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Ilustrada
01/07/2009 - 09h02

Livro de Ma Jian trata do massacre de estudantes chineses; leia trecho da obra

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da Folha Online

A edição de 2009 da Festa Literária Internacional de Paraty receberá na quinta (2), às 17h, o escritor chinês Ma Jian. O autor participará da Mesa Literária "China no divã" com a jornalista Xinran, que será mediada por Angel Gurría-Quintana.

O premiado escritor, fotógrafo e poeta chinês Ma Jian (1953) se exilou na Inglaterra após ter sua coleção de contos sobre o Tibete -- "Stick Out Your Tongue" -- banida pelo governo da China em 1986. Com a conquista da liberdade para se expressar, teceu o romance "Pequim em Coma" (Record, 2009), onde faz evidentes críticas ao cerceamento da individualidade e da informação imposto pelo governo comunista até os dias atuais.

Fotomontagem Folha Online
O escritor chinês Ma Jian e seu livro "Pequim em Coma", em que revela a tragédia do massacre na Praça da Paz Celestial
O escritor chinês Ma Jian e seu livro "Pequim em Coma", em que revela a tragédia do massacre na Praça da Paz Celestial

Dono de uma linguagem certeira, seca e por vezes cruel, Ma Jian abusa dos sentidos, em especial do olfato, para narrar a trajetória de vida do fictício revolucionário e estudante de biologia Dai Wei. Após ser gravemente ferido durante o massacre na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em 1989, o protagonista entra em coma. Do leito de um fétido hospital, oscilando entre a consciência e a letargia, Dai Wei revê os momentos mais decisivos de sua história. "Pois bem, ainda estou vivo... Posso estar jogado num hospital, mas ao menos não estou morto. Fui apenas enterrado em vida dentro de meu próprio corpo...". O leitor é imerso em uma narrativa que se inicia com a Revolução Cultural maoísta, quando o pai de Dai Wei, acusado de traição ideológica, é enviado para trabalhos forçados pelo sistema "reforma-pelo-trabalho", por 22 anos. As implicações desse fato marcam profundamente a infância e juventude do chinês.

Ressentimentos, desespero e cenas chocantes -- como descrições minuciosas de um ritual canibalístico envolvendo uma jovem de 16 anos que teve seu corpo devorado pelos habitantes de um vilarejo, e a ideia cogitada pela própria mãe de Dai Wei de vender os rins do filho para pagar as despesas do hospital -- fazem parte da denúncia de Ma Jian, que também foi integrante do grupo massacrado em 1989. O autor, inconformado com o esforço por parte do governo chinês em suprimir a memória dos acontecimentos das últimas décadas, dá a sua versão dos fatos nessa realística ficção.

Leia abaixo o trecho extraído da obra:

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro.

*

Pelo buraco escancarado onde antes havia a sacada, você vê que a acácia derrubada começa a crescer novamente. É um claro sinal de que você terá que levar sua vida a sério de agora em diante.

Você pega um travesseiro e o ajusta sob os ombros, elevando a cabeça para que o sangue em seu cérebro possa descer para o coração, clareando um pouco seus pensamentos. De vez em quando, sua mãe o ajeitava desta maneira.

Manhãs nubladas estão sempre repletas de novas intenções. Mas hoje é o primeiro dia do novo milênio, e por isso a aurora nunca esteve tão carregada delas. Embora os gelos do inverno ainda não tenham chegado, a brisa leve que lhe atinge o rosto parece bastante fria.

Um cheiro de urina ainda paira no quarto. Ele emana de seus poros quando a luz do sol bate em sua pele. Você olha para fora. O ar da manhã não se eleva do chão como no dia anterior.

Em vez disso, ele desce do céu sobre as copas das árvores, desliza lentamente entre as folhas e passa pela carta manchada de sangue presa nos galhos, absorvendo o orvalho ao cair.

Antes da chegada do pardal, você quase deixara de pensar no ato de voar.

Contudo, no inverno passado, ele chegou planando pelo céu e pousou diante de você, ou, mais precisamente, no parapeito da sacada coberta adjacente a seu quarto.

Você sabia que as vidraças imundas estavam cobertas de formigas mortas e poeira, e emitiam um cheiro tão azedo quanto o das cortinas. Mas o pardal não tinha asco. Ele saltou para dentro da sacada coberta e sacudiu as penas, lançando um doce aroma de casca de árvore no ar. Depois, voou para o interior de seu quarto, pousou sobre seu peito e ali permaneceu, como um ovo frio.

