Premiado romance de Anne Enright trata dos dramas de uma típica família irlandesa
da Folha Online
Com uma prosa vibrante que chegou a ser comparada com a do célebre escritor James Joyce, o romance "O Encontro", da também irlandesa Anne Enright, conta a história de uma família que volta a se reunir por ocasião da morte de um de seus membros. A obra recebeu relevantes prêmios da língua inglesa, como o Booker de 2007, ao desbancar os favoritos Ian McEwan e Lloyd Jones, e o Irish Novel of the Year 2008.
| Andy Rain/Efe |
![]() |
| Anne Enright ao receber prêmio literário pelo livro "Encontros" |
Sob o olhar de Veronica, quem mais se importava com o irmão alcoólatra que acabara de perder a vida, é exposta a trajetória de três gerações de uma numerosa família. No decorrer da trama, a narradora tenta resgatar os conturbados dramas dos Hegarty, como os abusos que seu irmão Liam sofreu na infância, ao mesmo tempo em que realiza o registro de uma época - o "desabrochar" irlandês entre os anos 70 e 90.
A única obra da premiada escritora editada no Brasil, "O Encontro" não por acaso é também considerado o melhor título de Anne Enright.
Leia abaixo um trecho do começo do livro e veja aqui uma resenha publicada no caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo.
*
Capítulo 2
Há dias em que não me lembro de minha mãe. Olho a fotografia dela e ela me escapa. Ou a vejo num domingo, depois do almoço, passamos uma tarde agradável, e quando vou embora descubro que ela passou por mim como água.
- Adeus - ela diz, já esmaecendo. - Adeus minha menina querida - e levanta seu velho rosto macio para um beijo. Isso ainda me deixa com tanta raiva. O jeito como ela parece desaparecer quando me viro e, quando olho, vejo apenas as bordas. Acho que passaria direto por ela na rua, se ela um dia comprar outro casaco. Se minha mãe cometesse um crime não haveria testemunha: ela é o esquecimento em pessoa.
- Onde está minha bolsa? - ela dizia sempre, quando éramos crianças; ou podia ser as chaves, ou os óculos. - Alguém viu minha bolsa? - fazendo-se, naqueles poucos segundos, quase presente, enquanto ia do hall para a sala, para a cozinha e voltava outra vez. Mesmo nessa hora não olhávamos para ela, mas para todo o resto: ela era uma agitação atrás de nós, uma espécie de culpa coletiva, enquanto revirávamos a sala, sabendo que nossos olhos iam passar por cima da bolsa, que era marrom e gorda, mesmo ela estando claramente ali.
Então, Bea encontrava a bolsa. Sempre há um filho que é capaz não só de olhar, mas também de ver. O quieto.
- Obrigada, querida.
Vamos ser justas, minha mãe é uma pessoa tão vaga, que é possível que nem ela se veja. É possível ela passar a ponta do dedo por uma fileira de garotas numa velha fotografia e não ser capaz de identificar a si mesma. E de todos os seus filhos, eu sou a que mais pareço com a mãe dela, minha avó, Ada. Deve ser confuso.
- Ah, olá - ela falou ao abrir a porta do hall, no dia em que fiquei sabendo de Liam.
- Olá. Querida. - Ela podia dizer a mesma coisa para o gato.
- Entre. Entre - diz ela parada na porta e não se afasta para me deixar passar.
Claro que sabe quem sou eu, é só o meu nome que lhe foge. Os olhos mexem de um lado para o outro enquanto ela vai eliminando um por um de sua lista.
- Oi, mamãe - eu digo, só para lhe dar uma pista. E passo por ela, entro no hall.
A casa me conhece. Sempre menor do que deveria ser; as paredes ficam mais fechadas e mais complicadas que as da lembrança. O lugar é sempre pequeno demais.
Atrás de mim, minha mãe abre a porta da sala de estar.
- Quer tomar alguma coisa? Uma xícara de chá?
Mas eu não quero entrar na sala de estar. Não sou visita. Esta é minha casa também. Eu estava dentro dela, enquanto ela crescia; quando a sala de estar foi demolida para virar a cozinha, quando a cozinha engoliu o quintal. É o lugar onde meus sonhos ainda acontecem.
Não que eu jamais vá viver aqui de novo. O lugar é todo ampliação, sem casa. Até mesmo o cubículo do lado da porta da cozinha tem outra porta no fundo, de forma que é preciso batalhar para abrir caminho entre casacos e aspiradores de pó para conseguir entrar no banheiro de baixo. Não dá para vender o imóvel, eu penso, a não ser como um terreno. Pôr abaixo e começar de novo.
A cozinha tem sempre o mesmo cheiro: que me pega na base do crânio, muito tênue e desagradável, por baixo da pintura amarela fresca. Armários cheios de velhos lençóis; alguma coisa queimada, empoeirada em volta do isolamento do aquecedor de imersão; a poltrona em que meu pai sentava, os braços brilhosos e frios do desgaste humano de muitos anos. Me deixa um pouco enjoada e aí não sinto mais o cheiro. Apenas está. É o nosso cheiro.
Vou até a bancada dos fundos e pego a chaleira, mas quando vou encher de água, o punho de meu casaco engancha na torneira e a manga fica encharcada. Sacudo a mão, depois o braço e, quando a chaleira está cheia e plugada na tomada, tiro o casaco, viro a manga molhada pelo avesso e sacudo no ar.
Minha mãe assiste a essa cena estranha, como se lembrasse de alguma coisa. Então avança até onde estão os comprimidos empilhados num pires na outra bancada. Toma um depois do outro, com um flácido alheamento da língua. Levanta o queixo e engole a seco, enquanto esfrego o braço com a mão e depois passo a mão molhada no cabelo.
Uma última cápsula, verde, entra em sua boca e ela se imobiliza, enquanto a garganta trabalha. Fica olhando pela janela um momento. Depois se vira para mim, ausente.
- Como vai? Querida?
- Veronica! - sinto vontade de gritar para ela. - Você me batizou de Veronica!
Se ela ao menos ficasse visível, penso. Então eu poderia entrar em contato com ela e impor-lhe a verdade da situação, a gravidade do que ela fez. Mas ela permanece nebulosa, inatingível, amada demais.
Vim contar a ela que Liam foi encontrado.
*
"O Encontro"
Autora: Anne Enright
Editora: Alfaguara
Páginas: 242
Quanto: R$ 36,90
Como comprar: pelo telefone 0800-140090 ou no site da Livraria da Folha



