Francês que vem à Flip rechaça a ficção como material literário
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online
Para Grégoire Bouillier, 49, a vida é muito mais interessante do que a ficção. Nada justifica que se queira inventar coisas para escrever, elas estão todas aí, diante dos nossos olhos, nos eventos que vivemos todos os dias. Ele cumpre isso rigorosamente. Escritor de memórias, lançou seu primeiro livro em 2002, sob o titulo de "Rapport sur Moi", algo como "Relatório sobre Mim". Aos 40 anos, o que seria considerado por muitos um início de carreira tardio para ele é absolutamente necessário, a julgar não haver nada de relevante para se contar na juventude.
| Divulgação |
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| O esccritor francês Grégoire Bouillier, que participa da festa literária em Paraty, em julho |
O escritor, que teve uma infância conturbada graças às frequentes tentativas de suicídio de sua mãe, tonou-se em 2007 o foco indireto de uma exposição: sua ex-namorada, a artista plástica Sophie Calle, utilizou o e-mail que ele enviara para terminar o relacionamento como principal objeto de sua mais recente obra de arte. "Cuide-se bem", exposição que virá para o Brasil em julho deste ano, traz 107 mulheres das mais diversas especialidades lendo e dissecando a carta enviada por Bouillier, que participa da Flip 2009 (Festa Literária Internacional de Paraty).
Não é o primeiro evento comum entre eles a se tornar público: ele escreveu um livro sobre a festa de aniversário em que a conheceu, "O Convidado Surpresa", a ser lançado pela Cosac Naify ainda neste ano.
Em entrevista à Folha Online, por e-mail, o escritor francês comenta seus livros, sua forma de escrever, sua memória, a fatídica exposição e sua relação com Calle (com quem se encontrará pela primeira vez publicamente durante a Flip), parecendo perplexo por ter de responder tantas pergunta sobre o simples fim de um relacionamento. Mas, como o próprio Bouillier faz questão de afirmar, talvez isso se deva ao fato de que a realidade pode mesmo ser muito mais interessante do que a ficção.
Leia íntegra da entrevista concedida com exclusividade à Folha Online.
Folha Online - Porque o senhor aceitou o convite para a Flip?
Grégoire Bouillier - [Aceitei] porque é um risco e porque é excitante. Agora, veremos como as coisas vão acontecer...
Folha Online - Qual é a motivação do senhor para escrever? O senhor pretende, quando conta suas histórias, fazer um retrato da época em que vive?
Bouillier - Escrevo porque sinto que minha vida seria perdida se eu não o fizesse. É simples assim. Isto posto, "O Convidado Surpresa" é colocado sob a epígrafe de Michel Leiris [escritor francês, 1901-1990], e não é por acaso. Quando li, em seu prefácio para "A Idade Viril" (Cosac Naify, 2001), que "o desafio maior da literatura é de tornar compreensível para si mesma e para os outros aquilo que foi sofrido e pessoalmente experimentado", tive em seguida o desejo de encontrar as obras literárias das quais eu necessitava, como se eu já as tivesse em mim. Não se trata, portanto, de falar sobre mim, sobre os outros, sobre uma época ou sobre sei lá o que. O importante é tentar compreender aquilo que tem relevância e que se sabe, pessoalmente, que teve relevância, sem trapacear. Eu tenho a sensação de que a vida nos desafia permanentemente a poder contá-la. Que ela é mais vasta que a ideia que fazemos dela. Que ela não para nunca de nos confrontar com situações que nos ultrapassam completamente, mesmo que finjamos estar à altura delas, ou mesmo controlá-las. Isso é mentira. Acredito que há sempre um momento no qual cada um pode dizer: "nossa, então é com isso que se parece a minha vida, a minha mulher, meu trabalho, portanto, não era nada disso que eu pretendia para minha vida quando ela começou. Quando foi que as coisas derraparam? O que é que eu posso entender desse circo todo que se tornou a minha vida? Ah, a literatura permite aproveitar essas dúvidas e questões e, como diz maravilhosamente Virgínia Woolf (1882-1941), virá-las lentamente em direção à luz. Aquilo que guia a minha escrita tem base completa nessa tentativa de virar, como eu conseguir, as coisas da minha vida na direção da luz, com a ideia de que isto pode revelar algo da vida em geral. Por outro lado, tenho a impressão de que isso não faz valer a pena escrever um livro.