Seu sangue se torna mais quente. Os músculos de suas pálpebras vibram. Seus olhos logo estarão cheios de lágrimas. Saliva se acumula no palato mole do fundo de sua boca. Um reflexo é provocado e o palato se ergue, fechando a passagem nasal e permitindo que a saliva flua para sua faringe. Dormentes por tantos anos, os músculos do esôfago se contraem, projetando a saliva para dentro do estômago. Um sinal bioelétrico dardeja dos neurônios de seu córtex motor como uma centelha de luz, descendo por sua espinha dorsal até chegar à fibra muscular na ponta de seu dedo.

Você já não precisará recorrer a suas memórias para atravessar o dia. Isto não é um efêmero clarão de vida antes da morte. É um recomeçar.

"Uaa, uaaah..."

O choro sufocado de um bebê atravessa o ar fétido. Um minúsculo corpo nu parece tremer sobre o frio chão de concreto... Sou eu.

Eu me lancei do meio das pernas de minha mãe, minha cabeça latejando de dor. Espalmo a mão na poça de sangue que se acumula a meu redor...

Minha mãe sempre contava como foi forçada a usar uma camiseta bordada com os dizeres ESPOSA DE UM DIREITISTA quando me deu à luz. O médico de plantão não ousou oferecer ajuda para trazer este "filho de um cão capitalista" ao mundo. Felizmente, minha mãe desmaiou depois que a bolsa d'água se rompeu, e não sentiu dor alguma quando eu me empurrei para fora e nasci no corredor do hospital.

E agora, tantos anos depois, também me encontro inconsciente num hospital.

Só o ocasional ruído das ampolas de injeção sendo rompidas me diz que ainda estou vivo.

Sim, sou eu. O filho mais velho de minha mãe. Os olhos de um sapo enterrado cruzam minha mente. Ainda estou vivo. Fui eu quem aprisionou o sapo num jarro e o enfiou na terra... O corredor escuro lá fora é muito longo.

No final fica a sala de operações, onde corpos são manipulados como meras massas de carne... E a moça que vejo agora - qual é o nome dela? A-Mei. Ela caminha em minha direção, apenas uma silhueta branca. Ela não tem cheiro. Seus lábios tremem.

Estou deitado numa cama de hospital, exatamente como meu pai esteve antes de morrer. Eu sou Dai Wei - a semente que ele deixou para trás. Estou começando a recordar coisas? Então provavelmente estou vivo. Ou talvez eu esteja desaparecendo, vislumbrando as ruínas de meu passado uma última vez. Não, não é possível que eu esteja morto, eu ouço ruídos. E a morte é silenciosa.

- Ele só está fingindo de morto... - minha mãe murmura para alguém.

- Não consigo comer este pak choi. Está cheio de areia.

Ela está falando de mim. Ouço um barulho junto a meu ouvido. É o cólon de alguém, roncando.

Onde está minha boca? Meu rosto? Vejo um borrão amarelo diante de meus olhos, mas ainda não consigo sentir cheiro algum. Ouço um bebê chorando em algum lugar distante, e o som ocasional de água quente sendo armazenada numa garrafa térmica.

A luz amarelada vacila. Talvez um pássaro tenha acabado de cruzar o céu.

Sinto que estou acordando de um longo sono. Tudo soa novo e desconhecido.

O que aconteceu comigo? Vejo-me de mãos dadas com Tian Yi, fugindo por nossas vidas. Será uma lembrança? Isto realmente aconteceu?
Os tanques avançam em nossa direção. Há fogo ardendo por todo lado, e gritos... E agora?

Perdi os sentidos quando os tanques se aproximaram de mim? Este ainda é o mesmo dia?

Quando meu pai jazia no hospital, esperando pela morte, o fedor dos lençóis sujos e de casca podre de laranja às vezes era forte o bastante para mascarar o cheiro penetrante das camas de metal enferrujadas. Quando o céu do crepúsculo se fechava sobre as janelas, as cortinas imundas se mesclavam à luz dourada e o quarto se tornava ligeiramente mais transparente, e eu ao menos podia sentir que meu pai ainda estava vivo... Naquela última tarde, não ousei encará-lo. Em vez disso, fiquei virado para a janela e fitei o lema em vermelho - ERGAMOS A GLORIOSA BANDEIRA RUBRA DO MARXISMO E AVANCEMOS COM CORAGEM - que pendia do teto do prédio de fundos do hospital, e a pequena nesga de céu acima...

Durante os últimos dias da vida de meu pai, ele falou sobre os três anos que passou como estudante de música nos Estados Unidos. Ele mencionou uma moça da Califórnia que conheceu quando estava lá. Ela se chamava Flora, o que significa flor em latim. Meu pai disse que quando Flora tocava violino, ela baixava os olhos para o chão e ele admirava seus longos cílios. Ela prometeu visitá-lo em Pequim depois que deixasse a faculdade, mas, na época em que se formou, a China já se tornara um país comunista, e nenhum estrangeiro tinha permissão de entrar.

