Escritor Cristovao Tezza diz ser funcionário público de si mesmo
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online
Cristovão Tezza, 57, precisou dar voltas antes de se render à carreira de escritor. Foram voltas físicas --ele saiu de Lages, sua cidade natal, para ir à Curitiba, Coimbra e Acre, até retornar à capital paranaense--, mas também emocionais. O adolescente que se recusava a prestar vestibular, tentou entrar na Marinha e fez parte de um grupo alternativo de teatro acabou se tornando professor universitário e um dos escritores de maior reconhecimento no Brasil.
Seu livro mais recente, "O Filho Eterno" (Record, 2007), recebeu os prêmios Portugal Telecom de Literatura e APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), dando a Tezza o reconhecimento merecido. O romance fala das experiências vividas por um pai no início da década de 1980, ao descobrir que seu primeiro filho é portador da Síndrome de Down. Muitos disseram que se trata de uma obra autobiográfica, uma vez que Felipe, filho do escritor, é portador da síndrome. Tezza discorda: para ele, tudo o que escreve é ficção. Mas ele não nega que conseguiu, finalmente, abordar um tema que sempre o amedrontou, e que transformar-se em personagem possibilitou essa abordagem.
| Fotomontagem Folha Online |
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| O escritor Cristovao Tezza e seu premiadíssimo livro "O Filho Eterno"; catarinense está na 7ª Flip, que ocorre entre 1º e 5 de julho |
Em entrevista por e-mail à Folha Online, o escritor, que participa da 7ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e que se define como uma pessoa em transformação, fala sobre biografia, o processo de escrever, a relação com seu filho e com o sucesso, deixando clara sua crença no poder formador da literatura.
Leia íntegra da entrevista concedida à Folha Online.
Folha Online - Sua vida parece pontuada por muitas utopias, como você mesmo caracteriza vários momentos em seus textos: aquela da vida em comunidade, a do artista, a do artesão. Olhando agora para a sua trajetória, você acha ainda que foram mesmo momentos utópicos? Você acredita que há na sua vida hoje espaço para novas utopias?
Cristovão Tezza - Não foram grandes utopias coletivas, de fundo político, como a que em princípio moveu a luta armada no Brasil (ainda que o projeto tivesse sempre um fundo totalitário). No meu caso, foram as utopias periféricas, de alma anarquista e comunitária, em pequena escala, na medida do indivíduo, que deram um norte para minha passagem à vida adulta e acabaram me marcando profundamente. Politicamente, um certo horror instintivo ao Estado e a suas formas (claro, a ditadura militar pesava muito --mas até hoje esse instinto, bastante suavizado, permanece comigo). De outro, um senso de inadequação social, que acaba, até de modo infantil, se transformando num valor a preservar. Em suma, passei boa parte da vida tentando botar a vida e a arte no mesmo pacote, o que não podia mesmo dar certo. Hoje eu tenho um certo receio do pensamento utópico --ele é sempre uma porta aberta ao pensamento mágico e ao irracionalismo. Meu refúgio é a ficção, como um modo muito particular de reconhecimento das coisas do mundo. Não tenho mais nenhuma pretensão de pensamento totalizante sobre a realidade.
Folha Online - Como é o seu processo de escrever?
