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Ilustrada
01/07/2009 - 17h18

Poesia de Eucanaã Ferraz tem influências de artes como pintura e escultura; leia trecho de livro

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da Folha Online

Eucanaã Ferraz é um arquiteto das palavras. Nascido no Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1961, o poeta se formou na Faculdade de Letras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e, mais tarde, fez mestrado sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade e doutorado sobre João Cabral de Melo Neto.

Divulgação
O escritor e poeta Eucanãa Ferraz participará da 7ª edição da Flip
O escritor e poeta Eucanãa Ferraz participará da 7ª edição da Flip

Escritor declaradamente seduzido pela pintura e pela escultura, por Matisse e por Weissmann, seu primeiro contato com a poesia aconteceu quando, ainda menino, descobriu em sua casa um exemplar sem encadernação da obra "Eu", de Augusto dos Anjos. O primeiro passo estava dado. Hoje, escultor de versos, o rigoroso Eucanaã Ferraz mostra em seus textos que não foi influenciado apenas por grandes autores da poesia. Sua produção reflete o gosto apurado pela prosa, música e também as artes plásticas.

Com a obra "Desassombro" (Sette Letras, 2002), recebeu o prêmio Alphonsus de Guimaraens da Fundação Biblioteca Nacional de Melhor Livro de Poesia. Em sua mais recente obra, "Cinemateca" (Companhia das Letras, 2008), o autor trabalha o texto como um diretor de cinema conduz uma produção cinematográfica, com cortes de filmagem e edição precisa de planos. Sua sintaxe, num tempo conduzido por vírgulas, permite ao leitor a construção de imagens mentais que se formam na medida em que a leitura do poema flui.

Em 2009, o escritor participa da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Ele fará parte da mesa Evocação de um poeta ao lado de Heitor Ferraz e Angélica Freitas, onde será discutida a obra do poeta Manoel Bandeira.

Leia abaixo o poema "Acorda", da obra "Cinemateca".

*

Acorda
Em meio ao que deve ser
ainda a noite. Seu grito,

porém, não se desfaz
no ácido escuro: cuspido

para além do corpo
à maneira de um osso,

permanece agudo, ali,
fincado entre a parede

e a cama. Pode vê-lo,
como quem vê doer a dor

fora de si mesmo. Fecha
os olhos, abre-os, fecha

o peito, respira, e o grito,
sólido, negro negror,

no mesmo lugar. A garganta
não pode trazê-lo de volta,

o sono não pode apagá-lo, o medo
vigia, o quarto carbonizado

pelo pavor é minúsculo,
é imenso. O grito assim,

matéria, parece ter peso:
não é leve, apesar de

acima do chão,
chumbo em levitação;

tem cor: a tinta da noite
em si mesma concentrada;

massa: totalmente caroço,
compacta; temperatura: é frio

como só pode o vidro,
frio que se irradia liso

e lança de si gelado o hálito
em que tudo - cômoda, quadros,

cama - afunda; o grito assim,
feito coisa, tem densidade:

a de um piano sem teclas,
só a sua glândula enfartada e dura;

tem cheiro, e pelo quarto
instantâneo se espalha: fedor

de borracha. Bicho que
depois de morto pudesse

saltar sobre a presa:
lei, sentença, decisão

sem preâmbulos e sem motivo. Mas
a mão da mulher acorda

e lhe pergunta. Um sonho,
um pesadelo, ele responde. E

volta-se para o lado. Cômoda,
quadros, cama respiram aliviados,

o dia tem pressa,
dormir é ouro.

"Cinemateca"
Autor: Eucanaã Ferraz
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 176
Quanto: R$ 36
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou no site da Livraria da Folha

 

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