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Ilustrada
05/07/2009 - 11h48

Especialista em Gilberto Freyre fala sobre amizade com Manuel Bandeira na Flip; leia trecho de livro

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da Folha Online

Neste domingo (5), às 16h15, o professor Edson Nery da Fonseca participa da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), na mesa "Antologia pessoal" ao lado de Zuenir Ventura. Amigo e correspondente de Manuel Bandeira, Nery relembra momentos de convivência com o poeta no Rio e em Pernambuco.

Especialista a obra do sociólogo Gilberto Freyre, de quem também foi amigo e compadre, Edson Nery da Fonseca é considerado por muitos como o maior "gilbertólogo" e tornou-se reconhecido por seu olhar crítico e direto que transporta para seus trabalhos.

Em razão do centenário de Gilberto Freyre em 2000, Nery da Fonseca escreveu "Gilberto Freyre de A a Z". O autor também reuniu ensaios, textos, conferências e fotos de sociólogo no livro "Em Torno de Gilberto Freyre" (Massangana, 2007). Neste, o escritor procura observar não apenas a obra, mas também o sociólogo que "amava os paradoxos porque era, ele mesmo, um ser Paradoxal", como diz Fonseca na introdução de seu livro.

Leia abaixo um trecho do livro "Em Torno de Gilberto Freyre".

*

Ensaios

A obra extensa e multidisciplinar de Gilberto Freyre não pode ser apreciada num só ensaio, sob pena de pecar tal apreciação pela superficialidade. Por isso preferimos abordar em profundidade alguns aspectos, em vez de apreciar todos a vol d'oiseau.

O título escolhido é tipicamente freyriano, tendo ele utilizado a locução ao intitular vários de seus textos, juntamente com "a propósito" e as palavras "introdução" e "sugestões". Utilizando até "sugestões em torno".

Estas palavras e locuções revelam a prudência e a humildade com que abordava seus temas, pois sempre considerou a verdadeira ciência humilde, "ficando a ênfase para a meia-ciência". Um das contradições de Gilberto Freyre é que era pessoalmente vaidoso, mas tinha a chamada
"humildade diante dos fatos".

Gilberto Freyre foi historiador social, sociólogo, antropólogo, psicólogo, biógrafo, ensaísta, ficcionista, cronista, poeta e pintor. Neste ensaio contemplamos somente o ensaísta e o poeta, mostrando a presença da poesia em seus ensaios. Uma presença tão forte que levou alguns poetas ilustres a transformar em versos várias frases freyrianas. A nosso ver, um equívoco, porque o ensaísmo freyriano dispensa tal recurso para transmitir a força poética de seu ritmo e de suas imagens.

É verdade que Manuel Bandeira utilizou o verbo desentranhar, para definir poemas retirados de um artigo de Fidelino de Figueiredo e até de um poema de Augusto Frederico Schmidt. Mas o processo bandeiriano é diferente, apresentando-se com a paráfrase e as variações de um autor em torno de temas alheios.

De modo que ao falar de Gilberto Freyre poeta levamos em consideração principalmente sua prosa poética. Do livro Talvez poesia aproveitamos somente os poemas escritos como tais, sendo o exemplo mais expressivo o inspirado pela Bahia, do qual fornecemos, em apêndice, as três versões conhecidas: a última muito mais conhecida que as duas primeiras. Com raras exceções, os demais poemas daquele volume são inexpressivos: paradoxalmente, ficaram apoéticos depois de reduzidos a versos. Mas, não nos antecipemos deste aspecto, considerado no capítulo 1.2 do presente ensaio.

Na obra ensaística de Gilberto Freyre foram escolhidos os livros e opúsculos originais: os escritos de acordo com um plano e nunca antes publicados. Não se enquadram nesta classificação coletâneas como Região e tradição, Vida, forma e cor, Problemas brasileiros de antropologia e outros do mesmo gênero.

São livros importantes, mas reúnem ensaios, conferências e artigos dispersos em periódicos e obras coletivas. Alguns desses textos menos extensos são estudados individualmente no presente ensaio; mas em suas versões iniciais e não como partes de coletâneas posteriormente organizadas.

Abrimos também um capítulo para as conferências, por dois motivos: por serem pequenos ensaios sem as repetições dos mais extensos e porque o autor os costumava ler de modo inconfundível: fazendo dessa leitura uma verdadeira obra de arte. E concluímos nosso ensaio com um capítulo dedicado ao paisagismo lírico de Gilberto Freyre.