Eu me lembro do molar podre e enegrecido na lateral de sua boca. Enquanto falava conosco no hospital, ele passava a mão em seu lençol de algodão e no cateter urinário inserido em seu abdome, escondido sob os panos.

- Tecnicamente falando, ele é um vegetal - diz uma enfermeira à minha direita. - Mas pelo menos o fluido intravenoso ainda penetra em suas veias. É um bom sinal. - Ela parece falar através de uma máscara facial e estar rasgando um pedaço de musselina. Os ruídos vibram por mim, e ganho uma vaga noção do tamanho e do peso do meu corpo por um momento.

Se sou um vegetal, devo ter passado algum tempo deitado aqui, inconsciente. Isto significa que estou acordando agora?

Meu pai aparece novamente. Seu rosto está tão nebuloso que é como se eu o visse através de uma peneira. Meu pai também estava preso a um soro intravenoso quando deu seu último suspiro. Como a vidraça de uma janela, sua íris esquerda refletia o topo do prédio de fundos do hospital, um fragmento de céu e alguns galhos de árvore. Se eu morresse agora, meus olhos fechados não refletiriam coisa alguma.

Talvez eu só tenha mais alguns minutos de vida, e isto é apenas uma recuperação momentânea da consciência antes da morte.

- Ah! Provavelmente estou perdendo meu tempo aqui. Ele nunca vai acordar. - A voz de minha mãe soa próxima e distante a um só tempo. Ela paira no ar. Talvez meu pai tenha ouvido os sons desta maneira pouco antes de sua morte.

Naqueles últimos momentos de sua vida, a máscara de oxigênio em seu rosto e o tubo de plástico inserido em seu nariz pareciam supérfluos. Se ele não tivesse enfermeiras regularmente removendo o catarro de sua garganta, ou inserindo leite em seu estômago através de um tubo de alimentação de borracha, ele teria morrido naquela cama de metal várias semanas antes. Quando ele estava prestes a partir, senti seus olhos concentrados em mim. Eu estava puxando a camisa de meu irmão. As migalhas de bolo em suas mãos se espalhavam sobre o lençol. Meu irmão estava tentando subir na cama. A chave que pendia de seu pescoço tilintou contra a armação metálica da cama. Eu dei um repelão tão forte na alça de sua mochila de couro que a rompi no meio.

- Desça daí! - gritou minha mãe, os olhos vermelhos de fúria. Meu irmão irrompeu em lágrimas. Eu fiquei em silêncio.

Um segundo depois, meu pai afundou na jaula do equipamento médico que o cercava e adentrou minha memória. A vida e a morte convergiram dentro de meu corpo. Tudo me pareceu muito simples.

- Ele se foi - disse a enfermeira, sem tirar a máscara do rosto. Com a ponta de seu sapato, ela chutou de lado os palitos e bolas de algodão com que limpara o catarro dele, e depois disse à minha mãe para ir à recepção e completar as formalidades exigidas. Se o corpo não fosse levado ao necrotério antes da meia-noite, minha mãe teria que pagar por mais uma noite de internação no hospital. O Diretor Guo, gestor de pessoal da companhia de ópera à qual meus pais pertenciam, aconselhou minha mãe a requerer a reabilitação política póstuma para meu pai, enfatizando que o dinheiro da indenização poderia ajudar a cobrir as despesas do hospital.

Meu pai parou de respirar e tornou-se um cadáver. Seu corpo jazia na cama, tão grande quanto antes. Eu me coloquei a seu lado, com seu relógio em meu pulso.

Após a cremação, minha mãe parou no ponto de ônibus embalando a urna de cinzas em seus braços e dizendo:

- As últimas palavras de seu pai foram que ele queria suas cinzas enterradas nos Estados Unidos. Isto é direitismo! Mesmo à beira da morte, ele se recusou a se arrepender.

Quando nosso ônibus se aproximava, ela exclamou:

- Pelo menos de agora em diante não teremos que viver num estado de constante pavor!

Ela guardou a urna de cinzas sob sua cama de ferro. Antes de ir dormir, às vezes eu a puxava e olhava para dentro. Quanto mais medo eu tinha das cinzas, mais queria olhar para elas. Minha mãe dizia que se um amigo dela um dia partisse da China, ela lhe daria a urna e pediria que ele a enterrasse no exterior, para que o espírito de meu pai pudesse se elevar num céu estrangeiro.

- Você deve partir e estudar lá fora, meu filho - meu pai sempre repetia quando estava no hospital.

*

"Pequim em Coma"
Autor: Ma Jian
Editora: Record
Páginas: 700
Quanto: R$ 70
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 e no site da Publifolha

 

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