Se eu sofresse 8 horas por dia para escrever, estaria perdido, diz Hatoum
TERESA CHAVES
colaboração para a Folha Online
O amazonense Milton Hatoum é considerado um dos melhores escritores brasileiros da atualidade. Uma revelação tardia no mundo da literatura, ele escreve devagar e cuidadosamente, avesso à pressa meio histérica que toma as pessoas. Mas é a qualidade de seus livros que faz com que o autor consiga lançar uma obra a cada quatro ou cinco anos e ainda viver de literatura no Brasil. Hatoum participa da 7ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), entre 1º e 5 de julho.
Um nômade por opção --viveu em Manaus, Brasília, Paris e São Paulo--, Hatoum retorna sempre à sua cidade natal na ficção. De uma maneira ou de outra a cidade retorna continuamente em seus romances, como cenário e como cultura. Desde seu romance de estreia, 'Relato de Um Certo Oriente' (Cia. das Letras, 1990), até 'Órfãos do Eldorado' (Cia. das Letras, 2008), Manaus perpassa a vida de todos os seus personagens. É apenas em seu trabalho mais recente, 'A Cidade Ilhada' (Cia. das Letras, 2009), que São Paulo aparece como cenário de um dos contos que compõem o livro.
Misturando pedaços de sua biografia aos seus relatos ficcionais, o escritor reconhece a importância fundamental de determinadas influências pessoais para sua carreira. É o caso de seu avô, o contador de histórias de sua infância, ou de sua mãe, que o apresentou aos livros. Em entrevista à Folha Online, por telefone, Hatoum fala sobre suas memórias, a vida em Manaus, livros e o processo de escrever.
| Adriana Vichi/Divulgação |
![]() |
| O escritor Milton Hatoum, autor do livro de contos "A Cidade Ilhada" |
Leia íntegra da entrevista concedida à Folha Online
Folha Online - Por que o senhor saiu de Manaus?
Milton Hatoum - Porque eu tinha 'sonhos gloriosos' (risos), estou brincando. Eu saí porque eu não aguentava, a Província era muito isolada naquela época. Manaus era muito isolada, era de fato uma cidade ilhada. Eu quis estudar fora, fazer arquitetura. Na verdade quando eu saí de Manaus em 1967, meu sonho era morar um dia em Barcelona, talvez pela arquitetura de Gaudi, porque eu via tudo isso em revistas ilustradas, ou porque Barcelona era um sonho muito antigo. O fato é que eu morei em Brasília, depois em São Paulo e depois na Espanha. Mas é difícil, Manaus é muito longe. Mas voltei para lá, morei lá 15 anos, agora estou em São Paulo há dez anos e não saio mais daqui.
Folha Online - O senhor se tornou um pouco nômade depois de ter saído de Manaus. Ter se estabelecido em São Paulo se relaciona com uma busca pela quietude?
Hatoum - Ano retrasado eu iria morar novamente nos Estados Unidos, na Califórnia, mas minha mãe adoeceu e eu tive que cancelar essa viagem. Às vezes, me dá vontade de voltar. Mas eu gosto muito do Brasil, cada vez mais, sei que tem muita gente que odeia, mas eu não. Curiosamente, apesar de todos os problemas, ainda gosto do Brasil. Me interesso pelo Brasil que é um pouco escondido, como as periferias, as cidades pequenas. Mas gosto também da França, da Argentina. Acho que foi importante ter morado fora, foi importante eu ter saído do Brasil com 27 anos e ter morado cinco anos fora, não sei se faria isso hoje.
Folha Online - Qual é a lembrança mais forte que o senhor tem de seus primeiros 15 anos em Manaus?
Hatoum - A vida noturna na cidade, minha banda, tocando em vários clubes, bailes em transatlânticos e balneários de Manaus. A primeira noite de amor eu nunca esqueço (risos). Os passeios com meu avô, as cidades flutuantes, os passeios de barco para o interior do Amazonas. Era uma infância mítica, uma juventude muito forte para mim. Detestava passar as férias em São Paulo, eu gostava muito de Manaus.
Folha Online - O que fez o senhor tomar a decisão de finalmente começar a escrever?
Hatoum - Não é uma decisão começar a escrever, é um destino. Porque você sente vontade, você só é escritor se movido pelo desejo. Você não pode se forçar a ser um escritor. Você tem que ter talento, que é também algo a ser construído. Escrevia quando era jovem, publiquei um poema com o tema contra a guerra do Vietnã, no jornal 'Correio Brasiliense', em 1969. Depois continuei a escrever, mas sem ter pressa de publicar. Só queria publicar aquilo que de fato me interessava e gostava, isso sempre ficou muito claro para mim. Nunca tive pressa para publicar livros a cada dois anos. A coisa foi surgindo naturalmente. Eu me preparei muito para escrever meu primeiro romance, escrevi, reescrevi e li muito. E foi assim.
Folha Online - Antes de se tornar escritor o senhor decidiu estudar arquitetura. Quando ficou claro o destino de escritor?
Hatoum - Fui estudar arquitetura para tentar ganhar a vida porque era inimaginável viver de literatura. Percebi que seria um arquiteto sem muita paixão. Tanto que eu fui atrás de uma carreira que tivesse alguma afinidade com a literatura e essa carreira, era a carreira de professor. Então eu passei alguns anos na Europa trabalhando um pouco como tradutor, professor, dando aula particular, fazendo um pouco de tudo, tentando às vezes. Depois voltei para Manaus, comecei a dar aula e quando eu percebi que a cidade estava me constrangendo, tomando o meu tempo que eu queria me dedicar a literatura, eu abandonei, saí e me lancei a escrita de 'Dois Irmãos', que foi o que me deu condições de viver de literatura, mas daí eu já tinha 48 anos.
Folha Online - O senhor levou muito tempo para escrever 'Dois Irmãos'. Por que?
Hatoum - Na verdade eu escrevi em três ou quatro anos, fiz outras coisas nesses dez anos. Não publiquei nada porque viajei para o exterior, fiz muitas palestras, escrevi algumas coisas que não publiquei, porque não era o momento de publicar. Agora, quando comecei a escrever 'Dois irmãos', sabia que queria publicar aquele livro no momento que eu terminasse. Acho que fez sentido, o livro foi bem recebido pelo leitor, acabou virando meu best-seller.
Folha Online - A questão da hora de terminar uma obra e de publicá-la é fundamental. Como saber qual é a hora de começar um livro, de terminá-lo e de publicá-lo?
Hatoum - Começar quando tem um livro mais ou menos pronto na minha cabeça, não sei se é uma herança do arquiteto que não fui ou que fui muito pouco, mas vejo o romance um pouco como um projeto de arquitetura. Quando você faz um projeto de uma casa ou edifício qualquer você não pensa nas partes, pensa na estrutura, na forma e depois os detalhes, organizando os espaços internos. Acho que o romance acontece da mesma maneira: ver o livro, a estrutura dele, o narrador, o assunto, tudo isso vem junto numa estrutura e quando isso está delineado é quando escrevo, podendo levar muito meses, ou alguns anos. Agora, o ponto final é depois de todo meu esforço, quando esgoto todo meu esforço físico e mental. Quando todas as possibilidades para melhorar o texto são esgotadas, aí eu termino. É pouco uma história de amor --no começo você vai com uma sede, pode passar um ano, meses, um dia ou a vida toda. Mas enquanto você tiver um desejo intenso por uma pessoa amada você não larga. Aí quando aquilo esfria, acabou. A relação com o texto é passional, não é uma relação fria, não se trata de ir com o irmão ou com a irmã para a rede, tem que mostrar que tem um fogo interior que justifica o que está escrevendo. Por isso é que damos muito valor aos personagens, porque eles têm que ter algum tipo de complexidade, pelo menos de paixão pela vida, ou por algo que faz. É assim com os personagens do 'Dois irmãos', com o Tio Ran de 'Cinzas do Norte', com a narradora de 'Relatos de um Certo Oriente'... Sempre tem algum desejo que move todos os personagens dos meus livros. Embora a história do romance seja sempre desejo que não se completa, não se realiza. Por isso que os romances geralmente são tristes, tem um final mais triste do que pacificador.
| Divulgação |
![]() |
| Livro de contos do escritor Milton Hatoum, "A Cidade Ilhada" |
Folha Online - Esse paralelo com o amor é particularmente interessante nos seus livros, pois neles quase todos os personagens acabam morrendo, sobra apenas o narrador.
Hatoum - É isso. É também um amor pela literatura, na medida que os narradores fazem a literatura. Sem eles não haveria o romance, não haveria ficção.
Folha Online - Em geral seus romances têm personagens muito solitários. Há uma relação particular do senhor com a solidão?
Hatoum - É uma parte constitutiva do romance como gênero literário. O romance foi inventado no auge da era burguesa das grandes cidades e ele expressa um dos mitos do individualismo moderno, porque no horizonte desse individualismo está a solidão. A solidão de quem escreve, a solidão do ser humano na multidão, na cidade grande, e por fim a solidão do leitor no ato da leitura. Isso faz parte do romance na sua própria história. Não é uma novidade minha, acho que todo romance trabalha um pouco com isso, essa perspectiva solitária. Basta lembrar do fim do 'Educação Sentimental', do Gustave Flaubert (1821-1880).
Folha Online - Seus personagens têm nomes muito particulares, que em geral trazem traços da personalidade desses personagens. Como é o processo de escolha desses nomes?
Hatoum - Geralmente tem uma relação com a vida deles, com o destino, com o modo de ser desses personagens. Isso aconteceu com 'Dois irmãos', o Armito Cordovil do Eldorado é também um bom exemplo, porque nessa família Cordovil eu quis unir o coração, a cordialidade do começo do nome, do prefixo, com a vilania --ele é generoso mas vil também, vil para o filho e cordato para a cidade. Geralmente há uma relação entre o nome e a vida do personagem, o modo de ser dele. É que na literatura não tem nada gratuito, não há muita coisa que não seja pensada. Embora que o leitor comum pense que quase tudo é movido pela inspiração.
Folha Online - O senhor diz que não tem pressa para escrever ou para lançar livros. Mantém hoje o mesmo ritmo de escrever desde o início de sua carreira?
Hatoum - Escrevo de uma forma muito lenta, de uma forma muito pausada, sem ânsia na verdade, porque é sempre um movimento refletido. Às vezes alguns textos saem com menos demora, depende muito do momento que está escrevendo. Às vezes há um esforço maior, mas isso não quer dizer que eu sofra enormemente. Outro dia li a declaração de um escritor português dizendo que sofre terrivelmente. Se eu sofresse oito horas por dia para escrever estaria perdido, eu seria um caco. Sinto prazer quando escrevo. Quem sofre são as mulheres e os homens que viajam todos os dias da periferia para seu trabalho, as crianças que não tem escola, os escritores não tem esse direito de reclamar tanto.
Folha Online - Como é manter esse ritmo lento em um mundo tão acelerado?
Hatoum - Só posso fazer assim. Até as crônicas que eu escrevo são lentas. Escrevo de uma forma lenta, não posso fazer de outro modo. Esse mundo está muito distante do que eu estou fazendo, eu escrevo a mão com uma caneta Bic. Quando me falam de Twitter [o sistema on-line de troca de mensagens de até 140 caracteres] eu não sei nem o que é, não consigo imaginar essas coisas, essas parafernálias eletrônica, porque a literatura não tem nada com isso. A literatura é a arte da paciência, da obstinação. Quando se fala 'eu não tenho tempo para perder', o escrito tem que ter tempo para perder com as palavras, para jogar com as palavras, lutar com as palavras. Por isso que a arte no sistema é mais um problema. Se todo mundo está voltando para as coisas imediatas, para as coisas feitas às pressas, a literatura não. Por isso que ela é um pouco escondida, ela pode olhar a história de atenção, de complexidade, porque ela lida com isso. O tempo para literatura é outro tempo.
Folha Online - O senhor acredita que há espaço para a criação literária na internet?
Hatoum - Claro que há espaço. Se você escrever um bom poema no muro, no chão, no asfalto, na internet, ou no papel de padaria, o que interessa é a qualidade do texto. O suporte é o que menos conta para a literatura. Existe ainda o livro e vai existir por muito tempo, que é um objeto muito cultuado, poderoso. Agora, a discussão do suporte é secundária, porque um péssimo poema será péssimo em qualquer lugar, até na torre Eiffel. Se você escrever um poema horroroso e projetar na torre Eiffel ele será horroroso do mesmo jeito, não tem muita saída.
Folha Online - É possível viver de literatura no Brasil?
Eu vivo daquilo que eu escrevo, das minhas crônicas, dos direitos autorais dos meus livros no Brasil e no exterior. Mas vivo modestamente, quer dizer não tenho uma vida de luxo nunca tive, então dá para viver e é isso que interessa. Viver é muito mais que sobreviver nesse país, milhões de brasileiros apenas sobrevivem e eu tenho a sorte de poder viver daquilo que eu faço e é raro, porque é difícil viver de palavras no mundo que não contempla mais, que dá pouca importância a palavra literária.
Folha Online - Como encorajar o autor iniciante?
Hatoum - Quando jovem deve ler bons livros, clássicos, deve viver, passar por uma experiência de vida, conhecer as pessoas e o mundo, um pedaço do mundo, a literatura depende disso. Depende da nossa experiência de vida e de leitura, da boa leitura e o resto é trabalho. O resto, ou seja, quase tudo é trabalho.
Folha Online - Como o senhor escolhe suas leituras?
Hatoum - Minhas leituras são sempre os mesmos clássicos, os mesmos livros que eu releio. Na minha idade eu não posso perder muito tempo. A imprensa filtra alguma coisa, eu dou uma farejada para ver se me interessa, farejo o livro, isso eu sei fazer, igual a um cão. Dou uma olhada nas páginas, num parágrafo. Se for bom, se me interessar, eu leio, se não, eu volto aos clássicos. Há sempre coisas boas surgindo, sempre tem uma outra coisa boa, bons autores. Problema que nosso passado recente tem Guimarães Rosa, Graciliano, Raduan Nassar que é um escritor vivo, um dos grandes escritores contemporâneos, Murilo Rubião tem muita gente boa no passado recente. Então acho que o grau de pretensão tem que baixar um pouco, não adianta querer. Acredito nos guerreiros, a única coisa que eu acredito, nessa batalha com as palavras, é uma guerra com as palavras, você tem que vencer, não sei se você vence, mas você tem que entrar com tudo nessa batalha, não vale enganar o leitor e não vale também querer se afirmar arrombando portas, desqualificando os colegas ou tentando desmoralizar, esse barco é furado. Então você tem que dar credibilidade, tem que acreditar no seu livro. Se ele tiver alguma consistência ele vai ser lido por algum tempo. Também não acredito e não tenho a menor pretensão de posteridade nada disso. De qualquer forma o mundo, esse 'planetinha' obsceno vai acabar mesmo cedo ou tarde. Então eu quero leitores agora, conversando com eles, dialogando com eles, até mesmo em silêncio, que é a melhor forma de dialogar na literatura.
Folha Online - E o trabalho de editar?
Hatoum - Eu tenho ótimos editores, um ou outro amigo que me dá um palpite, uma sugestão porque quando eu termino eu já estou no limite, não aguento mais aquele texto, aí os editores me dão sugestões, melhoram o texto. Isso tem acontecido comigo e eu acho legal o trabalho com os editores.
Folha Online - O sr. acha que o fato de ser professor tem alguma influência ou teve na sua escrita?
Hatoum - Não, porque eu era uma espécie de ator quando eu dava aula e quando eu estava escrevendo eu era um animal maluco. Eu era muito civilizado em sala de aula e depois eu não sabia o que era enquanto eu estava escrevendo. Nunca trouxe teoria da sala de aula para os meus livros, meus romances, esquecia a teoria na porta do meu cubículo lá aonde eu escrevia em Manaus. Eu não confundia as coisas, não, mas também não me atrapalhava o fato de dar aula não era um empecilho.
Folha Online - Esse ano na Flip, as fronteiras entre memória e ficção são temas que parecem constantes e as opiniões dos autores que vão estar presentes divergem muito. Para o sr. qual é a fronteira entre a realidade e a ficção?
Hatoum - A ficção é uma transfiguração, ela transcende a realidade, ela não é a realidade, não pode ser. A realidade é sempre, você sempre paga um dízimo ao real quando se escreve, mais ou menos, você paga alguma coisa, mas eu quando estou escrevendo não penso na realidade, não tenho nenhum vínculo quando eu escrevo com as pessoas que eu vi ontem, com noticiário dos jornais, da TV, isso está muito longe da minha ficção, é uma outra viagem, é uma outra coisa. Você está mais próximo da imaginação, que está desvinculada do prosaico e do cotidiano que está vivendo. É um mecanismo que está muito mais próximo do que está da memória. Depois a realidade é tão improvável, há tanta ficção na realidade.
Folha Online - Então qual é o papel da vida na sua ficção?
Hatoum - A vida me inspira, sem a vida como é que eu poderia escrever? Sem as pessoas que eu conheci, as pessoas que eu amei, as pessoas com as quais eu convivi, as viagens que eu fiz, as leituras. A vida é leitura também. Sem a família, sem os amigos, todo mundo está implicado de alguma forma, ninguém sabe até onde está implicado, porque há um mistério nessa passagem da vida para a imaginação. O que determina a eficácia, a qualidade é a linguagem. A linguagem é ela que constrói artificialmente essa nova realidade que é a ficção. A vida você acaba devendo muita coisa para ela, porque nós não somos abstrações. Então nós temos um lugar muito pequeno, mas temos um lugar no mundo que vivemos na nossa cidade, no nosso bairro, no nosso país e essa observação é importante. Você já imaginou a de Faulkner sem a vida dele no sul dos Estados Unidos? Ou a do Machado sem as andanças dele pelo Rio de Janeiro, das observações, os salões, o chá que ele tomava com as pessoas, as conversas, o que ele observa nas ruas, tudo isso está relacionado. A questão não é a vida como ela é, mas como ela é transfigurada pela linguagem.
Leia mais
- Erramos: Se eu sofresse 8 horas por dia para escrever, estaria perdido, diz Hatoum
- Flip começa hoje; ingressos estão à venda só em Paraty
- Leia os perfis dos autores da Flip
- Conheça a Flip - Casa de Cultura e os destaques da sua programação
Leia outras notícias de Ilustrada
- Ana Hickmann é a nova apresentadora do 'Tudo É Possível'
- Repórter é atropelado em frente à casa da família de Michael Jackson
- Flipinha começa nesta quarta-feira; veja programação
Especial