Tezza - Vivo respondendo a essa pergunta e nunca acertei exatamente a resposta. É um processo difuso, com alguns elementos práticos estáveis: preciso de rotina --quando começo um romance, escrevo todos os dias, em horas certas, em geral três horas por dia, de segunda a sexta, como um funcionário público de mim mesmo-- e de ócio --não posso ficar sob pressão ou tensão, não posso sentir pressa, preciso saber que disponho de tempo livre pela frente, gosto de caminhar sem objetivo, de ficar quieto, de silêncio. De dois anos para cá, esses pressupostos desabaram na minha vida, por isso não escrevi mais nada. Mas por uma boa causa: "O Filho Eterno" está representando minha alforria, no mundo das coisas práticas. Ainda sobre escrever: escrevi todos os meus livros a mão, por incrível que pareça, exceto "O Filho Eterno', porque no começo eu imaginei que seria um livro de ensaios ou depoimentos. Quando decidi pela ficção, já estava acostumado ao computador. Acho que não vou mais voltar ao manuscrito. No mais, os temas me acontecem naturalmente e vão me envolvendo --tenho a sensação de que não escolho nada. Começo a escrever sempre com um projeto na cabeça, um começo, um meio e um fim, que jamais se realizam como planejado. Mas se eu não tiver aquele esboço, não consigo começar. O momento chave é descobrir a linguagem do livro, aquela primeira frase que me põe numa visão de mundo particular e que me faz seguir em frente. Por exemplo, "a solidão é a forma discreta do ressentimento", de "O Fotógrafo" (Rocco, 2004). Ou "escrevo este livro por dinheiro', de "Uma Noite em Curitiba" (Rocco, 1995). Ou "eu tinha tudo para dar certo, exceto a família", de "Juliano Pavollini" (Rocco, 2003). Levo muito tempo para chegar a esse momento e então começar o livro. A passagem entre a imagem mental e a realização do texto é sempre traumática.
Folha Online - Seu conto "Telefone", publicado em seu site, parece ser uma de suas melhores biografias. Ainda assim, ele confunde o leitor quanto a datas, eventos e sequências. Era essa a intenção do texto, contar um pouco sobre você mas ainda fazer de si mesmo um personagem?
Tezza - Eu acho que sim. Tenho uma certa dificuldade de lidar com a linguagem assertiva, de opinião, a não ser quando me oculto na linguagem acadêmica, a do ensaio, a pura simulação teórica --aí eu chego a ser dogmático. Para falar de mim mesmo, só a estrutura da ficção dá conta, porque muita coisa é obscura. A ficção me dá liberdade --não falo de mim, mas de alguém que eu, digamos, conheço bem, mas com o qual mantenho uma distância segura. O conto "Telefone" nasceu assim --tudo ali é biográfico, mas a ficção é determinante. Por exemplo, a cena do pai é inventada; é de fato uma montagem de momentos distintos da minha vida. Já a cena da sueca ao telefone --absolutamente irrelevante sob o aspecto biográfico-- é real, embora pareça ficção.
Folha Online - O sr. transitou muito por vários lugares do mundo, na Europa e no Brasil. Como é a sensação de voltar às raízes, de se estabelecer novamente em Curitiba? Como é hoje a sua relação com a cidade?
Tezza - Também nisso não escolhi muito. Fui vivendo mais ou menos pelo faro, atrás de condições práticas para escrever. Em Curitiba, onde me instalei a partir de 1978, encontrei essas condições, que foram se mantendo pelos anos. Nos anos 80, cheguei a morar em Florianópolis, quando comecei a dar aulas, mas voltei para Curitiba. Acabei me transformando num curitibano integral, e não tenho nenhuma vontade de sair mais daqui. Durante anos falei muito mal da cidade, sem saber que, justo por isso, Curitiba se entranhava na minha alma de uma forma irrecuperável. No fim, tudo que eu via como defeito hoje considero qualidade. Esse jeitão introspectivo, o amor pela ordem, um certo medo dos outros, a autoexigência, a ausência de carnaval, a falta de praia, o tamanho da cidade, ainda ao alcance da mão, o frio, o gosto por ficar em casa, os pouquíssimos amigos que duram 40 anos (e não os 350 que duram 40 dias).
Folha Online - Observando hoje a sua trajetória, porque você acha que levou tanto tempo para decidir o que queria fazer? De onde veio a resistência ao meio acadêmico, a entrar na universidade?
