Fã de Pixinguinha, Alex Ross aproxima o pop e o clássico na Flip
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online
Alex Ross, 41, nunca pensou em ganhar a vida fazendo crítica. Até sair da faculdade imaginava fazer carreira como músico e compositor. Para isso, estudou piano e oboé e passou muita horas em frente a páginas em branco, até perceber que não tinha o talento necessário para nenhuma das atividades que escolhera. Foi quando recebeu um convite inesperado do jornal "The New York Times" para escrever --e é o que faz desde então.
| David Michalek/Reprodução |
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| O crítico musical e escritor norte-americano Alex Ross, que participa da Flip 2009 |
Com pais que eram apaixonados por música, Ross cresceu em uma casa cheia de discos, ouvindo basicamente à música clássica dos séculos 19 e 20. Na verdade, até entrar na faculdade ele não ouvia nada além disso. Depois dos 18 anos é que percebeu que era uma experiência musical um tanto quanto limitada e abriu seus horizontes para a o universo da música pop. Foi quando percebeu a profunda relação entre os dois tipos de música e que esse era um bom caminho para aproximar os ouvintes do pop de sua paixão pela música clássica.
Famoso pelo profundo conhecimento musical, Ross procura em suas colunas (hoje ele escreve para a revista The New Yorker) trabalhar as relações entre o clássico e o pop de forma a demonstrar que a música clássica não é um universo remoto que apenas os eruditos são capazes de compreender. Muito pelo contrário, ele vê nesse tipo de música um potencial para ser imensamente popular, graças à sua força e capacidade de resistência que a fez sobreviver aos séculos. É isso o que transmite seu livro "O Resto é Ruído" (Cia. das Letras, 2009), no qual conta uma história do século 20 com base na música que foi feita nele. O livro ambicioso de quase 700 páginas --e que tinha quase o dobro no original--- cumpre seu papel.
Em entrevista por telefone à Folha Online, Alex Ross contou sua trajetória e os momentos que despertaram seu prazer pela música, além de revelar a preferência por compositores brasileiros com Villa-Lobos e Pixinguinha.
Folha Online - Como foi o primeiro contato do senhor com a música do século 20?
Alex Ross - Eu cresci ouvindo a música clássica anterior ao século 20, e foi este o único tipo de música que ouvi até ter uns 17 anos. Ouvia Mozart, Beethoven, Schubert, Bach, e era mais ou menos isso. É um repertório limitado para algumas pessoas, embora tenha um corpo musical extremamente rico, o que me deu uma grande bagagem emocional. Mas, à medida que fiquei mais velho, comecei a me interessar por outros tipos de música. Tive um excelente professor de piano que me apresentou a [Arnold] Schoenberg (1874-1951), [Alban Maria Johannes] Berg (1885-1935), [Béla] Bártok (1881-1945), [Ígor] Stravinsky (1882-1971), os grandes revolucionários dentre os compositores do início do século 20. A partir daí, na faculdade, comecei a ouvir, década após década, a diversidade incrível da música do século 20, e fiquei cada vez mais absorvido por esse processo. Pela primeira vez eu comecei a ouvir música pop, música que não era clássica, como jazz, free jazz, e as mais barulhentas, como rock'n roll --o que soa um pouco como os compositores clássicos mais avant-garde, então eu estava muito interessado nisso na época. Por meio dessas músicas meu horizonte musical cresceu enormemente.
Folha Online - O que, nela, te chamou tanto a atenção a ponto de te desviar daquilo que você cresceu ouvindo?
Ross - Acho que o que eu descobri foi um tipo de música tão próximo dos seus dias e tão relevante para a minha vida, e para a vida de todos aqueles que viveram o fim do século 20. Eram compositores que viveram durante todos os eventos do começo do século, o surgimento de novas tecnologias, o desenvolvimento de novas linguagens em todas as artes, linguagens abstratas, modernas. Eu consigo me relacionar com esses compositores como revolucionários que aumentaram a linguagem da arte. Eu também estudava história e política, e fiquei fascinado pelas histórias de compositores como Dmitri Shostakovich (1906-1975), que viveu sob o regime stalinista na União Soviética, Aaron Copland (1900-1990), que viveu o New Deal (1933-1937) nos EUA e expressou o espírito daquele tempo, as histórias sombrias de compositores que viveram ou --em alguns casos-- morreram durante o regime de Hitler na Alemanha. Essas histórias são extremamente interessantes, e eu quis no meu livro juntar todas elas, os compositores avant-garde, os conservadores, os compositores de países diferentes e transmitir a sensação de vivacidade e de relevância dessa música.
Folha Online - O que despertou a paixão do senhor pela música?
Ross - Meus pais sempre adoraram música clássica. Não eram músicos, mas eram apaixonados por música e sempre tiveram montes de discos na casa, me levavam a shows, e um pouco do entusiasmo deles passou para mim. Desde muito pequeno eu fiquei obcecado com a música clássica. Toquei piano e oboé, e tentei durante algum tempo escrever minhas próprias composições, até que percebi que não tinha talento nenhum! Mas não sei se consigo explicar o porquê, no meu caso ou de qualquer um, que a música nos domine dessa forma. Acho que todos são susceptíveis à música de alguma forma; a questão de quais pessoas devotam suas vidas a ela se relaciona com várias circunstâncias, e eu tive a sorte de ter alguns professores maravilhosos e a oportunidade de ter algumas experiências poderosas com a música quando era muito novo. Isso me marcou pelo resto da vida.
Folha Online - Ainda que o senhor diga que não tem talento enquanto músico, ser compositor era sua primeira opção de carreira?
Ross - Bom, eu nunca avancei até o ponto de pensar em fazer disso uma carreira. Entre os 15 e 17 anos percebi que não tinha a veia criativa nem a habilidade básica para me tornar um compositor. Eu sempre começava peças que não conseguia terminar: escrevia 15 ou 20 linhas e não conseguia imaginar o que viria depois, o que é obviamente muito importante quando se quer ser um compositor. Mas fico feliz por ter tentado, pois como crítico e como escritor eu quase sempre escrevo do ponto de vista do compositor. Sei muito bem como é difícil, e conheço a fé necessária para tentar imaginar todo um mundo musical no papel, muitas vezes sem o prospecto imediato de uma performance. Acho que é heroico nos dias de hoje que alguém tente compor música.
Folha Online - O senhor acredita que é, por essas experiências, um crítico mais compreensivo?
Ross - Acredito que sim. Quase todos os críticos que conheço tiveram algum envolvimento sério com a música, seja como compositores ou simplesmente tocando, seja em aulas na escola. Não diria que isso é necessário para formar um crítico, mas certamente parece ajudar bastante o fato de ter não apenas conhecimento musical, mas também a percepção de quão aterrorizante é se apresentar num palco. Como é aterrorizante sentar numa sala e tentar criar música no papel. Eu quero ser um crítico objetivo e não penso em passar a mão na cabeça de todo mundo, mas certamente tenho muita simpatia em relação a como pode ser difícil escolher esse caminho de carreira.
Folha Online - Depois de escrever "O Resto é Ruído" o senhor consegue comparar o terror de subir ao palco ou escrever uma música ao terror de tentar escrever um livro?
Ross - Claro! Também é totalmente aterrorizante! Nesse caso eu passei sete anos da minha vida escrevendo esse livro, até que chegou o dia em que não era possível fazer mais nenhuma mudança. Depois da publicação, é como passar pela primeira descida de uma montanha-russa e descer muito depressa. Claro, se tem medo de críticas ruins, mas acima de tudo se teme que o trabalho não seja notado por ninguém e desapareça sem deixar vestígios. Tanto no caso da música como dos livros há tantos bons trabalhos que recebem quase nenhuma atenção, e eu tenho muita sorte de que meu livro tenha se destacado em diversos países e tenha sido lido de uma forma que raramente acontece com livros sobre música.
Folha Online - É muito diferente a experiência de escrever um livro, uma coluna para uma revista ou um blog?