Folha Online - Há muitos escritores que se utilizam de suas vidas e de suas memórias como fonte de inspiração, e que dizem que os fatos apenas se tornam literatura quando o autor é capaz de construir uma distância entre os fatos e o texto. Se isso não ocorre, um fato não se torna literatura, e sim desabafo. Como memorialista, o senhor concorda com essa visão de literatura? Ou acredita que a ficção deve se aproximar da realidade e ser fiel a ela?
Bouillier - Você sabe, meu primeiro livro se chama "Rapport sur moi". "Rapport" [relatório] quer dizer "ação de contar aquilo que se viu, que se ouviu". Bem, todos os meus livros são "relatórios", como se se tratasse de um novo gênero literário que eu mesmo inventei, junto ao romance, ao ensaio etc. E pouco importa se sou o único representante desse novo gênero literário... Na verdade, eu não me reconheço como parte de nenhum gênero literário existente. O problema, do meu ponto de vista, é que temos o hábito de opor a ficção à realidade. Mas essa oposição é estúpida --e historicamente burguesa. Ela não faz justiça nem à realidade, nem à ficção. O que quero dizer é que realidade e ficção não se opõem. As ficções não param de fecundar a realidade e a realidade não deixa nunca de ser uma ficção em construção. É o bastante, a propósito, olhar à sua volta para se dar conta de que, a cada instante, a realidade ultrapassa a ficção, como se diz, e como se há razão em dizer. Acredito que meus livros estão à altura dessa ultrapassagem. Há qualquer coisa de inenarrável na realidade que é justamente o que eu tento capturar. E para isso é suficiente observar o que acontece: não há nada a inventar, não vale a pena, tudo está aí, é suficiente levar em conta [os acontecimentos] como se se tratassem de uma ficção. Se consideramos a realidade sob este ângulo, o menor acontecimento experimentado torna-se imediatamente apaixonante de ser contado.
Folha Online - É possível ser completamente fiel à realidade quando se escreve um livro que tem a memória como fonte principal? O senhor utiliza outras fontes para escrever seus livros?
Bouillier - Confio totalmente em minha memória para escrever meus livros, uma vez que se trata de contar coisas que eu tenha vivido, das quais fui testemunha etc. Sou escritor, não jornalista. Isso significa que não procuro ser objetivo, não procuro dar conta da realidade de uma forma, por assim dizer, neutra e imparcial, eu não me documento. Pelo contrário, tento encontrar a linguagem capaz de restituir aos acontecimentos a imagem mais próxima possível da que tenho deles. Estranhamente, quando escrevo, tudo o que vivi me retorna de maneira límpida, eu revivo no presente as coisas que conto. Durante o tempo da escrita os fatos se tornam atuais, como se se desenrolassem diante de mim sobre uma tela e eu não tivesse mais nada a fazer do que copiá-los escrupulosamente. São momentos muito intensos. Salvo que não me faço de vítima: sei que se trata de uma rememoração, que a memória me trai, que ela esquece alguns detalhes e exagera outros. E como eu sei disso, não posso escrever de outra forma, pois se o fizesse estaria trapaceando, o quadro não ficaria completo. Compreenda, a história não se trata apenas de contar os acontecimentos passados, mas também de os revelar a partir do presente no qual são contados. Em meu último livro, me diverti particularmente contando uma história e colocando em cena a minha forma de escrevê-la. Como se os bastidores fizessem parte da peça de teatro. Foi uma experiência bastante engraçada. Isso cria uma tensão, uma profundidade que, finalmente, se revela exata, mais próxima da maneira como vivemos realmente as coisas. Como acontece tudo aquilo que rompe com as convenções, diga-se de passagem. Porque o inimigo, particularmente nas artes, são as convenções, e eu acredito que seja necessário que um artista invente as suas próprias convenções.
Folha Online - Como o senhor seleciona os fatos que foram contados em seu primeiro livro? O ato de fazer uma seleção, uma edição de tudo o que o senhor viveu para contar apenas uma parte, não classificaria o seu livro no gênero das autoficções?