Tezza - No imaginário da minha adolescência utópica, a universidade era o braço cultural do Estado --eu seria destruído como artista se entrasse nela. Esperneei o quanto pude para escapar dela, até que a realidade foi chegando ao pescoço. Aos 25 anos, fiz vestibular para letras, ainda meio indócil, cabeceando de desprezo. Súbito, pela via da linguística acabei descobrindo a linguagem da ciência, por assim dizer, e fui como que tomando gosto. Deu no que deu: virei professor. Mas, de fato, nunca me entreguei completamente ao mundo acadêmico --continuei sempre um pouco chucro, mantendo uma secreta resistência, mais emocional que racional. Ao terminar o doutorado, não entrei na pós-graduação, sabiamente, ou nunca mais escreveria nada além de relatórios para a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, órgão do Ministério da Educação), MEC e CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) --preferi continuar mestre-escola. Agora, chegando aos 57 anos (e faltam mais de dez para a aposentadoria...), estou meio que sem condições físicas para continuar, e sinto que tenho muito a escrever. Minha utopia particular é desembarcar da universidade e voltar ao espírito anos 70 de novo...
Folha - Em 'Telefone', e em outras entrevistas suas, o sr. reitera uma visão um pouco desesperançada sobre o que é ser escritor: "Na verdade, ninguém quer que você escreva nada; trabalhar é melhor". O sr. acredita que escrever não é, ainda hoje, uma atividade vista como trabalho? De onde vem todo esse desencanto?
Tezza - A frase do conto tem um toque de ironia, fundindo a voz do menino e da mãe na mesma sentença. Para mim, do ponto de vista emocional, escrever literatura não é "trabalho" --é um prazer, uma viagem pessoal, uma aventura, uma coisa difícil, mas boa. De certa forma, ainda tenho um resíduo adolescente que se recusa a confundir a produção de literatura com "profissão". Quando falam em "sindicato de escritores" sinto um frio na espinha. Mas veja que minha posição não tem nada a ver com beletrismo ou diletantismo --falo da literatura como uma aventura ética e existencial pessoal e intransferível que vai moldando a vida. Uma entrega totalizante. É uma escolha solitária sem nenhuma garantia de retorno. O problema é seu, digamos assim.
Folha Online - O que te deu a ideia de entrar para a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante? Não era o caminho oposto da liberdade que você buscava com o teatro?
Tezza - Foi uma fantasia de escritor iniciante. Achei que, como Joseph Conrad, como oficial da Marinha Mercante (uma profissão civil, não militar), poderia ganhar a vida conhecendo o mundo e escrevendo romances. Ao entrar na escola vivi a dura realidade da rotina militar, já que a escola era administrada pela marinha de guerra, isso em pleno período Médici --Emilio Garrastazu, (1969-74). Não completei seis meses e saí correndo de lá.
Folha Online - O que o tempo na trupe Centro Capela de Artes Populares te trouxe como experiência? O sr. acredita que foi importante para o seu futuro?
Tezza - É difícil avaliar --mas tudo que acontece em nossa existência dos 16 aos 20 e poucos anos deixa marcas para o resto da vida. Foi uma época muito boa para mim-- tenho ótimas lembranças. Foi um período de muita leitura, de formação mesmo --e tudo sob uma ótica meio anárquica, não ortodoxa. Depois, levou um certo tempo para eu me livrar daquele imaginário coletivo e começar a fazer "carreira solo", por assim dizer. Mas as marcas ficaram.
Folha Online - Qual foi o impacto que a ditadura militar teve sobre o sr.?
Tezza - Foi um impacto grande --parentes e amigos, estudantes da universidade, foram presos, alguns exilados, outros desapareceram. No ambiente em que eu vivia, de pessoas ligadas ao teatro e à literatura, é claro que a ditadura era uma pauta absoluta --impossível não responder a ela de algum modo. O lado ruim de toda ditadura é a inescapável polarização do mundo a que ela nos submete. É difícil se livrar desse olhar chapado.
Folha Online - Qual foi o significado de estar em Portugal, vivendo o refluxo da Revolução dos Cravos (1974), enquanto o Brasil vivia a sua ditadura?
