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Ilustrada
03/07/2009 - 11h09

Bia Hetzel retrata sua vida e amor pelo mar em livro; leia trecho

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da Folha Online

Em "Mati e Rita: A Orca e a Caiçara" (Manati, 1998), a autora de livros infanto-juvenis Bia Hetzel conta a história de uma menina caiçara que vivia perto das matis (baleias orcas) da Baía da Ilha Grande. Certo dia, a garota tornou-se amiga de um dos mamíferos. Além de falar de ecologia, a obra trata do desaparecimento de uma cultura tradicional brasileira que, ao longo dos séculos, aprendeu a viver em harmonia com a natureza.

Com ilustrações de fotografias da autora e desenhos coloridos de Graça Lima, a narrativa "Mati e Rita: A Orca e a Caiçara" conduz o leitor à reflexão sobre o tipo de progresso almejado na nação. O livro também traz informações sobre as orcas, a ocupação da Baía da Ilha Grande e seus principais ecossistemas.

Bia Hetzel é escritora, fotógrafa, editora, ambientalista e pesquisadora. Nascida no Rio de Janeiro, passou grande parte dos últimos 20 anos navegando pelas baías de Paraty e da Ilha Grande para pesquisar as espécies de golfinhos e baleias da região. Ela sempre voltava do mar com boas histórias para contar e descobertas da vida marinha.

Veja abaixo trecho do livro ou clique aqui para ver o livro em PDF.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

*

Divulgação
A amizade entre uma menina que vivia no mar e ma baleia orca
A amizade entre uma menina que vivia no mar e uma baleia orca

Serena estava esperando por Rita no mesmo lugar de sempre, protegida pelo rancho. Lentamente, a maré ia chegando até a canoa. A noite dava forças ao oceano e a água salgada vinha abraçar seu corpo roliço, feito de um único tronco de árvore.

Ao mesmo tempo, o movimento da casa ia despertando Rita. A lenha estalando no fogão, palavras soltas voando entre as paredes de terra batida. A menina, que detestava acordar de repente, ainda se virava na cama, afundando o rosto no travesseiro. Mas a vida ia avançando sobre ela, assim como o mar fazia sobre a canoa.

Pelos ruídos da palha, mesmo com os olhos fechados Rita adivinhava os dedos do pai e do irmão mexendo nos cestos, procurando os anzóis. Nas noites de verão, a baía ficava coberta de lulas. Para os pescadores da Praia da Cajaíba, como a família de Rita, aquelas eram noites de trabalho.

- Acorde, filha. Aproveite para tomar um pouco de café antes de sair.
...

A menina ia esticando seu silêncio, se encolhendo dentro do cobertor, fingindo não ouvir a mãe.

- Já que ela está com tanto sono, acho melhor não ir à pesca da lula, mãe. Não é boa idéia deixar uma menina andar de canoa por aí, à noite. Olhe, vou aproveitar que ela está dormindo para levar a Serena, que dá uma sorte danada na pesca...

- Ninguém encosta na minha canoa! - O grito escapou de dentro do cobertor.

- Ah, você acordou? Então venha escolher os seus anzóis, para a gente sair logo para a pesca, filha.

Mal-humorada, Rita não deu uma palavra, apenas escorregou como lagartixa para fora da cama. Andando na ponta dos pés, para não sentir o frio do chão de pedras, foi para a frente do espelho e esfregou os olhos pequeninos até o verde despertar. Depois, pegou uma fita e amarrou os cachos louros em um farto rabo-de-cavalo.

Deu mais uns passos de bailarina, sentou-se à mesa da cozinha, sorveu em silêncio a xícara de café e, finalmente, abriu um sorriso.

Num único rodopio, beijou a mãe, agarrou os anzóis prateados oferecidos pelo pai e correu para a praia.

-Vamos para o mar, Serena! Nós duas vamos pegar mais lulas do que eles, não é? O Tiago é um bobo, pensa que você dá sorte! Enquanto ele pensa em sorte, a gente pensa no mar!

Para puxar a canoa até a água, Rita tinha que colocar toda a sua força na ponta das mãos e dos pés. Depois, no primeiro embalo da maré, pulava dentro dela, agarrava o remo e deslizava para o oceano.

