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Ilustrada
29/06/2009 - 14h50

Catherine Millet discute o ciúmes e o casamento aberto em autobiografia; leia trecho

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da Folha Online

Convidada para participar da sétima edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), a escritora e diretora da revista francesa "Art Press" Catherine Millet, 51, chocou os leitores parisienses ao revelar no polêmico "A Vida Sexual de Catherine M." (Ediouro, 2001) detalhes da sua intensa vida sexual.

Traduzida para 45 idiomas e com mais de 1 milhão de cópias vendidas em todo o mundo, a autobiografia mostra como após perder a virgindade aos 18 anos, a respeitada crítica de arte passou a manter relações sexuais com desconhecidos em lugares inusitados, como na redação da sua revista, à beira de estradas e em bancos públicos, mesmo sendo casada com o romancista Jacques Henric há 20 anos.

Ao contrário da imagem de mulher liberal -- e libertina, para alguns -- que a autora transmitia, Millet surpreendeu a todos ao declarar que foi tomada por um ciúme incontrolável ao descobrir que seu marido também mantinha encontros extraconjugais.

Enquanto vivia uma crise no casamento, a autora decidiu escrever "A Outra Vida de Catherine M." (Ediouro, 2009), no qual discute este sentimento que é indomável para alguns e presente em relações afetivas diversas, além de descrever as armadilhas do casamento aberto.

"Foi muito mais difícil escrever "A Outra Vida de Catherine M." do que "A Vida Sexual...", porque sou muito mais pudica com meus sentimentos do que com meu corpo. Mas faço parte daquele grupo de autores que, para escrever, devem estar muito libertos daquilo que desejam contar. O tempo verbal que utilizo é sempre o imperfeito", disse a autora em entrevista à Folha Online.

Leia abaixo um trecho do livro "A Outra Vida de Catherine M.", publicado pela Ediouro :

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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Sonhando acordada

Divulgação
Em autobiografia, escritora francesa Catherine Millet discute o ciúmes
Autobiografia da escritora francesa Catherine Millet discute o ciúmes

Comecei a folhear minha vida desde os primeiros anos partilhados com Claude. Levei para a vida ativa de adulta o método usado durante o período de espera da infância e que não havia me decepcionado, e adquiri o hábito de intercalar o desenrolar de meus dias com constantes e elaborados sonhos diurnos. Eles participam a tal ponto do meu equilíbrio que estou convencida, por exemplo, de que minha inaptidão para aprender a dirigir carros se deve a uma vontade instintiva de dedicar aos sonhos esses momentos tão perfeitamente apropriados que são os deslocamentos nos transportes em comum. Passivo, cativo, o corpo fica tão perfeitamente abandonado quanto durante o sono, enquanto reservamos à inconsistente representação de nós mesmos, com a qual o substituímos, uma posição quase sempre melhor, mais bem controlada do que nos sonhos noturnos. Aliás, quem, ao sair de um sonho ruim, nunca tentou prolongá-lo, para poder corrigir a impressão nefasta, com o happy end de um devaneio consciente ou semi-inconsciente? Todos aqueles que compartilham comigo essa tendência sabem o prazer que tiramos das janelas abertas, na altura do metrô de superfície, e que nos mostram sem pudor flashs de intimidade, das fachadas, com seu reverso secreto, ao longo das quais deslizamos quando atravessamos de carro uma cidadezinha do interior, das conversas entre nossos vizinhos no compartimento de um trem, nas quais nos intrometemos fingindo que estamos dormindo. Por mais breve que tenha sido a visão, por mais fragmentada que seja a percepção de nossos companheiros de viagem, uma minúscula porção de nós mesmos também é arrancada e, como essas câmeras de televisão indiscretas, que fingimos serem manipuladas por um operador invisível, continua penetrando no interior do apartamento parisiense, da casa do interior, da briga familiar no banco ao lado. O sonhador difrata sua vida. O mundo desenrola diante de seus olhos tantas imagens atraentes, ou perigosamente curiosas, que ele gostaria de refletir todas, e coloca-as em perspectiva, isto é, aprofunda-as e enriquece-as. Uma teatralização espontânea faz com que, em alguns segundos, ele vá morar naquele apartamento, naquela casa, mesmo que eles sejam o extremo oposto de seu gosto; "Faço parte da vida dessa família", ele gosta de imaginar, percorrido por um arrepio, se a discussão entre essa última revela valores dos quais ele sempre fugiu. De certo modo, os pais de uma criança sonhadora têm razão de temer que mais tarde ela não tenha personalidade, porque o que se entende geralmente por isso é "personalidade única", e, de fato, o sonhador prefere ser várias pessoas, viver várias vidas, muitas das quais têm a mesma consistência e a perenidade de um grão de poeira que uma corrente de ar deixou por acaso na entrada de uma casa. Por outro lado, estamos enganados ao acreditar que aquele que devaneia se afasta do mundo, pois quase sempre suas outras vidas o colocam, pelo contrário, em empatia com ele.

Certos devaneios, é natural, são eróticos, e mergulhei neles muito antes de saber em que consistiam exatamente os atos sexuais, quando eu ainda os assimilava apenas aos beijos na boca e às carícias nos seios. Aliás, é provável que minha natureza sonhadora combine com minha tendência à masturbação. Desde jovem, acompanho minhas sessões de masturbação com construções fantasiosas, a maioria delas longas e muito elaboradas. Elas são recorrentes e vão se tornando complexas e se ramificando ao longo do tempo, às vezes durante anos, como essas novelas que não acabam nunca e cujo roteiro é improvisado de acordo com a inspiração dos autores. Eu não saberia atingir o orgasmo sem elas. No entanto, os devaneios eróticos não estão todos ligados ao ato da masturbação.

