Poesia de Eucanaã Ferraz tem influências de artes como pintura e escultura; leia trecho de livro
da Folha Online
Eucanaã Ferraz é um arquiteto das palavras. Nascido no Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1961, o poeta se formou na Faculdade de Letras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e, mais tarde, fez mestrado sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade e doutorado sobre João Cabral de Melo Neto.
| Divulgação |
![]() |
| O escritor e poeta Eucanãa Ferraz participará da 7ª edição da Flip |
Escritor declaradamente seduzido pela pintura e pela escultura, por Matisse e por Weissmann, seu primeiro contato com a poesia aconteceu quando, ainda menino, descobriu em sua casa um exemplar sem encadernação da obra "Eu", de Augusto dos Anjos. O primeiro passo estava dado. Hoje, escultor de versos, o rigoroso Eucanaã Ferraz mostra em seus textos que não foi influenciado apenas por grandes autores da poesia. Sua produção reflete o gosto apurado pela prosa, música e também as artes plásticas.
Com a obra "Desassombro" (Sette Letras, 2002), recebeu o prêmio Alphonsus de Guimaraens da Fundação Biblioteca Nacional de Melhor Livro de Poesia. Em sua mais recente obra, "Cinemateca" (Companhia das Letras, 2008), o autor trabalha o texto como um diretor de cinema conduz uma produção cinematográfica, com cortes de filmagem e edição precisa de planos. Sua sintaxe, num tempo conduzido por vírgulas, permite ao leitor a construção de imagens mentais que se formam na medida em que a leitura do poema flui.
Em 2009, o escritor participa da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Ele fará parte da mesa Evocação de um poeta ao lado de Heitor Ferraz e Angélica Freitas, onde será discutida a obra do poeta Manoel Bandeira.
Leia abaixo o poema "Acorda", da obra "Cinemateca".
*
Acorda
Em meio ao que deve ser
ainda a noite. Seu grito,
porém, não se desfaz
no ácido escuro: cuspido
para além do corpo
à maneira de um osso,
permanece agudo, ali,
fincado entre a parede
e a cama. Pode vê-lo,
como quem vê doer a dor
fora de si mesmo. Fecha
os olhos, abre-os, fecha
o peito, respira, e o grito,
sólido, negro negror,
no mesmo lugar. A garganta
não pode trazê-lo de volta,
o sono não pode apagá-lo, o medo
vigia, o quarto carbonizado
pelo pavor é minúsculo,
é imenso. O grito assim,
matéria, parece ter peso:
não é leve, apesar de
acima do chão,
chumbo em levitação;
tem cor: a tinta da noite
em si mesma concentrada;
massa: totalmente caroço,
compacta; temperatura: é frio
como só pode o vidro,
frio que se irradia liso
e lança de si gelado o hálito
em que tudo - cômoda, quadros,
cama - afunda; o grito assim,
feito coisa, tem densidade:
a de um piano sem teclas,
só a sua glândula enfartada e dura;
tem cheiro, e pelo quarto
instantâneo se espalha: fedor
de borracha. Bicho que
depois de morto pudesse
saltar sobre a presa:
lei, sentença, decisão
sem preâmbulos e sem motivo. Mas
a mão da mulher acorda
e lhe pergunta. Um sonho,
um pesadelo, ele responde. E
volta-se para o lado. Cômoda,
quadros, cama respiram aliviados,
o dia tem pressa,
dormir é ouro.
"Cinemateca"
Autor: Eucanaã Ferraz
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 176
Quanto: R$ 36
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou no site da Livraria da Folha