- Espere por nós, filha!

- Ela já está no mar, pai. É melhor a gente correr, senão essa doidinha vai sumir por aí.

- Estou bem aqui, seu bobo! - A voz aguda e o som da batida do remo na água atravessaram a noite, mostrando que a menina não tinha-se afastado.

Enquanto esperava pelo pai e o irmão, com as mãos dentro da água, acariciando o casco de sua canoa, Rita sentiu pela primeira vez a felicidade de navegar à noite.

De repente - Tum! - o toque suave do remo do pai no casco de Serena e o brilho distante e fosforescente das lulas se movendo na superfície da água deram início à noite de pescaria.

Remando rapidamente, os três alcançaram o cardume de lulas. Depois, cada um acendeu sua lanterna e colocou-a dentro da água. Era o truque dos pescadores para atrair as lulas!

Começaram a pescar.

Rita estava maravilhada, as luzes e a transparência da água enchiam de festa os seus olhos, enquanto as mãos, alegres e ágeis, traziam muitas lulas para dentro da canoa.

O cardume movia-se depressa, em pulsos fosforescentes. As canoas iam atrás.

- As lulas estão fugindo de alguma coisa... Deve ser as toninhas que estão vindo pescar! - alertou o pai.

- Hoje não vi toninhas por aí. Elas têm ficado mais lá para fora da baía, por causa das sardinhas. As lulas estão fugindo de outra coisa...

- Que menina metida! Desde quando você entende mais de mar do que o nosso pai, Rita?

- Sua irmã é amiga das toninhas, Tiago. Ela deve estar certa. Mas, então, o que vocês acham que está assustando as lulas?

- POUFFFFF!!!!

- POUFFFFF!!!!

Os estouros dos borrifos responderam à pergunta do pai.

-Vocês ouviram isso? Tem uma baleia por aí... - sussurrou Tiago, assustado.

- Uma baleia não, duas! Foram dois borrifos... - emendou o pai, tentando enxergar sinais dos gigantes dentro da escuridão.

- Não são borrifos de baleia, não. O som delas é mais alto - comentou Rita, tranqüila, sem parar de pescar.

- Lá vem a Dona Sabichona! Se isso aí não é baleia, eu sou uma bicicleta! E todo mundo sabe que baleia vira bote! É melhor a gente tomar cuidado!

- Não é baleia, e baleia não vira bote! Que menino bobo!

- Chega de discussão! Seja lá o que for, espantou as lulas. Vamos voltar para casa.

Os meninos obedeceram à ordem do pai e desligaram as lanternas.

Rita estava triste por terminar tão cedo a sua primeira noite de pesca. Mas a verdade é que também tinha ficado curiosa com os borrifos. Por isso, foi arrumando bem devagar os apetrechos e as lulas dentro da canoa. Enquanto o pai e o irmão já iam-se afastando, seus olhos acompanhavam cada movimento diferente no mar.

- Poufff!

Desta vez, o som foi mais baixo. O estranho é que parecia bem mais próximo! Rita olhou em volta, procurando pelo pai e o irmão. Eles continuavam indo em direção à praia, não deviam ter ouvido nada.

Só então ela reparou numa pequena mancha, branca e redonda, boiando ao lado de Serena. "Mais uma porcaria de plástico solta no mar!", pensou. Remando bem de leve, deslizou para cima da mancha e esticou a mão para pegá-la. Mas, em vez de encontrar um plástico amassado, sua mão encostou numa coisa macia e...

-Viva! Essa coisa está viva!

O toque da mão de Rita deu movimento à "coisa". A mancha escorregou suave pelos seus dedos, como um ovo cozido, e a "coisa" mostrou-se muito maior do que a menina tinha imaginado. Ela era preta! Preta e branca!

Antes de afundar e sumir no mar, a "coisa" deu um novo borrifo bem no rosto da menina.

"Mati e Rita: A Orca e a Caiçara"
Autora: Bia Hetzel
Editora: Manati
Páginas: 42
Quanto: R$ 35,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha.

 

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