Publicidade

Ilustrada
30/06/2009 - 11h27

Richard Dawkins compara línguas modernas e mortas às listagens do DNA; leia trecho

Publicidade

da Folha Online

Na quinta-feira (2), às 19h, o zoólogo e evolucionista Richard Dawkins e o jornalista Silio Boccanera participam da mesa "Deus, Um Delírio" durante a Flip-2009 (Festa Literária Internacional de Paraty). A conversa promete boas doses de polêmica, afinal é de Dawkins a autoria do livro cujo título nomeia a mesa.

Enquanto isso, imagine Dawkins traçando uma peregrinação por cerca de 4 bilhões de anos pela árvore genealógica da vida. A cada entroncamento --ao total, 40--, seus integrantes contam suas aventuras e ressaltam a diversidade da biologia evolutiva. Ao longo do trajeto, o zoólogo relata os mistérios da evolução que ainda hoje desafiam os biólogos.

Em "A Grande História da Evolução: na Trilha dos Nossos Ancestrais" (Companhia das Letras, 2009), o autor investiga a história humana a partir da natureza que a cerca. Ele percorre a diversidade natural e explora seus diversos caminhos a fim de compreendê-la. Entre seus percursos, trata do estudo do DNA e das línguas em paralelo.

No trecho abaixo, o autor explica que os linguistas recorrem à chamada "triangulação" para comparar as línguas modernas e agrupá-las hierarquicamente em famílias dentro de famílias. Reconstituem, de certa forma, a história inicial das línguas mortas e dos primeiros registros linguísticos da humanidade. O método da triangulação é utilizado porque permite aos estudiosos penetrar em centenas de milhões de anos.

A partir disso, o evolucionista compara a triangulação das línguas modernas e das mortas reconstituídas com os organismos modernos --suas características externas ou suas sequências de proteínas. Segundo o zoólogo, à medida em que as listagens longas e exatas do DNA de um número de espécies modernas crescem, a confiabilidade das nossas triangulações também aumentará, porque os textos de DNA apresentam uma imensa série de sobreposições. Daí, a obra de Dawkins ser considerada uma "enciclopédia de vida" para ler e, principalmente, refletir.

Leia abaixo um trecho extraído do livro "A Grande História da Evolução: na Trilha dos Nossos Ancestrais". Conheça também outras obras publicadas por Richard Dawkins.

*

TRIANGULAÇÃO

Divulgação
Autor investiga a história do homem por cerca de 4 bilhões de anos
Autor investiga a história do homem por cerca de 4 bilhões de anos

Muitos linguistas querem reconstituir a história das línguas. Quando sobrevivem registros escritos, isso é fácil. O linguista histórico pode usar o segundo dos nossos dois métodos de reconstrução para chegar à origem de relíquias renovadas - nesse caso, palavras. Graças à tradição literária contínua, através de Shakespeare, Chaucer e "Beowulf", sabemos que o inglês moderno, com a intermediação do inglês médio, remonta ao anglo-saxão. Mas a fala, obviamente, é muito mais antiga do que a invenção da escrita, e além disso muitas línguas não têm forma escrita. Para reconstituir a história inicial das línguas mortas, os linguistas recorrem a uma versão do que chamo de triangulação. Eles comparam línguas modernas e as agrupam hierarquicamente em famílias dentro de famílias. As línguas românicas, germânicas, eslavas, celtas, bem como outras famílias de línguas europeias, são por sua vez agrupadas com algumas famílias de línguas indianas na família indo-europeia. Os linguistas supõem que o "proto-indo-europeu" foi realmente uma língua, falada por uma tribo específica por volta de 6 mil anos atrás. Eles até aspiram reconstituir muitos dos detalhes dessa língua extrapolando para o passado as características comuns às suas descendentes. Outras famílias de línguas de outras partes do mundo, equivalentes em classificação ao tronco indo-europeu, tiveram sua história reconstituída dessa mesma maneira: a altaica, a dravidiana e a urálico-yukaghir, por exemplo. Alguns linguistas otimistas (e polêmicos) acham que conseguirão ir até um passado ainda mais remoto, unindo essas principais famílias em uma abrangente "família de famílias". Desse modo, eles se convenceram de que poderão reconstituir elementos de uma hipotética "ur-língua" que denominam "nostrática", a qual, pensam eles, teria sido falada entre 12 mil e 15 mil anos atrás.

Muitos linguistas, embora satisfeitos com as noções sobre o proto-indo-europeu e outras línguas ancestrais de classificação equivalente, duvidam que se já é possível reconstituir uma língua tão antiga como o nostrático. O ceticismo desses profissionais reforça minha incredulidade de amador. Mas não há dúvida nenhuma de que métodos de triangulação equivalentes - diversas técnicas para comparar organismos modernos - funcionam para a história evolutiva e podem ser usados para penetrarmos por centenas de milhões de anos atrás. Mesmo se não tivéssemos fósseis, uma refinada comparação de animais modernos possibilitaria uma reconstituição razoável e plausível de seus ancestrais. Assim como um linguista penetra no passado até o proto-indo-europeu, efetuando a triangulação com línguas modernas e línguas mortas já reconstituídas, podemos fazer o mesmo com organismos modernos, comparando suas características externas ou suas sequências de proteínas ou de DNA. À medida que as bibliotecas do mundo forem acumulando listagens longas e exatas do DNA de um número crescente de espécies modernas, a confiabilidade das nossas triangulações aumentará, em particular porque os textos de DNA apresentam uma imensa série de sobreposições.

Explicarei o que quero dizer com "série de sobreposições". Mesmo quando extraídas de parentes extremamente distantes, por exemplo, humanos e bactérias, ainda assim grandes seções de DNA de ambos são inequivocamente semelhantes entre si. Parentes muito próximos, como os seres humanos e os chimpanzés, possuem muito DNA em comum. Se escolhermos nossas moléculas com critério, encontraremos um espectro completo de proporções uniformemente crescentes de DNA comum às duas espécies por todo o caminho. Podemos escolher moléculas que, entre si, abranjam toda a gama de comparação, de primos remotos como os humanos e as bactérias até primos próximos como duas espécies de rã. Já as semelhanças entre línguas são mais difíceis de discernir, com exceção dos pares de línguas próximas como o alemão e o holandês. A cadeia de raciocínio que conduz alguns linguistas esperançosos ao nostrático é tênue o bastante para que seus elos sejam vistos com ceticismo por outros linguistas. O equivalente para o DNA da triangulação que conduz ao nostrático seria a triangulação entre, digamos, os humanos e as bactérias? Mas homens e bactérias possuem alguns genes que quase não mudaram nada desde o ancestral comum - seu equivalente do nostrático. E o próprio código genético é praticamente idêntico em todas as espécies e há de ter sido o mesmo nos ancestrais comuns. Poderíamos dizer que a semelhança entre o alemão e o holandês é comparável à existente entre qualquer par de mamíferos. O DNA dos humanos é tão semelhante ao dos chimpanzés que podemos fazer uma analogia com o inglês falado com sotaques ligeiramente diferentes. A semelhança entre o inglês e o japonês, ou entre o espanhol e o basco, é tão pequena que nenhum par de organismos vivos pode ser escolhido para uma analogia - nem mesmo os humanos e as bactérias. Homens e bactérias possuem sequências de DNA tão semelhantes que parágrafos inteiros são idênticos, palavra por palavra.

*

"A Grande História da Evolução: na Trilha dos Nossos Ancestrais"
Autor: Richard Dawkins
Tradutor: Laura Teixeira Motta
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 758
Quanto: R$ 59
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca