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01/07/2009 - 12h04

Carlos Heitor Cony e Anna Lee repetem parceria, agora em livro juvenil; leia trecho

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da Folha Online

Repetindo a parceria do livro "O Beijo da Morte", vencedor do Prêmio Jabuti 2004 na categoria Reportagem/Biografia, os autores Carlos Heitor Cony e Anna Lee exploram o universo juvenil com a coleção "Duda, Jacaré & Cia.". A série retrata um grupo de adolescentes que vivem na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Duda é um rapaz de 15 anos, alto e forte, graças ao surfe, e faz o gênero descolado. Namora Beta, sua vizinha, é amigo de Jacaré, um repórter policial que sonha em alçar voos mais altos onde trabalha, e de Joca, que mora no subúrbio e adora fazer invenções.

Divulgação
Os escritores Carlos Heitor Cony e Anna Lee são autores da série "Duda, Jacaré & Cia."
Os escritores Carlos Heitor Cony e Anna Lee são autores da série "Duda, Jacaré & Cia."

Nesta aventura, a garota conta com a ajuda dos três amigos inseparáveis para desvendar o sequestro de um tio recém-chegado ao Rio de Janeiro com uma mala cheia de roupas velhas e deliciosas rapaduras. A obra sofreu influências declaradas de "A Mulher que Matou os Peixes", de Clarice Lispector, e de "João e Maria", dos irmãos Grimm.

Cony é colunista diário da Folha de S. Paulo e membro da Academia Brasileira de Letras, enquanto atualmente Lee faz doutorado em literatura brasileira pela PUC-RIO, tendo como linha de pesquisa a obra do cineasta Glauber Rocha. Este ano, a dupla participa da Ciranda dos Autores da Flipinha, onde vão discutir sobre o mistério e a literatura.

Leia abaixo trecho do livro "As Rapaduras São Eternas" (Galera Record, 2007) sobre o misterioso sequestro do Tio Aníbal.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

*

(...)

Reprodução
Quatro amigos tentam desvendar o misterioso sequestro do tio de Beta
Quatro amigos tentam desvendar o misterioso sequestro do tio de Beta

Beta vinha caminhando despreocupada pelo BarraShopping. Olhava as vitrines, fazendo hora para nada mesmo, pois não tinha nenhum compromisso para aquela tarde. Parou para tomar um sorvete: uma bola de morango, outra de abacaxi, na casquinha de biscoito, delicioso! - apesar de ser uma mistura que causava espanto a todos, mas que ela apreciava acima de tudo. Desde pequena, Beta gostava de inventar: pizzas com batatas fritas, feijão com mingau, e um dia chegou ao cúmulo de comer galinha com calda de chocolate.

Naquele dia, ela saíra mais cedo do colégio, o professor da última aula estava doente e a sua turma fora dispensada. Ainda bem: Beta detestava matemática. Se dependesse dela, o governo deveria proibir que se estudasse ou que se ensinasse qualquer coisa parecida com matemática. Ela não entendia como havia gente capaz de entender aqueles números, aquele x igual a y mais z. "No fundo", pensava ela, "os adultos inventaram isso para chatear os outros, para nada mais."

De repente, alguém a puxou pelo braço. Beta levou um susto tão grande que até deixou cair o sorvete. "Miserável!", pensou ela, antes de olhar para o homem que a segurou, quase numa agressão. E não o reconheceu imediatamente. Nem mesmo quando ele abriu os braços numa explosão de alegria:

- Beta! Legal! Legalíssimo! Foi Deus quem botou você no meu caminho!

A menina se encolheu, olhando a lambança que o sorvete tinha feito em sua camiseta. O que seria aquilo? O homem percebeu o embaraço que havia causado:

- Desculpe-me, sou mesmo um desastrado! Não é que a assustei? Não me reconhece mais? Sou eu mesmo, eu mesmíssimo!

Beta via o sorvete escorrer pelo chão e sentiu uma vontade estranha e impossível: juntar o que restou do sorvete e esfregá-lo na cara do sujeito. De repente, arregalou os olhos e botou a cabeça para funcionar: sim, ela conhecia aquele homem alto, de terno malfeito, gravata em frangalhos, que parecia ter chegado de longe:

- Tio Aníbal! Quanto tempo! Por onde tem andado que não mandou mais notícias? Papai sempre fala do senhor, está preocupado com seu sumiço.

O homem ficou satisfeito pelo fato de ter sido reconhecido:

- Minha querida, queridíssima sobrinha! Não houve nada, nadíssima! É que andei uns tempos em Brasília, cidade chata, chatíssima! Foi o ministério onde trabalho que me transferiu. Tirei uma licença, uma licencíssima, que vai durar muito tempo, tempíssimo. E
vim para o Rio passar uns dias com vocês, matar as saudades que são muitas, muitíssimas!

Ele praticamente gritava, e Beta logo se lembrou da velha mania que ele tinha de falar tudo em superlativos. Até verbos ele botava no superlativo. Mesmo assim, sentia-se satisfeita, pois gostava do tio, único irmão de seu pai.

- O diabo, minha filha, o diabíssimo, é que saltei aqui porque sabia que vocês moram num condomínio perto do BarraShopping, só não sabia qual. Pensei em entrar num posto telefônico e tentar descobrir o endereço pelo sobrenome, ver se achava a pista do meu caro irmão, caríssimo. Foi sorte, sortíssima, ter encontrado você!

