Companhia portuguesa encena Pessoa
LUCAS NEVES
da Folha de S.Paulo
Em um de seus textos, o ajudante de guarda-livros lisboeta Bernardo Soares, semiheterônimo de Fernando Pessoa (1888-1935), narra uma epifania: o sol do meio-dia empresta à grande cidade o bucolismo de uma aldeia campestre. Da varanda do escritório, ele espia o instante suspenso como alguém na proa de um navio, em turismo infinito.
| João Tuna/Divulgação |
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| João Reis em cena de "Turismo Infinito", em cartaz em São Paulo |
Esse abandonar-se ao sensorial, ao sabor da poesia de Pessoa, é o que propõe "Turismo Infinito", espetáculo do Teatro Nacional São João, do Porto, em cartaz no Sesc Pinheiros.
A dramaturgia de António M. Feijó costura versos do autor ele mesmo com criações de seus heterônimos, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e o já citado Soares. Há também excertos de cartas de Ofélia Queirós, grande paixão do poeta.
"Foi difícil descobrir como manter no ar, apesar da falta de contracena, conflito interno subjetivo ou história a ser narrada, a tensão suficiente para que os atores não se perdessem uns dos outros e o público ficasse hipnotizado", diz o diretor Ricardo Pais, 63, um dos nomes incontornáveis da cena lusa.
Em 2000, esteve no Brasil seu "Madame", encontro de "Dom Casmurro" e "Os Maias", a partir de uma provocação de Fernanda Montenegro --e com Eva Wilma no elenco. Amigos, Pais e Montenegro devem trabalhar juntos numa adaptação para os palcos de "A Amante Inglesa", de Marguerite Duras, ainda sem data definida.
Em "Turismo Infinito", o diretor pede a seus atores mais do que a declamação límpida: quer a descoberta "da dor que está por trás do que se escreve". Não no sentido de achar motivações psicológicas para personagens (até por que eles estão ausentes da cena), mas no de "corporizar a escrita".
Durante os ensaios, prossegue Pais, o desafio foi, para além da racionalidade, descobrir "como polos de atração poderiam se transformar em sinais cênicos, de forma a criar a ilusão de que se assiste a algo teatral, quando a última coisa que aquilo é é uma peça".
Moçambique
Numa feliz coincidência, outra amostra do teatro em língua portuguesa produzido fora do Brasil está em cartaz neste fim de semana. É "A Mulher Asfalto", solo em que a atriz moçambicana Lucrecia Paco parte dos relatos confessionais de uma prostituta para tratar de toda forma de submissão e anulação do outro.
Hoje e amanhã, às 20h, no Itaú Cultural (av. Paulista, 149, tel. 2168-1776; grátis, mas é preciso retirar senha duas horas antes; 14 anos).
TURISMO INFINITO
Quando: qui., sex. e sáb., às 21h, e dom., às 18h; até 28/6
Onde: Sesc Pinheiros - teatro Paulo Autran (r. Paes Leme, 195, tel. 3095-9400)
Quanto: R$ 20
Classificação: 12 anos
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