Obra de Alex Ross salta do clássico ao pop e chega à internet
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online
O norte-americano Alex Ross, 41, é mais conhecido por seu trabalho como crítico musical, desde 1996 é parte da equipe de colunistas da revista "The New Yorker", depois de ter escrito em outros veículos como "The New York Times" e "The London Review of Books". Quando seu nome foi confirmado para a sétima edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), muitos questionaram a escolha --afinal, qual é a relação entre o trabalho de um crítico musical e a literatura? Ross não precisa de muito para rebater as críticas e mostrar que sua presença no evento de Paraty merece audiência.
Ele mesmo se define como um homem de muitas mídias, e se recusa a aceitar um rótulo sobre si mesmo. Afinal, é um especialista em música clássica, mas escreveu o obituário de Kurt Cobain. Foi assim que decidiu explorar a literatura como forma de disseminar seu conhecimento sobre a música clássica no século 20: "O Resto é Ruído - Escutando o século 20" (Cia. das Letras, 2009) é um livro repleto de conteúdo, mas escrito de forma a aproximar o leitor de um universo musical que poder ser intimidante e distante do cotidiano dos não iniciados em música clássica.
Além disso, o crítico é também conhecedor do universo literário na sua melhor forma. Na Universidade de Harvard, onde se formou, o objeto de estudo de sua tese foi o famoso escritor irlandês James Joyce (1882-1941). Com ela, terminou a faculdade não só com um diploma, mas também um prêmio de literatura em língua inglesa.
| David Michalek/Reprodução |
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| O crítico musical e escritor norte-americano Alex Ross, que participa da Flip 2009 |
Nascido em Washington em 1968, Ross cresceu ao som de música clássica dos séculos 18 e 19, a predileção de seus pais. Aos dez anos, comprou seu primeiro disco --um LP com a Nona Sinfonia do compositor austríaco Anton Bruckner, o que não é nada estranho, se considerarmos que para ele os Beatles, idolatrados por seu irmão mais velho, não passavam de um barulho absurdo. A música ouvida por seus pais representava a perfeição: decidiu estudar piano e oboé para tocar as partituras que tanto gostava de ouvir.
Um dia, sua professora de piano pediu que ele tocasse uma peça de um compositor moderno; Ross se sentiu desorientado pelas notas, que pareciam estar todas no lugar errado. Porém, aos poucos foi se apaixonando pela estranheza de tudo aquilo, e a música do século 20 se tornou seu fascínio. Ele fez de um dos objetivos de sua vida --e de seu livro, portanto--, abrir as portas desse mundo que tanto o encanta para todo o tipo de pessoa, dos estudiosos de música aos ouvintes de Björk e Radiohead. Tarefa difícil. Mas para cumpri-la ele estudou história da arte europeia e literatura inglesa, buscando construir relações entre os eventos da história do século 20 e a música clássica.
Durante a faculdade, não deixou de mergulhar na música e no debate sobre ela. Foi DJ da rádio WHRB, na qual podia tocar a obra inteira de um compositor e discuti-la durante dias (ele dedicou seu programa, durante cinco dias seguidos, a falar e ouvir Beethoven, por exemplo). Esse período de estudos misturados ao trabalho na rádio foram fundamentais para o trabalho que realiza hoje como crítico: aprofundaram sua compreensão em universos que ele considera complementares à música, além de torná-lo uma pessoa muito mais versátil.
Na época do lançamento de seu livro, Ross decidiu começar um blog, principalmente para ajudar na divulgação da obra. Escrevia coisas sobre o livro e sobre o próprio processo de escrever; aos poucos, começa a lançar notícias novas do mundo da música; em seguida, foi publicando posts mais longos debatendo o papel da música clássica nos dias de hoje e explorando relações entre ela e o mundo pop.
Quando se deu conta, seu blog era acessado aproximadamente por 3.000 pessoas/dia. Foi aí que ele descobriu uma nova maneira de espalhar suas ideias e atingir um público mais amplo do que os fieis leitores de sua coluna na "The New Yorker". "Num blog você não precisa se explicar --você pode escrever da maneira que quiser", disse numa entrevista ao jornal britânico "The Guardian".
Ross tornou-se um entusiasta da divulgação da música clássica nesse tipo de mídia. "Blogs escritos por músicos, cantores e outras pessoas dos bastidores do mundo da música humanizam essa forma de arte, que tem a reputação de ser elitista e distante. É importante sublinhar o fato de que esses artistas são pessoas reais apresentando performances com uma mistura complexa de motivos e impulsos intelectuais. Não são um bando de robôs que tocam piano e voltam para suas capsulas", disse em seu blog.
O blog foi uma surpresa em muitos aspectos: deu ao crítico maior liberdade para escrever sobre coisas que não costumam figurar em suas colunas na revista, como os participantes do reality show "American Idol", além de possibilitar uma enorme interação e troca de informações com leitores do mundo inteiro, que respondem a seus comentários e esclarecem dúvidas do próprio Ross.
Mas ele encontrou algo nessa ferramenta que a tornou ainda mais fascinante, como a possibilidade de fazer a interação entre a leitura e a audição. Se o seu livro, por um lado, tornou acessível a todo o tipo de leitor uma compreensão bastante abrangente sobre a música clássica do século 20 (em grande parte graças à redação leve e fluente), ele também oferecia um obstáculo --há um limite em até que ponto se pode descrever música. É possível escrever que as notas de abertura da ópera Salomé, de Strauss (uma das peças favoritas de Ross) consistem em uma clarineta tocando uma escala que começa com um dó sustenido maior e termina em sol maior; mas como fazer com que o leitor de fato compreenda o que isso quer dizer?
| Divulgação |
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| "O Resto é Ruído", de Alex Ross |
Com o blog, isso deixou de ser um problema. Esse tipo de descrição é quase sempre acompanhado por um link que toca exatamente a passagem descrita, tornando o universo da música tão claro e presente quanto possível. O crítico procura ao máximo ilustrar seus textos com links sonoros, tanto para aproximar o leitor da música clássica como para fazê-lo compreender as profundas relações desta com o mundo à sua volta.
Uma de suas maiores discussões está centrada na crítica à ideia de que a música é a forma de arte mais pura --aquela que tem as relações menos explícitas com política, crises econômicas ou eventos históricos em geral. Ross é categórico em afirmar que não é nada disso. No século 20, em especial, a música está profundamente enraizada no mundo ao seu redor. É preciso ouvir o caos dos nossos tempos na música dos nossos tempos --e para isso é fundamental conhecer a história de um compositor e os acontecimentos que ele viveu. Só assim é que, ao ouvir uma música, seremos capazes de entender a história que ela reflete e compreender que, ao refletir nosso tempo, a música reflete a nós mesmos.
(ptagline). Fontes: Macfound; Therestisnoise; The Guardian; Cia. das Letras; Observer




