Comentário: Lady Gaga e a Lojinha do Pop
JAMES CIMINO
da Folha de S.Paulo
Quando vi aquele incrível vestido transparente de bolhas, pensei que era apenas mais uma das excelentes metáforas involuntárias que a indústria cultural acaba gerando para a máxima de que "tudo que é sólido desmancha no ar".
Passei umas boas três semanas zoando meus amigos e meu namorado. Tentei convencê-los de que Lady Gaga não era a "nova Madonna", que sua musicalidade me lembrava aquele "poperô grudento" dos anos 90 e que eu achava que, no fundo, ela não passava de uma nova La Bouche ou, no máximo, uma Corona com o timbre de voz da Christina Aguilera, os figurinos da Britney Spears e, vá lá, o mesmo esquema cênico e postura da Madonna.
| Fred Thornhill/Reuters |
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| Lady Gaga, em apresentação na edição de 2009 do "Much Music Video Awards", em Toronto, no Canadá, no último final de semana |
Meu discurso negacionista resistiu até sábado passado. Ao ver a apresentação ao vivo do hit 'Poker Face' no programa da Ellen DeGeneres pelo Youtube, entendi porque a chamam de "a nova Madonna".
Na verdade, Lady Gaga parece ter passado pela lojinha do pop. Esteve na prateleira do Michael Jackson e pegou as luvas, alguns passos de dança não tão óbvios como o 'moonwalker' e aquela atmosfera 'street dance' de seus clipes.
Depois, passou pela seção princesas do pop. Pegou o figurino de policial-cachorra-dominatrix da Britney, o timbre de voz e os falsetes da Christina Aguilera e o rap de boutique da Fergie e da Gwen Stefani.
Mas foi no andar da Madonna que ela pegou os principais itens: controle total de cena e de palco; bailarinos como extensão da própria imagem; coreografias marcantes para cada música; estética do videoclipe; o sutiã pontudo, dessa vez cuspindo fogo; apresentações nos programas mais populares das TVs europeias e americanas para conquistar as
massas; sugestões de bissexualidade; músicas falando de sexo implícito, dinheiro e fama; uso consciente da mídia e até a figura do Mr. DJ está em cena com ela.
Parece um tudo-ao-mesmo-tempo-agora. E é, pois todo artista pop, em começo de carreira, tem que mostrar a que veio. E Lady Gaga veio para passar por cima de todas as outras, Madonna inclusive, já que ela tem o que a rainha não tem: alcance e controle vocal, mesmo dançando.
Não é a toa que Madonna, por influência da filha, e Cindy Lauper levantaram de seus tronos e foram, no mesmo dia, a um show de Lady Gaga em Nova York. Dá até para imaginar a cena de Madonna ligando para seus produtores e dizendo: 'Arranja um jeito de eu beijar a Lady Gaga na boca.'
Mas, já que ela é um amontoado de referências visuais, porque ouvi-la, já que, em um primeiro momento, música é o que menos importa em Lady Gaga?
A resposta para isso está nas apresentações ao vivo. Como hoje em dia o que dá dinheiro são os shows, Lady Gaga mostra que, antes de tudo, entende de arranjos musicais (estudou piano por muitos anos) e que sua experiência em apresentações em clubes noturnos de Nova York, concursos de miss e em promoções baratas em rádios lhe deram a presença de palco que todo artista pop precisa ter.
No concurso de miss universo do ano passado, mesmo cercada por algumas das mulheres mais bonitas do mundo, era difícil de não olhar para ela. E Lady Gaga, sem toda a parafernália, é feia, embora gostosa.
A cantora também não sai do personagem. Não gosta de revelar seu verdadeiro nome em
entrevistas (diz que todos a chamam de Gaga) e, sem toda a montação, é capaz de passar despercebida na rua. Ou seja, pode-se dizer que, em vez de ser a nova Madonna, ela é, na verdade, a melhor aluna dos reis do pop.
Não apenas alguém que premeditadamente se fez em cima das referências pop, mas um autêntico produto dessa cultura dos clubes gays. Ela, inclusive, já disse que seu primeiro foco foram os gays, que frequenta esses clubes e que é bissexual. Ou seja, essas referências não foram compradas por seus produtores na lojinha do pop.
Além disso, no palco, nunca parece uma marionete da indústria como a Britney, Christina Aguilera, Gwen Stefany, Fergie etc. Muda sempre os timbres de voz, entra e sai da coreografia o tempo todo, sorri, grita...
Talvez por isso, dificilmente vá subir no palco chapada como a Britney e dificilmente será vítima dos paparazzi, como a Amy Winehouse. Aliás, em sua canção 'Paparazzi' ela, ambiguamente, reconhece que, talvez, eles [os paparazzi] sejam as maiores estrelas do showbizz.
Caso você goste de pop e, como eu teimosamente fiz por três semanas, ainda esteja torcendo o nariz para Lady Gaga, a melhor canção para se iniciar (e também a mais grudenta) é 'Poker Face'.
Segundo Gaga, essa expressão é fruto das relações sexuais que tinha com o ex-namorado. Enquanto transava com ele, pensava em outras mulheres e fazia uma cara impassível, como os jogadores de poker, para que o namorado não percebesse o blefe. Algo que os gays brasileiros chamam de 'fazer a egípcia'.
Se a história é verdadeira pouco importa, mas a explicação e a música são ótimas.
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