Bouillier - A escrita de "Rapport sur Moi" foi incrivelmente fácil. Desde o início, eu sabia que tinha uma dezena de cenas que queria contar, porque elas condensavam tudo aquilo que eu acreditava ter descoberto em meus 40 anos de existência. Todas essas cenas têm um sentido, nenhuma é gratuita, pois elas estão no livro para mostrar como vivemos sob o signo dos acontecimentos passados que revivem através de nós sem que o suspeitemos. Por exemplo, eu conto como uma doença infantil se transformou, 15 anos depois, num amor virulento e mesmo infeccioso por uma mulher. Como eu sabia o que queria dizer, a seleção das cenas ocorreu de forma muito natural. Tudo estava lá, eu não precisava fazer nada além de religar os fios, como um quebra-cabeça no qual eu não precisasse de mais nada além de juntar as peças. O mesmo ocorreu com "O Convidado Surpresa", que deve ser lido como uma extensão do meu primeiro livro.
Folha Online - A autoficção é um gênero literário que é muito debatido na França e no Brasil. Como o senhor definiria esse gênero? Por que o senhor não considera que seus livros sejam autoficção?
Bouillier - Minha sensação é de que a autoficção está para a literatura assim como os realities shows estão para a televisão: a fabricação de uma realidade totalmente produzida e colocada em cena. Diga-se de passagem, é divertido lembrar que os dois fenômenos apareceram na França quase ao mesmo tempo. Isso remete muito a um sintoma da nossa época, esse jeito de embaralhar as cartas entre o verdadeiro e o falso, e que termina sempre favorecendo o falso. Em todo caso, meu método é o contrário da autoficção. Em meus livros não há sequer uma cena que tenha sido inventada (mesmo que eu não conte tudo o que ocorreu). Isso faz parte de meu "caderno de tarefas", como eu escrevo, se você quiser. Porque o que me interessa é mostrar que a realidade é uma ficção. Não há, então, necessidade de transformar em ficção. De modo nenhum. No fundo, acredito que os autores de autoficção pensam que são maiores que a realidade, quando eu tenho a tendência de pensar que a realidade é maior do que eu.
Folha Online - Em uma entrevista o senhor disse não confiar em uma literatura que fale somente de literatura ou que trate o leitor como alguém estúpido que só deseja se divertir. Em qual literatura o senhor confia? Acredita que a literatura possa mudar a vida de uma pessoa?
Bouillier - Este é precisamente o assunto de "O Convidado Surpresa": mostrar que a literatura pode ter um impacto na vida do indivíduo. Que pode mudar de uma forma sutil e profunda o caminho de uma existência. Porque somos seres de linguagem os livros nos falam ao ponto mais íntimo de nós mesmos. Todos eles revelam que constroem nosso imaginário, inserindo as palavras, as histórias e as situações sobre aquilo que permanece não formulado em nós. De certa forma fecundam nosso imaginário, o qual nos impulsiona a fazer algumas coisas em nossa vida. É por isso que os livros não são apenas um passatempo, um momento agradável para ter antes de dormir, ou no metrô, voltando do trabalho. Os livros --em todos os casos, com certeza-- continuam a viver em nós e a nos influenciar sem que o saibamos. Para se divertir cada um deveria, falando nisso, lembrar de um livro que fez diferença durante a infância e verificar se, por acaso, não devemos nada a este livro no dia de hoje... Em todo caso, os livros que amo são aqueles que não ignoram esse poder que tem a literatura de tocar em nós uma parte preciosa e escondida e turbulenta. Acredito que haja, em cada um de nós, uma Emma Bovary --personagem do romance "Madame Bovary", célebre romance do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880)-- pronta a acreditar sem reservas que ela lê para criar para si mesma uma realidade que esteja mais de acordo com seus desejos. Me parece que aqueles livros que não têm nenhum outro objetivo que não divertir, assim como aqueles que não se referem à nada a não ser a história da literatura perdem o melhor da literatura: sua capacidade de mobilizar nossa verdadeira personalidade, apesar de tudo o que é feito para nos separar dela e nos fazer acreditar que o melhor de nós mesmos não vale nada, porque não é socialmente rentável.