Ross - Acredito que cada formato tem seu ritmo próprio, seus contornos. Pelos últimos 13 ou 14 anos eu venho escrevendo para a revista "The New Yorker", e as minhas colunas tendem a seguir um de dois formatos: há as colunas que ocupam um par de páginas numa revista, e há aqueles artigos, ensaios, perfis que podem ter até dez páginas. Mas o livro foi completamente diferente: eu escrevia, escrevia, escrevia... Estava muito acostumado com o ritmo de uma revista, em que eu batia a cabaça na parede por um tempo, ficava frustrado por uns dias ou uma semana, até que via a luz no fim do túnel, colocava algumas coisas no papel e percebia como tudo iria ficar, e depois de um tempo isso ficou bem mais fácil. Mas com o livro vários anos se passaram, e eu mexia com as palavras, e elas se tornaram milhares e milhares de palavras, e eu senti que estava perdendo, ou que nunca tinha tido uma noção do formato do livro como um todo. É isso o que é tão difícil em escrever trabalhos desse tamanho: é difícil dar um passo para trás e perceber como a coisa toda deve se desenrolar para o leitor. Mas eu acho que cometi um erro, que acabou por se tornar uma bênção: eu escrevi demais. Eu tinha um manuscrito completo que era interminavelmente longo, quase duas vezes o tamanho final do livro, e tive que passar dois anos inteiros fazendo cortes. Nesse processo eu realmente conheci o meu livro, eu comecei a ver o formato completo dele e tomei algumas decisões importantes sobre o que eu queria enfatizar no livro e o que deveria sair. Foi doloroso cortar algumas coisas, mas tive que perceber o que não se encaixava no tom geral da narrativa. Mas escrever para a revista é consideravelmente mais fácil, eu preciso dizer.
Folha Online - Por que o senhor decidiu escrever o livro? Gostava de ler?
Ross - Sim, eu sempre gostei muito de livros. Quando saía de férias com minha família eu sempre levava 15 ou 20 livros que eu quase nunca tinha tempo de ler, mas eu sempre gostei de ficar cercado por livros. Escrever um livro meu sempre foi um objetivo, desde que eu consigo me lembrar; a questão era apenas sobre o tipo de livro que seria. Mas porque fiquei tão obcecado com a música do século 20, não só a música mas também a história que a cercava durante a faculdade, que essa obsessão ficou comigo. Eu não tive que pensar muito nem por muito tempo sobre a minha escolha quando chegou a hora de escrever uma proposta para o meu primeiro livro. Simplesmente tinha que ser sobre a música do século 20. Já existem muito livros sobre a música clássica do século 20, mas eu achei que podia escrever um que atingisse um público mais amplo de leitores que teria um estilo diferente daqueles que liam os outros livros do gênero. Queria enfatizar a história ao lado da música em si e da vida dos compositores. Queria introduzir o assunto para aquelas pessoas que não apenas já gostavam de música clássica. Acho que o século 20 pode ser um início maravilhoso para aqueles que nunca tiveram muito contato com a música clássica. Achamos que temos que começar com Mozart ou Beethoven, mas por que não começar com Stravinsky, ou Steve Reich, e ir voltando? Quando começamos a ler literatura mundial não começamos com literatura medieval; mais frequentemente começamos com trabalhos muito mais recentes e voltamos no tempo a partir deles. Por que não fazer o mesmo com a música clássica? Eu espero que o meu livro não anime as pessoas apenas em relação à música clássica do século 20, mas sim à música clássica moderna enquanto totalidade, uma introdução, uma porta de entrada.
Folha Online - O senhor acredita que teve sucesso nessa empreitada?
Ross - Acho que sim, tive algumas respostas interessantes de leitores. O que eu mais gosto de ouvir é que alguém que tinha muito pouco contato com música clássica pegou o livro e conseguiu ler, entender, foi absorvido pela narrativa e, depois de terminar, começou a colecionar alguns livros, a ir a alguns concertos e ficou absorvido pela música em si. Isso é simplesmente fantástico, e em última instância eu não me preocupo se as pessoas leem todas as páginas do livro, eu quero mesmo é que as pessoas se animem com a música, pois acho que o público poderia ser muito maior. Há tantas pessoas com as quais cresci, com que fui educado, pessoas da minha geração que entendem de literatura, de artes visuais, de filmes, de história, mas que sabem tão pouco de música clássica --e a música deveria ser parte da educação de todo mundo, do dia a dia de todo mundo.
