Mesa de Grégoire Bouillier marca reencontro com ex na Flip; leia trecho de lançamento
da Folha Online
No próximo sábado (4), às 11h45, o escritor francês Grégoire Bouillier participa da mesa "Entre Quatro Paredes" durante a Flip-2009 (Festa Literária Internacional de Paraty). O evento marca o reencontro de Bouillier com a artista conceitual francesa Sophie Calle, sua ex-namorada.
Leia entrevista com Grégoire Bouillier concedida à Folha Online
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| O esccritor francês Grégoire Bouillier, que participa da festa literária em Paraty, em julho |
Em "Prenez soin de Vous", exposição que representou a França na Bienal de Veneza de 2007 e programada para acontecer em São Paulo no próximo mês, Calle exibe a reação de 107 mulheres à carta de rompimento recebida de Bouillier. Pela primeira vez eles vão aparecer em público para discutir o episódio e misturar ainda mais as fronteiras entre vida privada e vida pública, entre vivência pessoal e ficção.
Bouillier é autor de "O Convidado Surpresa", que está sendo lançado no Brasil, pela editora Cosac Naify. O livro conta a história de um homem que é convidado por sua ex-namorada a participar de uma festa na qual seria o convidado surpresa. Bouillier é o convidado surpresa da vez; a aniversariante é Sophie Calle.
Leia um trecho de "O Convidado Surpresa" :
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(...) Talvez nada mais tivéssemos a nos dizer que os nossos olhos já não tivessem compreendido e ambos nos calávamos agora sem conseguir achar as palavras capazes de remontar no tempo e no espaço quando ela de repente interpelou uma mulher que passava ao nosso lado e num tom divertido e triunfal lhe anunciou "Sophie, te apresento o teu convidado mistério".
A mulher logo ergueu a cabeça para mim e seus olhos eram francos e sorridentes e uma mecha colava na sua testa e ela parecia excitada como uma menina e muito atarefada e naquele instante nada podia me parecer mais inacessível e estranho e afinal intolerável do que aquele entusiasmo e aquela euforia, estava acima das minhas forças, e no primeiro momento pus-me a fixá-la com um ar que eu esperava hermético e impermeável pois de maneira nenhuma eu tinha a intenção de ser um convidado mistério cordato, sim, desde o início prometera-me salvaguardar minhas próprias aparências e nada ceder a um divertimento que, do meu ponto de vista e no meu estado, não tinha a menor chance de fazer-me rir, como se o que chamam a sociedade já não buscasse o tempo todo e sem parar e por todos os meios e mesmo os mais divertidos tirar toda personalidade e assim eu estava firmemente decidido a não me deixar envolver diante dela nem a mexer um dedinho, como dizem; ao mesmo tempo sentia-me naquele instante sonso e pesado e estúpido e vermelho e, para não ficar mudo e dizer apesar de tudo algo de imperecível, desejei-lhe um "feliz aniversário!" e ela me agradeceu enquanto recebia nos braços a garrafa do Margaux 1964 e eu esperava que ela fosse tirar ali na hora o papel de seda e revelar ao mundo a minha façanha e extasiar-se com o meu presente; mas em vez disso pôs-se a fazer grandes gestos para saudar de longe alguém que certamente acabava de chegar, antes de virar-se de novo para mim e contemplar-me e com uma voz jovial perguntar-me quem eu era e naquele instante ela talvez estivesse realmente curiosa de saber pois me examinava com atenção como se algo nela se pusesse alerta e à espreita e busquei a toda pressa o que responder e não me vinha nada de deslumbrante, sentia-me cada vez mais ridículo e mesmo culpado e incompreensivelmente responsável e por fim respondi num tom seco e pretensioso que eu era atualmente um especialista em crueldades da existência e o meu olhar a desafiava e tentava desafiá-la e em última instância eu zombava de mim por ser idiota.
De modo nenhum ela pareceu desorientada ou contrariada pela minha atitude. Ao contrário, continuou me encarando e sorrindo e algo de doce plissava suas pálpebras e tive antes a impressão de diverti-la e intrigá-la e sem terem se buscado os nossos olhos se encontraram e por uma fração de segundo algo se acendeu entre nós que imediatamente se extinguiu e ela ia dizer uma frase quando um braço a agarrou e uma mulher de batom vermelho berrante gritou-lhe quase aos ouvidos que ela estava sendo chamada com urgência na cozinha, acontecera uma catástrofe com as ostras ou sei lá o quê, e ela ficou com um ar desolado e me lançou um olhar que queria dizer muitas coisas e nada ao mesmo tempo enquanto já se deixava arrastar até a cozinha e percebi então que ela desaparecia com a garrafa de Margaux e por pouco não berrei e me precipitei, era a minha garrafa, nem pensar alguém abri-la e bebê-la sem o meu consentimento, isso não!
Ao meu lado, aquela a quem eu queria provar e demonstrar tudo permanecera imóvel e eu disse a ela com uma voz febril que trouxera um grand cru e que esperava que pudéssemos brindar juntos, isso mesmo, brindar, e mesmo "ao nosso amor", como dizem, e foi então que ela me disse que sua amiga nunca abria seus presentes de aniversário e na hora eu não quis acreditar.
Era impossível. O erro que era a minha presença naquela festa não podia chegar a tal ponto. Havia limites para tudo. Ela dizia aquilo por brincadeira e para me assustar e em suma para que nada mais de autêntico restasse em mim; mas ela estava séria e me explicou que havia anos Sophie conservava sem abri-los todos os seus presentes de aniversário em caixas que a seguir fotografava com a ideia de algum dia fazer com eles uma exposição ou um livro, não sabia muito bem, em todo caso tratava-se de uma espécie de ritual e certamente ela deveria ter me avisado quando telefonou, mas não pensou nisso e por que o teria feito e a coisa não era tão grave, afinal tratava-se apenas de uma garrafa de vinho, e balancei a cabeça e olhei direto à minha frente sem nada ver senão esse muro que nunca cessara de se construir ao redor de mim e que agora parecia quase acabado e eu não conseguia parar de balançar a cabeça como os cachorros de plástico no vidro traseiro dos carros e pensei que todos os meus esforços ficariam para sempre desconhecidos e foram inúteis e não serviram para nada e o que me importava se contribuíam para a arte contemporânea, para mim era um zero à esquerda, como dizem, ou mesmo dois zeros, e eu tinha vontade de rebentar de rir e deslocar o queixo e os dentes e os olhos e os ossos e afinal queria era rebentar de uma vez por todas e que não se falasse mais disso. (...)
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"O Convidado Surpresa"
Autor: Grégoire Bouillier
Editora: Cosac Naify
Páginas: 120
Quanto: R$ 35,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha.



