Ilustrada
29/06/2009 - 15h58

Historiador Simon Schama analisa eleições norte-americanas em livro; leia trecho

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da Folha Online

Barack Hussein Obama era senador pelo estado do Illinois em seu primeiro mandato e um verdadeiro desconhecido diante da ex-primeira-dama Hillary Clinton quando disputou as eleições presidenciais dos Estados Unidos. Obama conquistou a nomeação democrata com o apoio em massa dos superdelegados. A percepção de que os eleitores buscavam uma mudança na administração do país e a questão racial, mesmo que de forma velada, marcou a campanha do senador.

Em "O Futuro da América" (Companhia das Letras, 2009), o historiador britânico Simon Schama retrata a acirrada eleição presidencial norte-americana de 2008, descrevendo o ambiente social da fase de eleições primárias, quando Hillary Clinton e Barack Obama disputavam voto a voto a preferência dos democratas. O livro também mostra a luta de vários aspirantes para se sobressair entre os republicanos.

Schama reflete, ainda, sobre personagens importantes do passado dos Estados Unidos em alguns dos momentos mais decisivos da trajetória norte-americana, como a Guerra Civil, a Grande Depressão, a presidência de Theodore Roosevelt, os períodos de expansão geográfica que configuraram o território atual, o movimento pelos direitos civis nas décadas de 1950 e 1960, entre outros.

Nesta obra, está presente o dilema entre ideias defendidas por pares de antagonistas como Mark Twain e Theodore Roosevelt, Montgomery Meigs e Robert Lee, John Ross e Andrew Jackson. Esses personagens e eventos estão agrupados em quatro capítulos, cujos temas, de acordo com o autor, são os traços que definem a cultura norte-americana: a guerra, o fervor, a identidade nacional e a riqueza material.

Simon Schama estudou em Cambridge e lecionou em Oxford até 1980, quando se mudou para os Estados Unidos, como professor em Harvard. Foi crítico de arte da revista "The New Yorker", e atualmente dá aulas na Universidade Columbia, em Nova York. Além disso, é produtor e apresentador de documentários sobre história e história da arte para a BBC. O autor tem presença confirmada na Flip 2009 (Festa Literária Internacional de Paraty), na mesa 16, onde conversa com a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz.

Leia abaixo trecho extraído do livro:

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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Divulgação
A disputa pela presidência dos Estados Unidos e vitória de Obama
A disputa pela presidência dos Estados Unidos e vitória de Obama

Posso dizer com exatidão - acrescente ou tire um minuto ou dois - quando foi que a democracia americana ressuscitou, pois eu estava lá: 19h15, horário central dos Estados Unidos, 3 de janeiro de 2008, distrito 53, Escola Secundária Theodore Roosevelt. Posso dizer com segurança porque estava conferindo regularmente o meu relógio, e, além disso, não dava para não ver o grande relógio da escola, com sua velha face branca que tem sido o objeto do ódio e da saudade de várias gerações de adolescentes. Imagino que um visitante de outro mundo - de Londres, por exemplo - teria achado que não havia nada de muito especial acontecendo na zona oeste de Des Moines naquela noite. Minivans encostavam no posto de gasolina Kum & Go, como de costume; homens corpulentos em jaquetas volumosas moviam-se ruidosamente enquanto enchiam o tanque de seus veículos. Sacos de sal eram arrastados pelo átrio, o plástico brilhando sob a luz fria alaranjada. Depois de vários meses de manobras e falatório de autopromoção, era chegada a hora de os eleitores de Iowa revelarem seu julgamento sobre quem eles achavam que deveria ser o 44o. presidente dos Estados Unidos. Eles iriam, segundo os escribas da mídia, "separar o joio do trigo", e os nativos de Iowa gostam de uma boa joeira.

Mas não era como se um cartaz pendesse do céu frio anunciando um DIA HISTÓRICO. As calçadas não estavam cobertas de panfletos de campanha descartados, nem as vitrines do centro gritavam, a cada três lojas, HUCKABEE na sua cara. Ninguém, que eu tenha ouvido, buzinava por Hillary. Depois de alguns dias dirigindo regularmente por Des Moines, o único que encontramos segurando um cartaz na esquina foi um solitário devoto do libertário Ron Paul, esquelético e cabeludo como um João Batista invernal, que aclamava seu herói no centro da cidade deserto. De vez em quando um carro dava uma buzinada ao passar, e o paulino sacudia o cartaz, e em seguida o apoiava no chão para esquentar o peito com os braços. Aí, ele dava alguns pulos para manter o ânimo e impedir que o sangue congelasse no cérebro.

