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03/07/2009 - 18h29

"Hoje há reportagens mais brilhantes que romances", diz Edna O'Brien na Flip

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LIGIA BRASLAUSKAS
Editora da Folha Online
ANAÍSA CATUCCI
Colaboração para a Folha Online
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online

A terceira mesa de discussões desta sexta-feira na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), "Sentidos da Transgressão", contou com a presença da escritora irlandesa Edna O´Brien. Com a tenda lotada, a irlandesa discutiu os métodos de criação e a paixão pela escrita com Liz Calder. A escritora disse ainda ser um momento muito especial para ela estar em Paraty. "Acho que o público aqui está vendo isso."

Divulgação
A escritora irlandesa Edna O´Brien, que participou da terceira mesa de discussões da Flip desta sexta-feira
A escritora irlandesa Edna O´Brien, que participou da terceira mesa de discussões da 7ª Festa Literária de Paraty desta sexta-feira

O´Brien contou sobre suas experiências e de como sua vida na Irlanda influenciou a forma como faz literatura. A vida numa cidade pequena, as dificuldades, as regras, a rigidez com as mulheres, a religião. "A profundidade é fundamental para a palavra escrita. A família, as relações, tudo tem de estar ali, dentro do autor, para dar a real profundidade das coisas. Eu sou muito assim", disse. "A matriz, o caldeirão [que move um escritor] é a família. A família é o ouro do escritor", acrescentou.

O que ela quis dizer com profundidade é o fato de o autor perceber, saber exatamente sobre o que vai falar, pesquisar. "Nunca deixe de considerar as fontes profundas, são elas que abrigam as riquezas", disse. O´Brien usou o jornalismo como exemplo para explicar a importância dessa profundidade, dizendo que algumas reportagens, hoje em dia, são muito mais brilhantes que os romances, por conta da investigação, da presença local, do olhar que a pessoa que escreve tem sobre o tema. "Eu poderia, sim, escrever sobre fome, guerras, deslocamentos, mas eu escreveria como turista. Não importa o tamanho da tela, pode ser pequena, mas tem de ser real."

Na opinião da irlandesa, não é necessário ter uma formação acadêmica para ser um escritor. Ela disse que aprendeu a escrever amassando drogas, fazendo supositórios, remédios numa farmácia. "Lá aprendi a cozinhar também, cozinho muito bem... Para escrever bem, é necessário ser um bom leitor, escrever e ler, isso é fundamental", disse.

O´Brien é uma mulher de frases inteligentes e sensíveis, assim como seu estereotipo. Elegante e tranquila na fala, arrancou aplausos do público diversas vezes e agradeceu a acolhida. Falou da alegria de estar na Flip e da importância do evento.

Contou que para escrever é necessário fechar-se num mundo de concentração que, para muitos, chega a ser monstruoso, e disse que esse papel de aceitar tal monstruosidade é mais fácil para as mulheres. Disse acreditar que é mais fácil ser mãe-autora do que mulher-autora, ressaltando que foi casada apenas uma vez e que há pessoas que dizem que não se casariam de novo e, rindo, acrescentou que não foi pedida em casamento novamente. "É preciso concentração total, sem interrupção, você tem de ser um monstro, um egoísta. Às vezes, quando você encerra e desce as escadas, ainda não se separou da concentração."

Sobre a paixão pela escrita, tema que ela descreveu lindamente em uma frase durante entrevista exclusiva à Folha Online ["A paixão é com a cor dos olhos de alguém, não pode ser modificada."]O´Brien disse que é imprescindível imprimir essa característica ao texto. "É uma coisa maravilhosa. Na vida, a paixão não precisa ser mostrada, mas na palavra escrita precisa."

Questionada sobre seus autores contemporâneos prediletos, a irlandesa mais uma vez foi aplaudida depois da resposta. "Não existe qual é o melhor, existe um universo de literatura lá no céu, e aqui nesta sala. Gostamos de ler uma coisa um dia, no outro não. Então traímos a literatura", afirmou.

Outra fala interessante da escritora foi sobre o "efeito Obama". Deixou claro que, assim como a maioria das pessoas, Barack Obama também a pegou. O´Brien contou que no começo, quando viu Obama durante a campanha democrata para Presidência dos Estados Unidos, pensou: "Um meteoro humano chegou". A partir daí, começou a gostar mais e mais dele, passou a admirá-lo, e escreveu um poema sobre esse homem Obama. Calder, então, perguntou se Obama já havia lido o poema. "Obama não respondeu. Ele deve receber muitos poemas. Acho que vai adorar. Quem sabe vai me responder agora pela Flip".

 

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