Folha Online - Como o senhor se tornou crítico musical?
Ross - Na verdade foi um pouco por acidente. Eu nunca tive o sonho de me tornar um crítico, não acho que muitas pessoas sonhem com isso. Mas quando percebi que não tinha talento para compor, percebi que aquilo não tinha futuro, e imaginei que me tornaria professor. Eu me formei em literatura inglesa na faculdade, e planejava estudar as relações entre música e literatura. Depois da faculdade escrevi alguns artigos para revistas, e isso era muito bom, mas não era algo que, na minha cabeça, pudesse se transformar em uma carreira - afinal, poucas pessoas conseguem fazer uma carreira como críticos musicais. Mas o que aconteceu foi que o jornal "The New York Times" me ligou um dia e me perguntou se eu teria interesse em me tornar o mais novo crítico lá. Foi a primeira vez que me ocorreu que eu poderia ganhar a vida com a minha crítica! Depois de alguma hesitação eu aceitei, e é o que eu tenho feito desde então.
Folha Online - O senhor também mantém um blog que tem o mesmo nome do livro, "O Resto é Ruído". Como vê o papel dessas novas mídias para a construção da informação?
Ross - Acho que a internet assumiu um papel tão grande na vida das pessoas, então não há razão para que a música clássica não faça parte deles. O blog também foi algo que aconteceu meio acidentalmente: eu comecei o site com a ideia de ter algum material extra relacionado ao livro quando este saísse, e eu também o utilizei como arquivo para meus artigos da "The New Yorker". Mas eu também me senti tentado a começar a escrever algum material novo em pequenos "posts", e isso acabou adquirindo vida própria, e eu me vi escrevendo quase que diariamente! Recentemente tive que diminuir o ritmo, porque era coisa demais, escrever um blog, as colunas e um livro, tudo ao mesmo tempo --e as colunas é que realmente pagam as contas, então são a coisa mais importante! Mas é muito interessante como há coisas interessante, há vários blogs de música clássica agora, alguns escritos por críticos ou amantes de música, outros por músicos, maestros, compositores, administradores. Assim, há blogs para ver todos os lados do negócio musical, para fazer o ouvinte casula ver as vozes humanas, os sentimentos por trás de fazer música-- uma atividade que pode parecer remota e exotérica na cultura de hoje. Então acho que os blogs ajudam a humanizar a música clássica. Há também a possibilidade de colocar música na internet, criar páginas com amostras de músicas, amostras de áudio para completar os diferentes capítulos do meu livro, e isso é algo que não se podia fazer antes e que é extremamente valioso. E, claro, temos transmissões ao vivo, eu coloco vídeos de músicos e de organizações de todo o mundo. Há coisas demais espalhadas por aí para que se possa ver e acompanhar, é incrível a quantidade de informação que há na internet. Mas acho que isso realmente ajudou a reposicionar a música clássica, fazendo-a parecer menos intimidadora, menos remota.
Folha Onlilne - O senhor acredita que o fato de o jornal "The New York Times", para o qual o senhor já escreveu, ter se tornado uma plataforma aberta de conteúdos é um indicador de que as mídias estão irreversivelmente se transformando?
Ross - Acredito que sim. O "New York Times" foi uma organização que disponibilizou todo o seu conteúdo na internet, e que agora existe tanto on-line como fisicamente, talvez até mais on-line, com os vídeos e etc. "The New Yorker", para a qual eu escrevo agora, tem alguns de seus conteúdos na internet, alguns artigos. Mas muito disso não está disponível e só pode ser lido por aqueles que tiverem a revista. Eu não sou nenhum especialista no funcionamento da mídia, no seu avanço na época da internet, mas acho que é sábio, no nosso caso, estar envolvido com a internet mas não ter tudo disponível. Porque se você dá tudo de graça, chega um ponto em que as pessoas vão parar de assinar a revista e a circulação vai começar a cair. É o que aconteceu com alguns jornais que disponibilizaram todo o seu conteúdo. Acho que os jornais estão revendo essa filosofia e contemplando a possibilidade de limitar o acesso cobrando pelos artigos. Fico feliz que na "The New Yorker" tenhamos sempre seguido a política de não entregar tudo gratuitamente, pois isso pode ser arriscado e talvez tenha trazido um bocado de prejuízo a longo prazo, já que todo mundo lucrou com sua parcela de informação.