Portanto, embora de trás das janelas dos carros um bocado de acenos alegres de "estamos em evidência" se dirigisse aos forasteiros, Iowa talvez fosse simplesmente muito frígida para o entusiasmo do voto. Assim, eu disse a Jack Judge, o motorista da equipe, enquanto os cinegrafistas e o diretor filmavam sob o vento cortante umas lindas cenas de restolhos congelados de milho: "Importante, hein, Jack?". Jack tirou a boina, afastou uma mecha de cabelo grisalho da testa enrugada, ergueu os óculos que mantinha em uma corrente em volta do pescoço, deu um bafo nas lentes, desembaçou-as com um lenço de papel e declarou: "Muito importante". Jack era a pessoa certa para aquela pergunta, pois ele próprio tinha sido mais ou menos um político. Menino de fazenda de Melrose, município a oitenta quilômetros ao sul do estado, ele teve de crescer depressa para substituir o pai, que havia perdido os dedos em um acidente com uma máquina de ceifar e debulhar milho. Jack cuidava dos porcos, das ovelhas e das galinhas, colhia o milho e a soja manualmente, e transformava madeira em tábuas de cerca da melhor maneira que podia. "A gente tinha água corrente", ele ria, "daquele tipo que você tinha que correr para pegar com o balde." Ele já estava com 73 anos, mas ainda era firme e atraente; era só bater o olho em seu rosto honesto para ver um homem que faria de tudo pela família e pela comunidade.

Um dia, na baixa temporada de 1960, com os campos congelados como agora, um jovem senador de Boston, de origem irlandesa, veio até Melrose, cidade sem nenhuma importância, mas localizada ao norte, no caminho de quem vai para Des Moines. E sem Des Moines - e sem Iowa - em geral ninguém consegue ser candidato a presidente.

(...)

Para os democratas, a eleição de 2008 seria o bálsamo em Galahad depois de quase trinta anos de sofrimento agudo. A ascendência conservadora inaugurada por Ronald Reagan havia sido interrompida pelas vitórias de Clinton em 1992 e 1996, mas para muitos, dentro do partido, essas foram vitórias de Pirro diante da avalanche republicana nas eleições de meio de mandato de 1994, quando a oposição ganhou o controle do Congresso, determinada a corrigir o que chamavam de aberração eleitoral, lançando mão de todas as máquinas de obstrução a seu alcance para frustrar as iniciativas do presidente. O processo de impeachment contra Clinton não havia ajudado. Nem o fato de a Suprema Corte ter entregado a Casa Branca ao candidato derrotado no voto popular. Os democratas pareciam condenados, em um futuro previsível, ao rótulo de liberais perdedores, afastados do sentimento do coração do país. A coisa pareceu piorar ainda mais quando, desprezando a noção debilitante de que deveriam reconhecer a estreiteza de sua vitória, George W. Bush e Dick Cheney passaram a agir como se tivessem um mandato triunfante.

E foi isso, mal sabiam os democratas (e eles certamente não sabiam mesmo), que acabou se tornando exatamente o que eles precisavam. A roda da sorte girou apenas uma ou duas casas. Quase não se ouviu o seu ranger. E tome arrogância. Os republicanos fizeram tudo o que queriam, e conseguiram o que foram buscar, só que não exatamente do jeito que imaginavam: uma batalha ilusoriamente rápida que se transformou em uma guerra infindável e impossível de vencer; um governo tão destituído que se tornou incapaz de atender com alguma competência aos desastres naturais que viriam a ocorrer (inclusive porque boa parte do efetivo da Guarda Nacional estava servindo no Iraque); cortes de impostos regressivos que substituíram o superávit de Clinton por déficits tão colossais que o futuro de programas de previdência social e saúde pública foi colocado em risco, no exato momento em que a geração baby-boom mais ia precisar dele. Para coroar isso tudo, o partido dos negócios, comprometido fazia tanto tempo com a desregulamentação, parecia estar presidindo a mais grave crise financeira desde a Depressão, depois que os bancos perderam ou cancelaram dívidas de bilhões de dólares de inadimplência de hipotecas.

Os democratas sabem que na verdade não é suficiente tirar o corpo fora enquanto apagam disfarçadamente do rosto o sorriso de "não fomos nós" e se apropriam dos ganhos do desgosto (embora no atual momento isso até que lhes serviria bem). Como os republicanos, eles também sentiram a mudança nas correntes marítimas e, como eles, também sentiram (e sentem) a incerteza ideológica quanto à direção a tomar para seguir a maré. Mas passaram a falarmenos defensivamente sobre a integridade do serviço público, sobre a recuperação do senso de comunidade nos Estados Unidos, sobre uma versão da história da nação e da sua condição presente que de certa forma foi encoberta pela longa supremacia do individualismo exacerbado.