Tio Aníbal era de falar alto, sem parar nem para tomar fôlego - um vexame! Beta olhava em volta com medo de encontrar alguém da galera do condomínio, seria um mico total!
Ele tinha seus 50 e poucos anos, era solteirão e alegre além da conta, boa-praça, gozado até mesmo no modo de caminhar, na verdade, era meio maluco - mas o pai de Beta ficava furioso quando alguém zombava dele. Beta se sentia fascinada pelo seu jeitão.

- Cheguei agora, agoríssima, de ônibus. Uma viagem terrível, terribilíssima. Estou precisando de um banho...

- Caprichado, caprichadíssimo - concluiu a menina.

- Certo, certíssimo, minha filha. Você vai para casa?

- Não ia, estava andando por aí, matando o tempo, mas não quero que fique sozinho. Vamos embora!

Agora, caminhavam juntos, de mãos dadas, felizes pelo encontro inesperado. A mala do Tio Aníbal não era das maiores, mas seguramente era das mais velhas. Beta tentava não pensar no estrago que ele tinha feito em sua camiseta nova, e procurava acompanhar os passos rápidos do tio.

- Trouxe muitos presentes para vocês, coisas lindas, lindíssimas... E uma porção de rapaduras para seu pai! Está tudo dentro da mala, malíssima. Vamos tomar um táxi para chegar mais depressa, depressíssimo!

Não adiantou Beta explicar que o condomínio em que moravam ficava bem em frente ao BarraShopping, era só atravessar pela passagem subterrânea. Tio Aníbal achou que era uma longa distância, longuíssima, para percorrer, ainda por cima carregando uma mala.
A garota preferiu não discutir e os dois se puseram a caminhar pelos corredores do shopping em busca da saída mais próxima, onde tivesse um ponto de táxi.

Com a exaltação pelo encontro, nem o tio nem a sobrinha perceberam que dois homens os seguiam. Mas, quando chegaram perto da esquina que um corredor fazia com o outro, eles se aproximaram muito e Beta não pôde deixar de notá-los. Ela olhou para trás e disse:

- Tio, acho que esses homens querem falar com você.

Tio Aníbal parou e olhou em volta:

- Quem? Quem? Eu não conheço ninguensíssimo aqui!

No mesmo instante, os dois homens cercaram o tio de Beta. Um deles segurou-lhe a mala, ou melhor, arrancou-lhe a mala das mãos.

- Que diabo, que diabíssimo é...

- Cala a boca, seu idiota! - disse em voz baixa um dos homens.

- E trate de ficar quieto, do contrário vai engolir chumbo!

A menina arregalou os olhos, muito espantada, sem compreender o que se passava. Tio Aníbal não se convencia e continuava a protestar:

- Quem são os senhores? Estou chegando de viagem, esta é minha sobrinha, estamos indo para casa, quietinhos, quietíssimos...

- Cala a boca, coroa! - voltou a falar um dos homens. - Você irá conosco até resolvermos um problema muito delicado. Não vamos fazer nada com a garota, ela não é culpada de nada, desde que vá embora depressa. Não precisamos dela, só de você. E se reagir, a coisa ficará pior.

Tio Aníbal ainda tentou falar qualquer coisa, mas um dos bandidos meteu a mão no bolso e fez o gesto que parecia segurar um revólver:

- Já disse, fique quietinho, coroa! Olha que o troço é sério!

- Seriíssimo - concordou Tio Aníbal, sentindo afinal que aqueles homens estavam decididos a matá-lo.

Beta também percebeu a gravidade da situação e pediu ao tio para se submeter. Depois, faria qualquer coisa para livrá-lo daquela enrascada. Com um dos homens agarrando Tio Aníbal pelo braço, o outro levando a mala, eles se dirigiram à saída A, que dava para o
estacionamento. Um Gol escuro, cor de vinho, encostou junto deles. Logo a porta traseira se abriu. Lá dentro havia um terceiro homem, que falou claramente:

- Vamos, Chicão, mete o cara aqui dentro. Deu tudo certo?

- Deu sim, chefe. Mais fácil até do que pensamos.

O homem que estava dentro do carro percebeu Beta e perguntou:

- E esta menina? O que ela está fazendo aqui?

- É a sobrinha do camarada. Vamos largá-la por aí.

O homem demonstrou certa contrariedade:

- Já deviam ter largado logo. Ela pode ser uma complicação.

Tio Aníbal interveio:

- Ela não vai atrapalhar em nada, nadíssima. Deixem-na em paz, por favor. Fico-lhes grato, gratíssimo.

O chefe dos bandidos olhou espantado para a cara do Tio Aníbal e comentou:

- Ainda por cima, esse camarada é um idiota!

Afinal entraram no carro, que imediatamente partiu em disparada. Sozinha, no estacionamento, Beta ficou sem saber o que fazer. Pensou até em gritar, pedir socorro à polícia. Mas isso só poderia comprometer ainda mais o pobre Tio Aníbal, já que ninguém poderia ajudá-lo naquela circunstância. O jeito foi correr para casa.

"As Rapaduras São Eternas"
Autor: Carlos Heitor Cony, Anna Lee
Editora: Galera Record
Páginas: 112
Quanto: R$ 26,00
Como comprar: pelo telefone 0800-140090 ou no site da Livraria da Folha

 

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