Tezza - Essa foi uma experiência fascinante --olhar o Brasil de longe, pisando num país aprendendo a viver em liberdade. Eu não sabia, mas de fato a Revolução dos Cravos abriu caminho para a mudança total do perfil do mundo que se daria anos depois com a queda do Muro de Berlim.
Folha Online - Depois de tanto contestar a universidade, como é fazer parte dela? O sr. acredita na importância de seu trabalho como professor?
Tezza - Sempre me senti uma pessoa em transformação. Seria um absurdo eu tentar sustentar hoje um imaginário de 1970, que fazia sentido na cabeça de um garoto de 18 anos. A descoberta da linguagem da ciência, quando enfim entrei na universidade, foi importante para mim. Nesses 20 e tantos anos de sala de aula, acho que tenho sido um bom professor de língua portuguesa, ainda que pouco imaginativo. Olhando daqui, parece que dei sempre a mesma aula. Academicamente, produzi um livro sobre Bakhtin [Mikhail, autor do clássico "A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento"] e o Formalismo Russo, que é minha tese de doutorado, e dois livros didáticos em parceria com o linguista Carlos Alberto Faraco. O engraçado é que nunca dei aula de literatura ou teoria literária --nas poucas vezes em que me arrisquei nessas áreas, em aulas avulsas ou seminários, fui um desastre. Mas, para ser justo, nunca coloquei minha alma na universidade-- só a sobrevivência e um certo espírito artesão de tentar fazer um trabalho bem feito, sempre que possível.
Folha Online - O sr. se considera um escritor autobiográfico? Ou acha que esse não é o principal traço de sua obra?
Tezza - Fazendo uma retrospectiva do que escrevi, eu diria que sou um escritor de natureza confessional, mas não biográfica. Explico: boa parte dos meus narradores são sempre seres que se confessam; seus textos se estruturam como confissões existenciais, mesmo quando construídos em terceira pessoa. Claro que esse registro, por si só, não tem nada a ver com o registro biográfico --que, aliás, pode se estruturar de uma forma não confessional, friamente, distanciadamente. Tenho apenas dois livros em que o dado biográfico pesou "Ensaio da Paixão" (Rocco, 1999), em que minha experiência dos anos da comunidade está muito presente, ainda que com o toque fantástico, e "O Filho Eterno". Nesse sim, eu me usei sem piedade...
Folha Online - Como se dá nos seus textos a relação entre ficção e realidade? o sr. se preocupa em borrar ou em estabelecer fronteiras? Acha que a vida de um escritor influencia seu trabalho de maneira irreversível? Lidar com isso sempre fez parte do seu projeto de literatura?
Tezza - Eu não penso nisso. Ao escrever ficção, biográfica ou não (e eu acho que já esgotei meu repertório biográfico), sou um "narrador", que vê tudo a frio --para ele, um dragão e um cachorro fazem parte da mesma realidade. Tanto faz se um existe de fato e outro não. A ficção, para mim, é uma "linguagem", não uma forma composicional. Na ficção não há o "pacto de realidade" ou o "pressuposto de verdade", que são a essência do ensaio ou do jornalismo, por exemplo. A ficção é uma experiência paralela à realidade, não o seu retrato.
Folha Online - O que te impulsionou a escrever "O Filho Eterno"? Que barreiras o sr. teve que vencer?
Tezza - De repente, mais de 20 anos depois de o Felipe nascer, pensei em escrever sobre o assunto. Essa ideia jamais havia me ocorrido, e hoje percebo psicanaliticamente esse buraco negro. Isto é, a ideia simplesmente não existia --não se tratava de uma consciência de que eu não estava pronto, ou maduro, nada disso. A hipótese do livro não me ocorria. Súbito, ocorreu, e fiquei tateando um bom tempo atrás de um modo de mergulhar no tema sem ser destruído por ele. Era um risco medonho. Quando a ideia surgiu, tive apenas de vencer o meu medo.