Às vezes, parece-me que, para seu próprio bem, deveríamos aposentar a palavra "narrativa" dos cursos de pós-graduação, dos analistas políticos, doutores de imagem, de qualquer um que não narre de verdade. Mas, talvez, não ainda. Histórias dos Estados Unidos a partir de perspectivas opostas aguardam para ser recontadas. Meu palpite é que será o mais irresistível contador de histórias, o melhor historiador, que levantará o braço em frente ao presidente da Suprema Corte, em janeiro de 2009. Mas, então, eu penso que não serei eu essa pessoa?
A história que O Candidato contava à multidão republicana bem-vestida e bem penteada no almoço do dia da convenção do partido no quartel-general da Corporação Kum & Go era a dele próprio, uma vez que a estratégia padrão da campanha política moderna requer que o filme biográfico seja a plataforma. "Eu sou os Estados Unidos", diz o texto, "eu sou você", ou melhor, "a pessoa que você quer ser, e os Estados Unidos que você quer ver, não sou?"

Mitt Romney precisava desesperadamente de uma história, já que a alternativa seria a de outros a fazerem por ele, e nesse caso a história acabaria sendo inevitavelmente sobre seu mormonismo. Mas Mitt possuía precisamente o antídoto narrativo para dissipar suspeitas, ou seja, aquele do empresário cabeça-dura e coração mole, especialista em reviravoltas (as Olimpíadas de Inverno, a Commonwealth de Massachusetts), que foi pondo no mundo rapazes prolíficos e uniformemente bonitos, que por sua vez fizeram o mesmo, o que resultou em bebês inacreditavelmente lindos, colocados todos juntos nos braços de vovô Mitt no palco, e que pareciam estar em choque momentâneo, como se tivessem sido repentinamente privados de sorvete sem nenhum motivo, mas que mesmo assim conseguiam não cair no choro. Aquilo era um milagre de verdade, ou então o sorvete estava atrás do palco. Mas não dava para não gostar do vovô Mitt, tão sensacionalmente despojado diante dos Estados Unidos. Seu topete lustroso e escuro erguia-se do topo da cabeça; seu sorriso ortodonticamente imaculado brilhava, a linha da cintura apertada revelava o físico bem preparado; as mangas arregaçadas até os cotovelos já estavam prontas - para o quê, exatamente? Para abrir a porta de sua própria limusine? Romney usava frases completas com um charmoso tom de autodepreciação, uma combinação vitoriosa especialmente em uma elegante capital de estado como Des Moines. Teve até mesmo a coragem de citar diante da multidão republicana o historiador de Harvard David Landes, que ele considerava (equivocadamente, a não ser no sentido gladstoniano) um liberal clássico, mas cuja excepcional teoria de que as culturas políticas produzem economias, e não o contrário, Romney achava certíssima. Sua própria cultura era pura e ávida iniciativa, e, como se o quisesse demonstrar, movia-se ao redor da plataforma em econômicos passinhos curtos, como que dizendo "deixe-me dar um jeito nisso". Atrás de si, a grande Tribo de Romney parecia ter se multiplicado misteriosamente em um grupo ainda maior de loiros e bebês enquanto o comício prosseguia, de modo que o círculo ao redor de Mitt ia se fechando cada vez mais até que finalmente se tinha a impressão de que ele girava em si mesmo ao som da valsa de Iowa. Um passinho pra cá, outro pra lá, gira, inclina-se para a plateia, sorri.

Iowa, Iowa, inverno primavera verão e outono.
Venha ver. Venha dançar comigo
A liiinda valsa de Iowa.

A multidão o aclamava. Ele era o seu Homem. Ele era o futuro. Ele era os Estados Unidos. No meio da aglomeração, perguntei aos dois filhos (de doze e de catorze anos) de Kristin, uma professora da Universidade de Boston, o que eles mais queriam ver assegurado pelo presidente Romney ao futuro do país, ao que eles responderam, com assustadora rapidez e certeza, "ah, um orçamento equilibrado". Você consegue entender o que eles querem dizer, embora cortar impostos até o osso, como o candidato recomendava, não parecesse, a curto prazo, ser a melhor maneira de atingir esse objetivo. Mas deixe Ryan e Scott à vontade na multidão, pensei, porque o Penteado já se deu bem.

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"O Futuro da América"
Autor: Simon Schama
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 464
Quanto: R$ 54,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha

 

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