Americano judeu trocou vida militar e sobrenome pela literatura
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online
James Salter mudou de nome, de carreira. Um piloto de guerra se transformou em um dos mais reconhecidos escritores norte-americanos. Judeu, abandonou o sobrenome que poderia impedi-lo de publicar seus textos. Um escritor de roteiros que renega seus filmes começou sua carreira em plena vida militar, publicando inesperadamente seu primeiro livro.
O americano de 84 anos é filho de um judeu que fez carreira de sucesso na Academia Militar de West Point, em Nova York. Tornou-se engenheiro e, alternando períodos de sucesso e fracasso econômicos, insistiu para que o filho seguisse seus passos. James A. Horowitz (o nome real de Salter) ingressou em West Point em 1942, quando a academia teve seu currículo diminuído de 4 para 3 anos por causa da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Formado em 1945 e já tendo completado seu treinamento de voo no primeiro ano de estudo, foi colocado como piloto. Parecia muito promissor, até um pequeno acidente em maio de 1945, quando, com pouco combustível, ele confundiu um suporte rodoviário com uma pista de pouso e acabou batendo numa casa. Por sorte não matou a família que vivia ali e que, ironicamente, comemorava naquela noite a volta de um filho que caíra prisioneiro dos alemães durante a Segunda Guerra. Ouvindo o barulho do avião, a família saiu da casa para ver do que se tratava, ao mesmo tempo em que a aeronave invadia a cozinha. A falta total de combustível impediu a explosão.
| David Levenson/21.mar.07/Getty Images |
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| James Salter se transformou em um dos mais reconhecidos escritores norte-americanos |
O acidente não foi o suficiente para desencorajar o "Horrível Horowitz", como era conhecido entre seus colegas na academia. Juntou-se às Forças Aéreas dos EUA e lá permaneceu por 12 anos. Lutou na Guerra das Coreias (1950-1953) e voou em mais de cem combates num avião F-86 Sabre. Chegou mesmo a receber o crédito de ter derrubado um MIG-15 inimigo. Apaixonado por voar, não se contentava com os combates, e liderou uma equipe de voo acrobático por um curto período de tempo. Mas mesmo enquanto estava nas Forças Aéreas, já era impelido pela vontade de escrever --que ele descreve como mais do que uma vontade, como uma necessidade.
Disso resultou seu primeiro romance, "The Hunters" (algo como "Os Caçadores"), que narra as experiências de um piloto de 31 anos cuja carreira e vida estão entrando em lenta decadência. Apesar de ser repleto de experiências inspiradas nos eventos vividos pelo próprio Salter, o livro não pode ser considerado autobiográfico. Mas nele já se anuncia o estilo pelo qual Salter é reconhecido hoje: frases curtas e precisas, sem palavras de sobra, sem arestas a serem aparadas. Uma escrita elegante, sofisticada, empolgante. Em 1958 o livro foi transformado em um filme de mesmo nome, estrelado por Robert Mitchum (1917-1997). A adaptação é um pouco distante do romance em si, mas serviu para colocar Salter em contato com a indústria cinematográfica. Contato este que foi fundamental para poder lançar seu livro. Não bastou a James Horowitz mudar de nome --decidiu também largar a carreira militar para tornar-se definitivamente escritor. Nenhuma das duas decisões foi simples, muito embora abandonar os aviões tenha sido mais duro para ele do que abandonar o sobrenome.
Em 1961, lançou seu segundo livro, "The Arm of Flesh" (algo como "O Braço de Carne"), que considera hoje um de seus piores trabalhos. Mas, aos 36 anos, ele já tinha mulher e filhos para sustentar. Quatro filhos, mais precisamente, que viviam com ele e a mulher em uma cidade que ficava na beira do rio Hudson. Decidiu investir na criação de roteiros, e com o amigo Lane Slate escreveu um documentário sobre futebol americano, 'Team Team Team", que recebeu o prêmio de melhor documentário no Festival de Veneza de 1962. Seguiram-se outros 12 com a mesma parceria com Slate como base, além de uma carreira como roteirista de mais de quatro filmes. O maior sucesso foi "Downhill Racer", com Robert Redford, lançado em 1969. Mas, embora os roteiros lhe rendessem o suficiente para poder ganhar seu sustento, não o satisfaziam enquanto escritor. Continuava a trabalhar em romances e, em 1966, tinha o terceiro deles pronto.
"Um Esporte e Um Passatempo" (Imago, 1997) narra o romance entre um estudante da Universidade de Yale e uma trabalhadora francesa. A história, repleta de cenas de forte carga erótica, é contada por um narrador sem nome, que mal conhece o estudante e é apaixonado pela francesa. Hoje, é considerado o livro mais importante da carreira de Salter.
