Romance de Edna O'Brien traz história de mulher dividida entre a família e o amor; leia trecho
da Folha Online
Criada em um vilarejo irlandês extremamente religioso, sem acesso a livros que não fossem a Bíblia, Edna O'Brien escandalizou a comunidade ao lançar livros que tratavam de seu cotidiano. Sem conhecer muita coisa além do local em que morava, suas primeiras obras traziam um tom de diário que as levou a serem banidas da Irlanda.
Ao utilizar mulheres como protagonistas, a autora descrevia as suas vidas particulares com a precisão de quem viveu no mesmo ambiente. O que acabou irritando as autoridades religiosas, que viam suas obras como imorais. Hoje, já aceita, aproveita a receptividade de seus textos que são transformados em filmes e séries de televisão locais.
Convidada para participar da 7ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) O'Brien poderá ver seu sucesso com o público feminino. Como seus livros apresentam protagonistas femininas fortes, a escritora costuma ser recebida pelas mulheres como libertadora.
Leia entrevista da autora concedida à Folha Online
Seu primeiro livro editado no Brasil é "Dezembros Selvagens" (Bertrand, 2003).Também passado na Irlanda, o título conta a história de uma mulher encantada com o novo morador de sua vizinhança isolada na montanha e precisa resistir a seu magnetismo para evitar a ira de seu irmão.
Leia abaixo a introdução do romance.
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Heráldico e firme ele resfolegava subindo a estrada da montanha, o som, um som novo maculando a paisagem profundamente pensativa. Um som novo e uma nova máquina, sua frente achatada da cor de tijolo cozido, as faixas dos grandes pneus cobertas de esterco, esterco molhado e esterco seco, deixando trilhas que pareciam feitas de larvas.
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| Primeiro livro publicado no Brasil conquistou o público feminino |
Era o primeiro trator na montanha e sua chegada seria lembrada e recontada; o dia, a hora da tarde e o modo como os corvos voaram em círculo sobre ele, escurecendo o céu, margeando, silenciosos, um augúrio. Havia pássaros sempre; corvos, pegas, tordos, cotovias, mas raramente daquele jeito, tantos e tão juntos. Era começo de outono, um daqueles dias parados de outono, vários campos vazios de feno, os tocos de um ouro manchado, flores e frutos nas roseiras silvestres e uma roseira do mato que devido à cor roxa havia sido batizada Sangria Jesu, o sangue de Cristo.
No topo do morro a máquina desacelerou e então entrou no pátio sem calçamento de uma fazenda e parou num declive gramado sob um espinheiro. Bugler, o motorista, sentado em sua cabine de vidro, acenou para Breege, a moça que, apanhada de surpresa, levantou a lata que segurava, numa saudação desajeitada. Para ela, a máquina com fumaça saindo da chaminé de metal era como um quadro do Velho Oeste. O quintal já estava movimentado, a cadela Goldie latindo, sem saber que pedaço morder primeiro, galinhas e patos se aproximando, perplexos e curiosos, e, vindo da casinha de fora, seu irmão, Joseph, a faca na mão lhe emprestando um jeito bandido.
- Estou emperrado - falou Bugler sorrindo. Ele parecia dirigir aquilo desde sempre de tão seguro parecia estar ali em cima, força e habilidade à mostra quando saltou e fez um cumprimento cortês levantando o chapéu de feltro mole. Se podia deixar ali por um ou dois dias até dominar as marchas. Apontou para o manual que estava no painel, um livreto, manuseado e com algumas páginas dobradas onde um dono anterior havia consultado com freqüência.
- Oh, não esquenta... Não esquenta - Joseph disse, cordial demais. O contraste entre os dois homens era extremo, Joseph de roupa velha como um espantalho e Bugler de camisa escarlate, protetores de couro sobre as pernas da calça e um cinto com pontas que pareciam letais. Voltara recentemente para casa, herdando uma fazenda de um tio, e dizia-se que estava cheio do dinheiro e pretendia recuperar uma boa parte de sua terra pantanosa. Como havia trabalhado numa estação de rebanho na Austrália, fora apelidado de Pastor. Um solitário, não tinha ido à casa de ninguém nem convidado ninguém à sua. O Caco Velho, o vizinho mais ardiloso de todos, que ia de casa em casa toda noite, pegando restos e espalhando as fofocas, já tinha se arrastado até lá mas não passara da varanda carcomida da frente. Ele espalhava que a casa não era mais que um acampamento e, sarcástico, se referia a ela como o Congo. Bugler era um cavalo escuro. Quando ia dançar era sempre a mais ou menos sessenta ou oitenta quilômetros de distância, mas o Caco acreditava que as mulheres se atiravam sobre ele e agora ele estava ali, em seu quintal, o sol pintando luzes vermelhas naquela barba e naquelas costeletas negras. Era a primeira vez que Breege o via de perto. Até então ele tinha sido uma figura alta passando depressa como uma aparição, tão ansioso por dominar seu entorno que raramente abria ou fechava um portão ou degrau, simplesmente saltava por cima. O irmão dela e ele haviam trocado algumas palavras sobre um estouro do rebanho. As famílias, apesar de aparentadas, mantinham hostilidades iniciadas centenas de anos antes e agora sedimentadas em ressentimento sombrio. O feito que Joseph mais gostava de contar era o de um ancestral de Bugler, um certo Henry, tentando arrancar milho de um campo que fazia fronteira com o deles e seu tio Paddy o empalando numa estrada e pondo uma arma em sua cabeça. O resultado disso foi Paddy, como qualquer réu comum, ter que emigrar para a Austrália, onde sobressaiu como boxeador, agraciado com a faixa vermelha. Outras desavenças incluíam mulheres, jovens esposas de diferentes províncias, que não se entendiam e que gritavam umas com as outras como latoeiros em guerra. Ainda assim, os dois homens eram cordiais, aquela cordialidade excessiva que tenta esconder o constrangimento. Joseph era o falante, expressando descrença e maravilhamento à medida que cada e toda particularidade do trator lhe era explicada, a alavanca, as marchas, a manivela do motor, que, como Bugler disse, podia tirar as calças de um homem ou, pior ainda, até um braço ou uma perna; e vieram assobios de espanto quando Bugler recitou seus muitos usos - arar, revolver, preparar a forragem, fazer silagem e naturalmente ir de A a B.
- É uma cangalha - Joseph disse, dando tapinhas na lateral.
- Se me perguntar, ela é ele - Bugler falou, lembrando os perigos, homens em tratores a que não estavam acostumados, tendo que ser arrancados de buracos nos brejos na calada da noite e um fazendeiro no planalto atropelando uma mulher na estrada, achando que havia passado por cima de um galho. A gente dela vindo dia após dia cobrindo o chão com ramos de sabugueiro e enchendo o ar de lamento furioso.
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"Dezembros Selvagens"
Autora: Edna O'Brien
Editora: Bertrand
Páginas: 304
Quanto: R$ 39,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha .


