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Ilustrada
02/07/2009 - 15h26

Sérgio Rodrigues junta jornalismo e literatura para escrever livros

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TERESA CHAVES
colaboração para a Folha Online

Sérgio Rodrigues decidiu ser jornalista para ter uma profissão que o aproximasse da literatura. Decidido a escrever desde criança, levou as duas profissões de forma paralela e se estabeleceu como crítico literário não oficial, publicando suas opiniões em sites. Mas levou anos para juntar jornalismo e literatura em uma obra só.

Sérgio Rodrigues

O resultado foi o romance "Elza, a Garota", uma obra que partiu de uma encomenda da editora Nova Fronteira e se transformou nas mãos de Rodrigues. Para contar a história tão obscura da menina de 16 anos que foi assassinada a mando de Luis Carlos Prestes, na década de 1930, ele mesclou pesquisas históricas e documentos reais a personagens fictícios que teriam convivido com Elvira Cupelo, de codinome Elza.

A história o absorveu tanto que ele largou uma obra em andamento para se dedicar apenas à encomenda. Mas o que deveria ser um livro-reportagem se transformou em um romance, no qual a história de alterna à ficção de modo a confundir o leitor e fazê-lo perceber que as fronteiras são de fato muito tênues.

Em entrevista à Folha Online, Rodrigues --que participa de mesa na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), nesta quinta-feira-- falou sobre o processo de pesquisa para o livro, sobre os silêncios e esquecimentos da história e sobre as relações entre literatura e internet.

Leia a íntegra da entrevista concedida à Folha Online

Folha Online - O que levou o senhor a começar a escrever?

Sérgio Rodrigues - Eu não sei dizer o que me levou a escrever. Porque eu decidi virar escritor muito cedo, era um projeto infantil, uma coisa meio provavelmente irresponsável, ingênua, até. Eu lia muito, sempre gostei muito de ler e queria imitar aquelas pessoas, eu queria escrever aquelas histórias, ser como elas. Isso foi amadurecendo devagar, até que aos 14 anos eu comecei a escrever de uma maneira mais séria, já com uma ideia de virar escritor. Escrevi muito, a vida inteira, acabei indo parar no jornalismo por causa disso porque é uma profissão mais ou menos aparentada da literatura, embora seja muito diferente também. Mas era uma forma de escrever e fazer disso uma profissão. Acabei demorando nesse processo todo do jornalismo, que foi meio que um desvio, um desvio absorvente, porque o jornalismo é muito apaixonante, eu acabei demorando muito mais que eu planejava lançar o meu primeiro livro de ficção, uma coisa que eu só fui fazer com meus 37 anos de idade, no ano 2000.

Folha Online - Sua experiência como jornalista ajuda a escrever ficção?

Sérgio Rodrigues - A experiência como jornalista ajuda e atrapalha, depende muito de como você lida com isso. Eu não concordo com pessoas que dizem que o jornalismo pode acabar embotando a criatividade de um escritor. O jornalismo me deu muita coisa, não só em termos de acesso e conhecimento do mundo, acesso de lugares que poucas pessoas poderiam ter acesso, tanto de ambientes de miséria, ambientes de extremo luxo. Às vezes no mesmo dia você estava em dois lugares dos extremos do arco social. O jornalismo pode contribuir muito para construir uma visão de mundo, sem falar que você está sendo obrigado a escrever diariamente com prazo, com tamanhos fixos, você tem um exercício que pode ser muito bacana, se você gosta de escrever. Agora por outro lado, você tem que ter muito cuidado, porque a voz de um escritor, não é a voz de um jornalista, o registro é outro. Eu já vi muitos colegas jornalistas naufragarem ao tentar fazer essa transição. Sentar para escrever um romance, ou um conto achando que a linguagem é que vai trazer pronta da redação é um caminho certo para o fracasso. Você precisa encontrar uma outra voz, uma voz de escritor. Uma vez que você encontra, acho que aí sim você tem como se beneficiar da experiência de jornalista, sim.

Folha Online - O senhor diz que seu livro é uma homenagem à história. Como vê essa ideia de misturar ficção, história e memória na literatura?

Sérgio Rodrigues - É uma homenagem à historia, uma homenagem ao jornalismo, é meu primeiro livro em que eu tento fazer uma fusão entre essas coisas, talvez porque a necessidade de encontrar uma voz própria diferente da voz do jornalista me fez ficar por muitos anos com o pé atrás. E acho que agora eu tenha atingido um nível de maturidade suficiente para encarar isso de frente. Então tanto a fusão dessas linguagens, não só do jornalismo como do ensaio histórico, porque eu não sou historiador, mas um jornalista é um bom contador de historias e é um cara que pesquisa de uma certa forma ele faz uma fronteira entre o trabalho do historiador. Eu pesquisei muitos livros de historia, entrevistei historiadores para compor o "Elza'. O que o livro tem de mais próprio e original é justamente se colocar num certo limite do discurso da história, tentar relativizar um pouco a ideia de que a historia seja a expressão da verdade pura e simples ou que o jornalismo seja a expressão da realidade e que a literatura seja a expressão da mentira e do falso e do fictício. O embaralhamento que isso acaba sofrendo, que está no coração desse livro, do Elza.

Folha Online - O que tocou o senhor na história de "Elza" que lhe fez largar um livro que era uma ideia sua para escrever outro, por encomenda? Em algum momento o senhor questionou os motivos dessa encomenda? Por que a editora decidiu falar nessa história agora?

Ele não é uma reportagem. Quando a editora me encomendou esse livro, esse livro nasceu de uma encomenda da Nova Fronteira, era uma encomenda de uma reportagem. Não era de um romance. Via-se ali uma oportunidade de mercado, de contar uma historia apaixonante, de uma história pouco conhecida da história do Brasil e um episódio muito dramático com elementos que poderiam fazer desse livro uma coisa interessante para os leitores. Uma lógica puramente editorial. Eu topei fazer a reportagem, embora eu tivesse mais interesse desde o início que meu próximo livro fosse um livro de ficção, a encomenda me interessou. O que ocorreu foi que logo no inicio da pesquisa, logo eu percebi que o material que tinha sobre essa menina era muito escasso. Muita coisa, muita pasta vazia em arquivo, ela viveu muito pouco também. O material sobre a personagem principal era frágil para sustentar uma reportagem e é claro que poderia ser feito esse livro em forma de reportagem, o livro que seria 80% de época, de era Vargas, o que significaria chover no molhado, porque tudo isso já foi muito falado, e só 20% citando o personagem principal e eu comecei a ver também que daria para construir um discurso muito mais interessante se eu começasse a apelar para a ficção. Se for para enquadrar o livro em um gênero eu acho que ele é um romance mesmo, que usa e incorpora discursos tanto da pesquisa jornalística quanto do ensaio histórico, mas todos eles são postos a serviço do romance. É uma tendência na verdade internacional a de borrar as fronteiras entre esses discursos, por exemplo, o romance de W.G. Sebald (1944-2001), que são os romances mais originais feitos nos últimos anos, são na verdade ensaios históricos sem deixar de ser romances. Isso foi uma coisa que me deu a coragem de encarar a coisa dessa forma. Essa relação entre ficção e história tem me interessado muito, eu acho que a ficção tem muito a ganhar com esses diálogos, trabalhando nessas fronteiras, agora meu interesse principal em fazer o livro era fazer um romance, não era fazer um livro de história, não era fazer uma reportagem.

Folha Online - O senhor foi muito criticado por fazer um livro por encomenda, por conta da inspiração?

Rodrigues - Existe essa visão equivocada. Eu sou a favor do profissionalismo. Eu tinha um certo receio de como seria encarar um romance de encomenda. Mas, o receio não era por achar que eu estava traindo o escritor mais intimo que há em mim, ou qualquer uma dessas balelas, aquelas que são lendas mesmo, são visões equivocadas. O meu receio era não dar conta mesmo, porque ao escrever ficção é muito complicado você estabelecer prazos e metas muito rígidas, é possível fazer isso no texto jornalístico por varias razões. Mas a ficção tem alguma coisa de imponderável que torna isso difícil. Não recebi muita critica, acho que muita gente já tenha percebido que o caminho da literatura é um caminha que talvez ter um profissionalismo mais forte. Essa é a saída mesmo, e se inclui a encomenda. Não estou dizendo que um escritor só pode escrever sob encomenda, mas não acho também que o escrito só possa escrever por inspiração divina, são mundos que você tem que aprender a frequentar.

Folha Online - Por que o senhor optou por introduzir cada capítulo do livro com trecho de documentos e reportagens? Foi uma tentativa de lembrar sempre ao leitor que havia verdade naquela história, ou uma tentativa de confundi-lo nos caminhos entre ficção, história e memória? E por que a necessidade de separar o que havia de ficção e o que havia de documentos no livro?

Rodrigues - Eu precisava ter uma voz que fosse mais preparada para falar dos documentos, para que essas informações fossem assimiladas não como uma verdade, mas como fruto de uma pesquisa rigorosa. Precisava ter uma voz que fosse completamente livre para inventar, para criar personagens fictícios. Ao mesmo tempo em que tem uma personagem na parte ficcional que é escritor e está escrevendo sobre aquilo, isso acaba criando a impressão de que a parte introdutória, que é a em itálico, que é a parte da pesquisa, está sendo escrita pelo personagem e não por mim. Muitos leitores acharam isso, que aquilo estava sendo escrito pela personagem-escritor que é o Molina. Essa confusão me interessa, porque isso dava uma coesão maior ao livro. A conversa que uma parte faz com a outra vai um pouco alem do que está dito no texto. Acho que uma acaba questionando a outra de formas variadas e algumas delas de forma mais explícita e outras mais sutis. Agora no final dessa possível confusão criada na cabeça do leitor, eu senti necessidade de publicar uma nota que eu explico a parte documental. que foi escrita por mim mesmo. Isso vem só no final porque eu acho que vir antes estragaria a brincadeira, mas não vir nunca seria uma forma de quase má-fé. Uma vez que ali tem entrevistas reais, pessoas reais que eu entrevistei, que são citadas com seus nomes próprios. Senti a necessidade de assumir isso no final, dizendo que aquilo ali quem fez fui eu e quando eu uso a primeira pessoa naqueles trechos estou me referindo a mim mesmo e assumi a responsabilidade, inclusive por aquelas informações.

Folha Online - O senhor tocou em um assunte que é bastante cercado de silêncio. Foi difícil tentar desvendar essa memória histórica do Brasil?

Rodrigues - O assunto cercado por silêncio me atraiu muito como escritor, talvez tenha sido o primeiro grande atrativo que eu vi nessa historia toda. O livro de certa forma é a busca de um personagem. A busca de informações sobre uma personagem que nunca aparece por inteiro, ele aparece sempre fragmentado em retalhos porque acho que não teria outra forma de fazer isso. O silencio está mesmo no coração do livro. Ele é um grande discurso, construído em torno de um núcleo muito duro de silêncio. Pelo menos até aonde eu avancei nas pesquisas, eu acho que esse silêncio foi muito bem construído com a maioria das personagens que tem ali, já mortos. Vai ficar muito difícil ir além, imagino. Agora, foi difícil, claro, na medida em que isso era uma limitação quase concreta, material para as pesquisas. Mas também foi um grande "barato", não só o que motivou o livro, como o que torna o livro importante.

Folha Online - Como o seu livro discute jornalismo, o atual e o dos anos 1930?

O jornalismo dos anos 30 era muito diferente, era feito de uma forma muito "amadorística", muito preso à cultura bacharelesca brasileira. O profissionalismo da imprensa, que vem bem depois, começaria nos anos 50, pós-Segunda Guerra, e aí os jornais se tornam cada vez mais profissionais, a profissão propriamente dita se constitui com a importação das técnicas de noticias americanas para o lide, isso tudo mudou a cara do jornalismo brasileiro, é claro que continua, continuou e continuará havendo por algum tempo esse problema de algumas relações promíscuas entre o Estado e a imprensa. Agora, o fazer jornalístico em si, ele mudou tanto que eu não vejo mais como traçar uma linha entre um e outro, sabe. Acho muito engraçado ler a imprensa daquela época e o livro tem muitos trechos de comédia, às custas da cobertura que aquele caso teve.

Folha Online - O senhor acha que a academia hoje está preparada para abrir espaço para a ficção? Pertence a ela, ou deveria pertencer, o papel de definir o que é ou não é boa literatura? Afinal, o senhor mesmo diz que alguém que quer ser escritor não precisa necessariamente fazer faculdade, quanto mais de Letras...

Rodrigues - A universidade deveria ter um papel importante, não em definir, mas em ajudar o país a pensar o que é literatura. Olhando da distancia que me mantenho [da academia] não acho que o ambiente esteja muito arejado para esse tipo de situação, de romances apresentados como tese, a não ser em casos específicos, até conheço casos em que isso aconteceu, não de uma forma sistemática. Mas de qualquer maneira a universidade está muito distante da conversa contemporânea da literatura, do que esta acontecendo, talvez por uma questão constitutiva, por uma questão mais naturalmente conservadora, fala-se muito do que está atestado pela tradição e se arrisca muito pouco. A graça da conversa sobre a literatura é arriscar, isso acaba contaminando inclusive a imprensa, inclusive eu vejo muito pouca aposta. Eu não vejo a menor graça em falar de literatura sem fazer aposta. "Olha esse livro aqui saiu por uma editorazinha que ninguém conhece, mas eu li, e é genial", você não vê ninguém falando isso. Talvez por falta de discernimento, de bagagem, ou talvez por falta de livros geniais vindos de editorazinhas, o que é uma possibilidade também, mas de qualquer maneira acho que o debate é muito morno, é feito com muito freio de mão puxado. A universidade faz fronteira com os cadernos universitários, muitos professores escrevem lá, ela tem também uma contribuição nesse ambiente, que considero pouco vibrante. Muito menos vibrante do que anda a literatura brasileira, que eu não vou dizer que vive uma grande efervescência, mas que vive um grande momento em termos quantitativo, e isso você não vê acontecer na imprensa literária ou na academia.

Folha Online - O senhor diz em seu blog que escreve para continuar, porque a história ainda não acabou. De que forma a história te traz esperança?

Rodrigues - A internet ocupa espaço não só nisso, mas em tudo. Se deixarem, ela [a Internet] --que é um meio tão maleável, barato e flexível--, pode ocupar todos os lugares do universo. Também não gostaria de dizer que a internet vai salvar esse debate sobre literatura. Com certeza tem muito debate rolando, gente conversando, se encontrando e formando turmas e grupos com afinidades e desavenças e tal. Tem um quebra pau muito mais excitante rolando hoje on-line do que nas paginas, no papel propriamente dito, o que provavelmente é inevitável, pelo próprio meio. Por um lado eu sou um pouco mais conservador, acho que vozes com um pouco mais de autoridade, ainda fazem falta, a internet é extremamente democrática, e isso é muito bom, mas eu não acho que ela seja muito propícia para a formação de vozes com uma bagagem cultural forte e com uma audiência grande o suficiente para se tornarem guias nesse cenário confuso, caótico, que é a literatura hoje. Eu gostaria de ver os blogs cada vez ocupando mais lugares no espaço, mas eu gostaria de ver uma reação da imprensa tradicional, sabe. Mais investimento, mais qualidade, mais preocupação com fazer um produto vibrante e tal. Porque o que está acontecendo é que o leitor comum, ele está se desinteressando profundamente, ele está bocejando diante da literatura ou pelo menos das conversas sobre literatura. Ele vai lá e compra o "Caçador de Pipa", mas isso não é um ato exatamente literário, isso é um ato comercial.

Folha Online - A epígrafe de "Elza", um trecho do livro "Reparação", de Ian McEwan, fala sobre mudar o passado. O romance é uma tentativa de reescrever o passado?

Rodrigues - Não acredito tanto assim no poder da literatura. Acho que a gente não transforma nada na verdade. Transforma as coisas em palavras e elas têm um peso, incorporam ideias, e elas circulam. Mas não sou tão otimista assim, não saberia saber o porquê escrever, acho que meu objetivo maior ao escrever um livro é que seja algo bom de ler, o que depois isso vai produzir na cabeça de cada um é o que realmente está muito fora de imaginar.

Folha Online - O senhor tem uma máquina de escrever na sala de sua casa. Memória, história ou ficção?

Rodrigues - Tenho três maquinas de escrever na sala da minha casa, uma espécie de museu. É mais memória mesmo. A atração principal é "lexi", uma máquina que eu usava no "Jornal do Brasil" nos anos 80, quando eu comecei a trabalhar e quando o jornal trocou os equipamentos para computadores na redação e colocaram à venda [as máquinas de escrever] para os funcionários a preços simbólicos. Eu trabalhei muito com máquina de escrever, eu sou velho bastante, tenho 47 anos, que não é tão velho assim, mas é o bastante para ter trabalhado com maquina de escrever e eu gostava muito, gostei muito do objeto, agora, hoje, eles cumprem uma função meramente decorativa aqui, nem se me pagassem eu trabalharia em uma.

 

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