Folha Online - Seus dois primeiros livros foram narrados na primeira pessoa do singular; o terceiro foi narrado em segunda pessoa, e o senhor já afirmou que o próximo livro será narrado na terceira pessoa do singular. Porque decidiu mudar a voz de seus narradores? É um exercício de narrativa, ou há alguma ligação com os eventos que são narrados em cada obra?*
Bouillier - Quando inicio a escrita de um livro, há duas coisas importantes para mim: não repetir o que já fiz e não me entediar. Assim, tento fazer com que cada livro seja uma nova aventura. Uma experiência inédita. Como uma espécie de desafio que espero encarar e que faz com que eu avance em minha vida, não somente em meu trabalho como escritor. É por isso que "O Convidado Surpresa" alonga as frases e meu primeiro livro preza a sobriedade. Ou que meu último livro é escrito na segunda pessoa do singular. A cada vez, isso modifica a maneira de contar uma história e ainda, eu acredito, me faz encontrar uma forma de manter a mesma voz em cada um de meus livros. É muito engraçado.
Folha Online - Lembrar-se dos eventos que levaram o senhor a conhecer a artista plástica Sophie Calle é ainda um processo doloroso? Como o senhor se lembra hoje da festa na qual foi o convidado surpresa?
Não, hoje estou cicatrizado dessas feridas --talvez porque muitas outras coisas tenham ocorrido desde então, e não há mais espaço para essa lembrança que não uma memória apagada... Quando penso naquela noite de aniversário na casa de Sophie Calle, sinto uma gratidão alegre, pois o absurdo inacreditável da existência é em mim um sentimento muito mais poderoso e alegre do que um sentimento de crueldade. E depois, sem essa noite, eu não teria nunca descoberto o segredo da personagem feminina do livro ["O Convidado Surpresa"]. Não teria sequer escrito "O Convidado Surpresa". Como posso não ficar feliz por isso?
Folha Onine - Todo o mundo pergunta a Sophie Calle sobre o término de seu relacionamento com ela. Gostaria de ter o seu ponto de vista: por que decidiu terminar a relação por e-mail? O senhor já conhecia a forma como ela utiliza a própria intimidade... O senhor imaginava que ela faria uma obra sobre o ocorrido, ou que tornaria a história pública?*
Bouillier - É engraçado. Com essa exposição de Sophie Calle [a exposição "Cuide-se bem", que virá ao Brasil em julho deste ano], me pergunto se sou o único homem no mundo a ter algum dia rompido um relacionamento com alguém que amei. Porque, se não for este o caso, acredito que você possa imaginar facilmente que houve um "antes" desse e-mail de término, que há forçosamente toda uma história entre Sophie e eu que resultou na escrita desse e-mail. Afinal, ele não caiu do céu! Mas é engraçado como todos parecem achar que caiu --a começar pelas 107 mulheres que participaram da exposição de Sophie. Eu não vou contar aqui a história desse e-mail, ela não interessa a ninguém que não a mim --e talvez à Sophie Calle. Mas toda essa exposição é realmente divertida pelo que ela revela sobre aqueles que participaram dela ou que a viram; é verdade que eu tenho um ponto de vista muito privilegiado para julgar isso... Admito que não imaginei nem por um instante que Sophie Calle utilizaria este e-mail, e menos ainda desta forma. Naquele momento eu não era o escritor Grégoire Bouillier se dirigindo à artista Sophie Calle; eu era apenas um homem que queria terminar o relacionamento com uma mulher e, desse ponto de vista, posso dizer que tive sucesso.
Folha Online - O senhor acredita que Calle e o senhor exponham suas vidas privadas de maneiras distintas?*
Bouillier - Acredito que a diferença essencial seja que Sophie Calle é uma artista plástica e eu sou um escritor. Isso quer dizer que nosso olhar sobre o mundo não é o mesmo, não buscamos os mesmos efeitos e não dispomos dos mesmos meios. Não manipulamos o íntimo da mesma maneira. Por exemplo, para mim é inconcebível pedir aos outros que exprimam em meu lugar aquilo que eu sinto, como vejo as coisas etc. Isso é algo que vai totalmente de encontro aos objetivos da literatura, da verdade da escrita. Mas é que a verdade de Sophie está no exterior. Tudo o que eu digo é que a verdade dela não é aquela de um "homem de letras"...
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