expor erros, tropeços, hesitações, bobagens e inseguranças. Ao fim de cada leitura, é possível sentir que as experiências dele poderiam ser as nossas; que não há problema em ser impulsivo e fazer coisas das quais nos arrependeremos (mesmo quando sabemos disso antes de fazê-las).
Bouillier desconsidera as fronteiras estabelecidas por autores e críticos entre ficção e realidade; não quer saber da categoria "autoficção", na qual tantos procuram enquadrar seus livros, e que ele define como uma forma de reality show, uma máscara da própria vida. Tampouco chama seus livros de autobiografias, e ri quando alguém lhe pergunta sobre "seus romances" Mas, para além de tudo isso, ele lança ao ar uma ideia que permanece para além de suas histórias, ou seja, fazer bobagens, ser estúpido, se expor ao ridículo e poder conviver com todas as contradições como se elas sequer existissem pode não ser um problema --mas sim a beleza de ser humano.
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