Mesas sobre China e ciência x Deus marcam 1º dia da Flip
TERESA CHAVES
Colaborção para a Folha Online
Vários nomes nacionais e internacionais participaram nesta quinta-feira do primeiro dia dos debates na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), mas o grande destaque do dia ficou mesmo para a dupla de chineses Xinran e Ma Jian (prejudicados pelo mau serviço de tradução da Flip) e o biólogo britânico Richard Dawkins.
A conversa dos escritores Rodrigo Lacerda e Domingos de Oliveira na mesa "Separações" foi acompanhada por um público com maioria feminina. Ao ler um trecho do texto autoral de abertura, Domingos se aproximou da plateia, andou pelo palco, e interpretou todas as falas, despertando muitos sorrisos entre os ouvintes. Mesmo com a dificuldade para falar, respondeu perguntas sem largar do cigarro (único a fumar dentro da tenda até agora --onde é proibido fumar) e falou sobre a inexistência da banalidade no mundo, seus amores, os motivos que a arte proporciona para continuar vivendo e a vontade de escrever um livro de autoajuda.
Na primeira mesa da tarde, Tatiana Salem Levy, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues conversaram sobre as 'verdades inventadas' com a mediadora Beatriz Resende, que mostrou conhecer os autores, talvez um pouco demais: as apresentações que fez de cada um levaram cerca de 25 minutos ao todo, enquanto cada pergunta se estendia por três ou quatro. O público acabou ouvindo os autores menos do que gostaria. Apesar disso, a conversa rendeu.
Levy escolheu Bloch para fazer a leitura de seu texto com ela, um diálogo entre mãe e filha. 'Eu sempre quis ter uma mãe como o Arnaldo', disse ela, arrancando risos da plateia. Foi a leitura mais aplaudida. Os três comentaram a relação de suas obras com a vida real; Sérgio Rodrigues teve que lembrar o tempo todo que seu livro, 'Elza, a Garota', não tinha nenhuma relação pessoal com a vida dele ('Não sou parente de Elza'), ao contrário de 'Os Irmãos Karamabloch', de Bloch, que fala sobre a família do escritor, e 'A Chave de Casa', de Tatiana Levy, que traz um pouco de sua vida.
Mas os três puderam chegar a conclusões e paralelos interessantes: a realidade não existe, como colocou Rodrigues, e isso vale para a obra dos três. Um dos pontos mais interessantes talvez tenha sido a fala de Levy sobre a questão da verdade. Disse ela que, como escritora, procura a verdade --mas não a verdade dos fatos, e sim a verdade da literatura. Mais solta no fim da mesa, ela contou um sonho que teve na noite anterior. Na plateia, alguém lhe perguntava se seu livro era autobiográfico, o que ela negava com veemência. 'Pior para você, seria muito melhor se você tivesse vivido', foi a resposta do ouvinte imaginário.
Em seguida, foi a vez de a China ser representada pela primeira vez na Flip por Xinran e Ma Jian, cuja participação fez a tenda dos autores ficar lotada. Na plateia, muitos escritores que, apesar dos problemas com a tradução simultânea, elogiaram muito a fala dos dois. Foi o caso do escritor norte-americano Gay Talese, que também estava presente na mesa anterior. 'Foi provavelmente difícil para o público entender a história e o significado da Praça da Paz', disse ele, se referindo ao assunto do livro de Ma Jian. 'Foi muita coragem deles falar para um público que provavelmente não entende nada de cultura chinesa, apenas o que sai na imprensa, como disse Xinran, só política e economia. Mas com certeza foi 1h30 muito valiosa', afirmou o escritor.
A irlandesa Anne Enright, leitora dos livros de Xinran, disse ter ficado bastante satisfeita, apesar da 'mistura 'atordoante' de línguas', como definiu. 'Os dois são brilhantes. Ela sabe se colocar de maneira extremamente inteligente entre as duas culturas.'
Apesar das constantes falhas de tradução, que obrigaram Xinran a servir como tradutora para Ma Jian [que não fala inglês], o debate sobre a cultura chinesa e sua presença no Ocidente não deixou de entreter o público. Ma Jian falou de seus filhos e do fato de que só fala chinês em casa. També contou que, apesar de não se sentir pessoalmente culpado por não ter estado presente no massacre da praça da Paz, em Pequim, enquanto colegas seus morreram no confronto. Ele disse sentir uma uma culpa histórica, pública, cujo resultado transformou em livro.
Já Xinran falou sobre as dificuldades da relação com o Ocidente, salientando o fato de que morar na Inglaterra fez com que ela se aprofundasse na cultura de seu país. Também explicou como conseguia fazer falar os chineses que entrevistou para seu último livro, 'Testemunhas da China', que são reconhecidamente retraídos quando têm de expor opiniões pessoais. Ela disse que pinta apenas uma unha das mãos de vermelho, o que sempre provoca perguntas, especialmente das mulheres, e é uma forma de iniciar uma conversa. 'Mas só três homens me perguntaram a respeito até hoje', disse.
O dia foi encerrado com a conversa entre Richard Dawkins e Sillo Boccanera. Este foi conciso na apresentação e muito claro em suas perguntas, deixando o biólogo à vontade para discorrer sobre Deus, religião e genética. Dawkins reafirmou a necessidade de deixar que as crianças escolham sua religião -- ou o ateísmo -- por si mesmas, afirmando que não insiste para que sua filha seja ateia. 'Eu apenas peço a ela que pense por si mesma.'. E completou, dizendo que há três péssimos motivos para se acreditar em alguma coisa: tradição, revelação e autoridade. E há apenas um bom motivo para se acreditar, a evidência.
Dawkins também falou sobre Darwin e a importância da obra 'A Origem das Espécies', que completa 150 anos neste ano. Reiterou que Darwin fez de tudo para ser compreendido, escrevendo um livro que seria apenas um resumo da obra que pretendera escrever. Sendo assim, não há razão para que alguém deixe de se informar sobre a melhor explicação da origem do universo, diz Dawkins. Ele terminou sua fala respondendo a uma pergunta: o que faria caso morresse e se encontrasse com Deus? Ele deu duas respostas. Perguntaria 'Que Deus é você?', entre risos, para completar com a frase de Bernard Shaw que cita com frequência. 'Não há evidências suficientes, Deus, não há evidências suficientes'.
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