Os protagonistas de meus filmes pornográficos mentais têm traços físicos e morais ao mesmo tempo estereotipados e compostos de registro amplo. No interior de categorias - o dono ganancioso de bar ou de clube, o homem de negócios apressado, o bando de jovens desocupados, o estrangeiro que diz obscenidades numa língua que não compreendo, etc. -, vario as idades e os tipos físicos. Excepcionalmente, eles endossam a personalidade de homens reais que fazem parte do meu círculo ou com os quais cruzei por acaso, e nem mesmo se parecem com os astros de cinema que me faziam desmaiar quando eu era adolescente. Se há muitas analogias entre circunstâncias e ações que pude viver e aquelas que são elaboradas pela minha imaginação, se essas últimas prefiguraram surpreendentemente as primeiras ou delas se inspiraram, por outro lado, nem meus parceiros na vida, nem meus amigos, nem simples conhecidos penetram nesses devaneios. Uma dessas fantasias masturbatórias é incestuosa. É facilmente compreensível que, nesse caso, o tabu seja suficientemente poderoso para que eu substitua a lembrança da figura de meu pai por um corpo bem diferente do dele e inconstante. De um modo geral, porém, chego a ponto de me não me permitir apelar para um desconhecido que eu tenha visto na rua. É claro que não posso compor meus personagens de outro modo que não seja a partir de traços de pessoas reais, colhidos aqui e ali, mas essas referências são negligenciáveis, ou dissimuladas, ou inconscientes. Não é possível nenhuma identificação com uma determinada pessoa. Mesmo quando senti, com toda a lucidez, um forte desejo por um homem, sem que esse desejo pudesse ser satisfeito a longo ou curto prazo, ou mesmo fosse possível, nem por isso compensei a frustração realizando-o na fantasia. A constatação é curiosa: o espaço dos meus devaneios é tão impermeável, tão radicalmente proibido a qualquer pessoa que tenha a meus olhos a mínima identidade, que, embora eu pudesse acolher essa pessoa sem muita hesitação na intimidade da minha vida sexual real, se houvesse finalmente essa oportunidade, ela passaria a ser excluída dos meus devaneios eróticos. Posso fantasiar histórias elementos distintos, num nas quais me vejo na companhia desse homem; tenho um encontro com ele, invento nossa conversa, mas a fabulação pára por aí, antes das palavras e dos gestos de luxúria. Sou incapaz de erguer dessa maneira o obstáculo ou a proibição que o real me impõe e ter prazer nessa transgressão mental. Para partir com toda a liberdade, minhas fantasias sexuais têm que soltar as amarras, e é bem provável que o terrível capitão a quem entrego o leme nesse momento não gostasse de ver surgir, num ínfimo sobressalto de consciência, no meio da tripulação, uma figura conhecida que lhe lembrasse as leis da terra firme.

Muitos encontros feitos ao longo da minha vida amorosa e sexual tiveram um tratamento semelhante a essa maneira de folhear a vida e o sonho. Talvez seja exatamente porque blocos de sonhos se intercalam entre as camadas da vida que eles sedimentam, mas com as quais não se confundem, que a própria vida acaba se constituindo como uma estrutura laminada. Tive a sorte de ter minha vida logo sustentada por um eixo sólido, fornecido de um lado pelo meu trabalho, principalmente na art press, cujos objetivos sempre foram claros para mim, e reforçado, por outro lado, pela vida de casal com Claude que, pelo fato de que nós éramos, de certa forma, solidários no nosso começo de vida social, e também porque ela não era um entrave para a nossa liberdade sexual, não tinha porque ser questionada. Então, durante anos, paralelamente a esse eixo, segui segmentos de diversas outras vidas, entre as quais algumas correspondiam a relações longas e profundas. Escrevo "vidas" e não "aventuras", porque um ritmo, regras, ritos específicos caracterizaram cada uma dessas relações. Elas representaram várias oportunidades de me transportar para outros palcos, de explorar, como fazem as atrizes, diferentes modulações: eu era boêmia, vadia ou burguesa, de acordo com o nível daquele que freqüentava - e que ele me atribuía, os amigos que me apresentava, os restaurantes onde me levava para jantar, as atividades e o trabalho para os quais nos encontrávamos. Ignorando muitas contingências, assim como na maioria das ligações para as quais os parceiros só reservam uma parte do seu tempo, como nos adultérios quando são breves, essas vidas paralelas tinham para mim um charme próximo ao dos devaneios; tinham uma textura intermediária: davam consistência às imagens mentais sem a aspereza do real corriqueiro. Foi assim que visitei países, freqüentei certos ambientes, encontrei personagens, ou ainda dormi em casas, usei vestidos, aproveitei certas facilidades das quais meus sonhos podiam me dar vagamente uma idéia, e pouco me importava que todas essas vantagens não correspondessem nem a um modo nem a um estilo de vida permanente. Aliás, sempre fui bem indiferente às marcas sociais, e não é porque eu havia provado os legumes do Moulin de Mougins que deixaria de comer com apetite o primeiro cuscuz que aparecesse, nem seria porque eu tivesse participado de uma orgia no sétimo distrito parisiense que eu não me sentiria à vontade numa festa de casamento, num vilarejo no interior da Úmbria. O sonhador só contabiliza bens imateriais e só atribui uma relativa importância ao fato de que um objeto de seus sonhos, que por sorte tenha se concretizado, volte ao estado imaterial como lembrança. De qualquer maneira, ele não duvida da reversibilidade do processo.

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"A Outra Vida de Catherine M."
Autora: Catherine Millet
Editora: Ediouro
Páginas: 200
Quanto: R$ 39,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha.

 

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