Romance de escritor afegão é inspirado no drama de poeta espancada até a morte; veja trecho de livro
da Folha Online
O escritor e cineasta de origem franco-afegã, Atiq Rahimi, 47, vem ao Brasil na edição da 7ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece de 1º a 5 de julho. Junto do escritor Bernardo Carvalho, 49, ele participa da mesa redonda "O Avesso do Realismo" na sexta-feira (3), às 11h45.
Nascido em Cabul (Afeganistão) em 1962, Rahimi refugiou-se na França em 1985, em virtude da guerra civil no seu país. Por lá, formou-se em Letras e estudos cinematográficos nas Universidades de Rouen e La Sorbonne Nouvelle. Paralelamente aos estudos iniciou-se na carreira literária, sempre marcada por influências ocidentais e orientais.
Seu mais recente livro "Syngué Sabour: Pedra de Paciência" (Estação da Liberdade, 2009) lhe rendeu o prêmio Goncourt, de literatura da França.
A primeira obra do autor escrita em francês -- as anteriores foram escritas em dialeto falado no norte e no noroeste afegão, o dari-- é dedicada à poeta afegã Nadia Anjuman, que foi espancada até a morte pelo próprio marido.
| Fotomontagem Folha Online |
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| "Syngué Sabour: Pedra-de-Paciência", romance em francês do autor Atiq Rahimi e ganhou o Prêmio Goncourt 2008 |
Em "Syngué Sabour: Pedra de Paciência", Rahimi faz uma análise crítica da condição da mulher na cultura afegã e mostra como a ortodoxia islâmica reprime a liberdade sexual feminina. Tudo em uma linguagem poética e emocionante.
De acordo com a mitologia persa, "syngué sabour", ou pedra-da-paciência, é uma pedra mágica que guarda segredos e angústias, e que liberta a pessoa dos seus sofrimentos no dia em que explode. Em um paralelo, o marido torna-se a pedra-da-paciência da mulher.
Leia abaixo trecho das primeiras páginas do livro "Syngué Sabour: Pedra de Paciência".
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Um quarto pequeno. Retangular. Sufocante, apesar das paredes claras em tom ciã e das duas cortinas estampadas com motivos representando pássaros migratórios fixados no impulso do voo sobre um céu amarelo e azul. Alguns furos deixam penetrar os raios do sol que vão se deter nas listras desbotadas de um tapete kilim. No fundo do quarto há outra cortina. Verde. Lisa. Ela esconde uma porta desusada. Ou um quarto de despejo. Um quarto vazio. Vazio de enfeites. Com exceção da parede que separa as duas janelas, onde penduraram um pequeno kandjar 1 e, acima do kandjar, uma foto, a foto de um homem bigodudo. Talvez ele tenha uns trinta anos.
Cabelos cacheados. Rosto quadrado, suspenso entre parênteses por duas costeletas aparadas
cuidadosamente. Seus olhos negros brilham. São pequenos, separados por um nariz de bico de águia. O homem não ri, no entanto tem ares de alguém que contém o riso. Isso lhe dá um semblante estranho, de um homem que, por dentro, zomba de quem o contempla. A foto é em preto e branco, colorida artesanalmente com matizes insípidos. Diante da foto, ao pé da parede, o mesmo homem, agora com mais idade, está recostado num colchão vermelho colocado diretamente no chão. Vê-se sua barba. Grisalha. Ele emagreceu. Demais. Resta-lhe somente a pele. Pálida. Cheia de rugas. Seu nariz assemelha-se cada vez mais ao bico de uma águia. Ele continua sem rir. Mas tem ainda aquele estranho semblante zombeteiro. Sua boca está entreaberta. Os olhos, ainda menores, estão enfiados nas órbitas. O olhar, fixado no teto, em algum ponto entre as vigas de madeira escurecidas, apodrecidas. Os braços, inertes, estendidos ao longo do corpo. Sob a pele diáfana, as veias, como vermes estafados, entrelaçam-se aos ossos salientes de sua carcaça. No punho esquerdo ele traz um relógio mecânico e, no anular, uma aliança de ouro. Na parte interna do braço direito, um cateter injeta um líquido incolor proveniente de uma bolsa de plástico suspensa à parede, bem acima de sua cabeça. O resto do corpo está coberto por uma longa camisola azul, bordada na gola e nos punhos. As pernas, rígidas como duas estacas, estão afundadas sob um lençol branco, sujo.
Oscilando ao ritmo da respiração do homem, a mão de uma mulher encontra-se sobre o peito dele, acima do coração. A mulher está sentada. As pernas dobradas e encaixadas no peito. A cabeça mergulhada entre os joelhos. Seus cabelos negros, muito negros, longos, recobrem-lhe os ombros, que balançam seguindo o movimento regular do braço. Com a outra mão, a esquerda, ela segura um longo terço negro, cujas contas vai debulhando com os dedos. Em silêncio. Lentamente. Na mesma cadência em que oscilam seus ombros. Ou na mesma cadência da respiração do homem. Seu corpo está envolto por um vestido comprido. Púrpura. Ornamentado, nas extremidades das mangas, bem como na barra da saia, por alguns motivos discretos representando espigas e flores de trigo. Ao alcance da mão, aberto na folha de guarda sobre
uma almofada de veludo, um livro, o Corão. Uma garotinha chora. Ela não está no mesmo aposento. Talvez esteja no quarto ao lado. Ou no corredor. A mulher move a cabeça. Fatigada. Afasta-a dos
joelhos.
1. Em persa, "facão". [N.T.]
*
"Syngué Sabour: Pedra de Paciência"
Autor: Atiq Rahimi
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 152
Quanto: R$ 30,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha
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