1. O ensaísta-poeta

"... quem se dirige como ele pelas marés da vida, quem põe como ele, acima das teorias e dos partidos, a vida, o homem, a pessoa, a terra, o céu, as águas, os bichos, as árvores, seria mais que um sociólogo, mais que um político, mais que um cientista, será o poeta que sobreviverá a tudo mais".
José Lins do Rego

"Atribuo ao estilo literário do sr. Gilberto Freyre aquela mesma significação que ninguém nega aos seus estudos históricos e sociológicos. Na revolução cultural que ele desencadeou é o seu estilo que comanda".
Álvaro Lins

O título deste capítulo define seus limites. Nele não tratamos de Gilberto Freyre como historiador social, antropólogo e sociólogo. Nem mesmo como ficcionista: o autor das seminovelas Dona Sinhá e o filho padre e O outr oamor do Dr. Paulo, e dos contos reunidos em Três histórias mais ou menos inventadas, um volume póstumo [publicado em 2003 pela Editora da Universidade de Brasília. n.e.] O presente capítulo restringe-se ao ensaísmo freyriano, à poesia implícita em sua prosa e explícita em seus poemas.

Em nossa análise do ensaísmo freyriano são por vezes citadas obras científicas, como Sociologia da medicina. Mas sem que necessitemos de ordenar em versos seus textos em prosa. Concordamos com o crítico e ensaísta Fernando Alves Cristóvão em que a poesia de Gilberto Freyre não necessita de tal recurso. Sendo implicitamente poética por suas imagens e por seu ritmo, a prosa de Freyre como que empalidece quando reduzida a versos: recurso adotado por eminentes poetas brasileiros. Por isso nos concentraremos, ao estudar Gilberto Freyre como poeta explícito, em seu poema inspirado pela Bahia.

Gilberto Freyre sempre se considerou principalmente escritor literário: "O sociólogo, o antropólogo, o historiador, o cientista social, o possível pensador são em mim ancilares do escritor". Mas os historiadores da literatura brasileira o ignoram como tal. Alguns o citaram, mas poucos o estudaram como ensaísta e poeta.

Foi Carlos Malheiro Dias quem primeiro o estudou como ensaísta, na antologia Pensadores brasileiros, publicada em Portugal em 1934. Na Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, Otto Maria Carpeaux dedicou um verbete a Gilberto Freyre como ensaísta. Diz o mestre de mestres nesta obra fundamental, publicada em 1951:

"Ao romance nordestino, considerado como documento social, fornece Gilberto Freyre, mestre da sociologia histórica, o fundamento científico. Mas Gilberto Freyre também é grande escritor. A bibliografia a seu respeito ocupa-se, em grande parte, do aspecto científico de sua obra; deu-se, nesta seleção, a preferência aos trabalhos evidentemente menos numerosos, que dizem respeito ao aspecto literário da obra".

Aos vinte textos referenciados por Carpeaux, há que acrescentar outros posteriores a 1948, um dos quais o do próprio ensaísta austro-brasileiro: sua notável contribuição à obra coletiva Gilberto Freyre: sua ciência, sua filosofia, sua arte. Na mesma obra coletiva devem ser assinaladas, por sua importância para o entendimento de Gilberto Freyre como ensaísta, as contribuições de José Américo de Almeida8, Antonio Candido, M. Cavalcanti Proença10, Roberto Alvim Corrêa, Temístocles Linhares, Wilson Martins13 e Eduardo Portella.

Nas comemorações do octogésimo aniversário de Gilberto Freyre surgiram novas contribuições sobre a importância literária de suas obras. Destacamos, entre elas, as de David Mourão-Ferreira15, Eduardo Portella, César Leal, Mauro Mota e Leônidas Câmara. Do ciclo de conferências comemorativo do cinqüentenário da publicação de Casa-grande & senzala merecem destaque, como interpretações do ensaísmo freyriano, os textos de Antônio Salles Filho, Francisco de Assis Barbosa e, novamente, Eduardo Portella.

O primeiro reconhecimento público de Gilberto Freyre como poeta foi o de Manuel Bandeira, acolhendo-o em sua Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos23. Em 1962 publicou-se, na série Obras reunidas de Gilberto Freyre, o volume Talvez poesia, prefaciado por Mauro Mota. No mesmo ano apareceu a já mencionada obra coletiva Gilberto
Freyre: sua ciência, sua filosofia, sua arte, com a contribuição de Manuel Bandeira "Gilberto Freyre poeta".

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"Em Torno de Gilberto Freyre"
Autor: Edson Nery da Fonseca
Editora: Massangana
Páginas: 380
Quanto: R$ 30,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 

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