Folha Online - O livro em si é muito cruel com o narrador, mas muito verdadeiro também. Foi cruel para você escrever esse texto? Ou foi também libertador?
Tezza - Escrever não foi nem cruel nem libertador. Escrever, pelo menos para mim, exige um bom grau de afastamento emocional. Escrevo a frio, digamos assim. Uma das chaves desse livro era não me deixar enredar nem pelo seu apelo sentimental, nem pela confissão pura. O que me ajudou é que eu não estava mais lidando com um problema pessoal; talvez não seja presunção dizer que o problema pessoal com o meu filho já não existe há muitos anos. Ao começar o livro, eu estava lidando, de fato, era com um problema literário. Dar uma dimensão literária a uma questão profundamente pessoal. Era um problema técnico, não emocional.
Folha Online - A sua relação com seu filho Felipe se transformou de alguma maneira depois que o sr. terminou o livro?
Tezza - Não, continua ótima como há muitos anos. É bom lembrar que o Felipe não tem linguagem que lhe permita ler, e esse fato foi determinante para a estrutura e o sentido do livro. Obviamente, se ele lesse, o livro seria completamente diferente.
*Folha Online - As entrevistas com o sr. mudaram muito depois da publicação de "O Filho Eterno". Antes se perguntava se o sr. considerava a sua obra autobiográfica, ou se ela carregava muito de autobiografia, e o sr. dizia que não. Hoje, parece que tudo se resume ao sr. ter colocado sua vida, ou o pedaço mais difícil dela, em um livro. O sr. acha que "O Filho Eterno" mudou a sua relação com a literatura? Importa-lhe o que a crítica vai esperar em termos de ficção ou de autobiografia, daqui pra frente?
Tezza - De fato, eu vivi um impacto inesperado com o sucesso desse livro. De certa forma, não me preparei --eu tinha só um discurso prévio de "defesa" do que eu imaginava que seria um massacre da crítica. Meu pessimismo foi sendo desmontado pela reação dos leitores e dos críticos. Percebi que o livro aconteceu de ficar maior do que o seu autor, e eu acho que isso acaba por acontecer com todo escritor em sua maturidade; isto é, o livro acaba por "saber mais" do que o seu autor. Mas não acho que tenha mudado minha relação com a literatura, que vem de muito longe. Estou desenvolvendo projetos que estavam na minha cabeça antes mesmo de "O Filho Eterno" ter sido escrito. Sobre a resposta futura da crítica, pela expectativa, prefiro não pensar. Mas isso me afeta um pouco sim. Estou tentando me imunizar. Sobre a fronteira entre a ficção e a autobiografia, muito provavelmente não será mais um tópico a ser considerado. Como eu disse, acho que já esgotei o poço biográfico.
Folha Online - Para o sr., qual é o papel que a literatura tem na formação das pessoas hoje? O livro, como objeto, supre toda a necessidade de informação do mundo atual? O sr. encorajaria alguém a se tornar escritor hoje, apesar das rejeições sucessivas e desencorajadoras que descreve em "O Filho Eterno"?
Tezza - A literatura é um universo paralelo não oficial, uma linguagem capaz de abarcar, mimetizar e transformar todas as linguagens do mundo, sem se confundir com nenhuma delas. Tudo pode ser recriado pela literatura --a história, a ciência, a informação, a ética, a religião --numa dimensão muito mais ampla do que nos seus limites originais. O seu objeto não é a verdade, mas o homem que pensa sobre ela, de um modo que nenhuma outra linguagem consegue. E vendo de um outro modo, a literatura é um belo instante de solidão, para respirar nessa loucura toda. Bem, o livro é um objeto absolutamente fantástico, e a leitura é um processo exigente, muito mais que todos os recursos audiovisuais do mundo contemporâneo. Encorajar alguém a se tornar escritor? Acho um pouco assustador --é realmente uma escolha que deve ser tomada em solidão.