Porém, em 1966, o escritor teve dificuldades em publicá-lo. Seu editor original o rejeitou, assim como outras editoras, todas sob o argumento de que os personagens eram desinteressantes, que o livro era repetitivo e continha sexo em excesso. Finalmente --embora com alguma vergonha-- a editora Doubleday concordou em lançá-lo.
Assim como seus dois romances anteriores, "Um Esporte e Um Passatempo" foi bem recebido pela crítica e pouco efeito teve sobre o grande público. Salter continuou escrevendo roteiros e, ainda que a maior parte deles não fosse utilizada pelas emissoras, rendia-lhe um bom dinheiro. Para o escritor o motivo era óbvio: eram bons roteiros em termos das histórias que rendiam, mas os filmes que resultavam desses roteiros não eram tão bons assim [ao menos na visão dele].
Em 1975 conseguiu publicar seu quarto romance, "Light Years".O livro nasceu a partir de uma frase do diretor de cinema Jean Renoir, que dizia que as únicas coisas importantes na vida são aquelas das quais se lembra. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência --o casamento de Salter também estava com os anos contados, assim como na história do romance.
No ano seguinte ele conheceu a mulher que mudaria os rumos de sua carreira, a jornalista Kay Eldredge. Ela foi a responsável por encorajá-lo a largar de vez os roteiros e investir apenas na carreira de escritor. Fez para ele um cartão de visitas, em 1980, que dizia o seguinte: "O sr. James Salter lamenta estar muito ocupado para escrever um roteiro. Trabalhar em um roteiro. Ler um roteiro. Marcar uma reunião sobre um roteiro". A brincadeira funcionou, e desde então ele é apenas conhecido como escritor --e gosta disso.
Após o divórcio do escritor os dois foram morar juntos e juntos permanecem, apesar de nunca terem se casado. Eles tentam, diz Salter; querem se casar em Paris, mas nunca conseguiram permanecer na cidade os 40 dias de residência exigidos pelo governo parisiense. Juntos tiveram um filho, Theo, que nasceu em 1985. Esse nascimento distraiu um pouco Salter do que ele descreve como o pior acontecimento de sua vida. Em 1980 ele encontrou uma de suas filhas morta, nua, no chão do banheiro. A menina havia sido eletrocutada em um acidente.
O ano de 1980 marcou a maior transição da vida do escritor. A partir de então ele rompeu os laços com seu passado. Pouco fala de seus dias na força aérea ou como roteirista, e também reluta em falar de sua própria carreira. Não gosta de seus dois primeiros livros e recusou a oferta da editora North Point Press de reeditá-los. Recebeu diversas críticas desencorajadoras, e os números que quantificam a venda de suas obras na época de lançamento teriam minado qualquer um que tivesse menos vontade de escrever. Mas para Salter a escrita é uma questão de sobrevivência.
Quando, no final da década de 1950, percebeu que jamais seria feliz se não escrevesse, decidiu também que nada o faria abandonar esse caminho. Talvez por isso sua recusa em falar sobre a vida anterior a "Um Esporte e Um Passatempo" --não é exatamente sua vida. Sua primeira coletânea de contos "Dusk and Other Stories", de 1988, rendeu a ele o prêmio PEN/Faulkner e tornou-o um autor um pouco mais populares, menos um "escritor para escritores", como já foi chamado pela crítica.
A segunda coletânea, "Last Night", também fez sucesso, e contos escolhidos de ambas renderam o volume "A Última Noite", publicado no Brasil pela Cia. das Letras em 2008. Mas talvez o livro mais curioso de Salter seja seu livro de memórias, "Burning The Days". Ele, que não gosta de falar sobre sua vida, escreveu memórias que não narram tudo, mas que deixam muita coisa subentendida. Pela primeira vez ele conta a história da morte da filha, em poucas linhas: "Eu nunca consegui escrever a história. A morte de reis pode ser contada, mas não a morte de um filho. Foi num acidente elétrico. Aconteceu no chuveiro. Eu a encontrei caída nua no chão, a água correndo".
A decisão de escrever as memórias representou um peso para o homem e um desafio para o escritor, e por isso lhe pareceu atraente. Mas para ele é também um indicador do fim, o livro definitivo sobre uma vida de muita luta. Ao mesmo tempo, não é exatamente um livro de memórias, contém elipses demais e detalhes de menos. Um sinal de que não é o fim.
Fontes: "NYT"; "The Guardian; Charlie Rose; Randomhouse