Folha Online - Para o senhor, qual é o papel da música clássica num mundo de celebridades instantâneas e reality shows?
Ross - Uma das coisas mais surpreendentes da música clássica é que tenha persistido por tanto tempo, que tenha mantido sua tradição ininterruptamente por m,ais de mil anos. Sobreviveu uma série de catástrofes: a peste negra, a guerra dos 30 anos, as duas guerras mundiais, o holocausto. Ela mostrou uma resistência extraordinária e se transformou mantendo sua aparência, a sua forma, resistiu às mudanças ao longo do tempo. Acho que a música clássica está perfeitamente posicionada para prosperar, se não para se tornar imensamente popular na nossa cultura. Porque é uma cultura que oferece muitos contrastes: somos diariamente bombardeados por informação, temos celulares, e-mails, vídeos, somos instantaneamente atualizados pelo Twitter e todas essas coisas. Mas você entra em uma sala de concertos e de repente tudo aquilo se torna muito remoto, você está em um outro universo muito distante no qual a música se move em uma cadência completamente diferente --muitas vezes os clássico num concerto começam lentamente, a música emerge do silêncio. Acho que isso é uma qualidade muito preciosa, é quase uma força espiritual que a música clássica possui na sociedade. Acho que cada vez mais pessoas vão se voltar para isso simplesmente porque oferece uma possibilidade tão diferente, um tempo tão diferente das suas vidas cotidianas. Acho que esse ritmo não vai desaparecer, muito pelo contrário, ele perdurará.
Folha Online - O senhor se preocupou com a qualidade literária dos seus livros?
Ross - Ah sim, eu o revisei muitas e muitas vezes! Quando eu escrevo meus artigos para a revista, eles são muito curtos comparados ao livro e eu sempre tenho tempo de voltar e polir a escrita diversas vezes. Com o livro isso é muito mais difícil de fazer, você tem que colocar uma frase depois da outra, e se tentar trabalhar cada uma até a perfeição você não chega a lugar nenhum. Então, quando eu olho para o livro agora fico um pouco ansioso, não acho que algumas coisas estão tão boas ou tão graciosas como gostaria. Mas livros são sobre contar histórias, e para contar uma história às vezes você tem que falar numa linguagem mais crua e simplesmente dizer o que acontece de um jeito muito direto. Tento alternar passagens mais expositivas com trechos mais diretos com passagens um pouco mais poéticas, nas quais tento exercitar uma veia um pouco mais literária. Mas espero que atinja uma certa qualidade de estilo, pois é algo com que eu me preocupo muito profundamente como escritor, e sempre me inspiro naqueles escritores que são maravilhosos narradores, e que fazem da linguagem um certo tipo de música.
Folha Online - Como o senhor recebeu o convite para a Flip, e por que decidiu aceitá-lo?
Ross - Eu recebi um e-mail um dia e fiquei terrivelmente animado, porque parece ser um lugar maravilhoso. Eu fiz uma curta visita ao Brasil há muitos anos, mas de jeito nenhum por tempo o suficiente para conhecer o país. Eu fui apenas para Salvador, na Bahia, por alguns dias. Estava escrevendo um artigo sobre a cantora e compositora Björk, que me fascina muito. Eu queria voltar, não hesitei nada. Quero conhecer mais o Brasil e conhecer os outros autores do festival, ouvir o que eles têm a dizer. Viajar dessa forma é tremendamente enriquecedor, de formas que a gente nunca espera. Estou realmente muito ansioso.
Folha Online - Quais são as suas expectativas?
Ross - Eu não tenho muitas, para falar a verdade! Apenas espero poder falar sobre o meu livro que uma forma que as pessoas achem interessante e animadora. No mais, só quero sentar e aproveitar a atmosfera, ouvir os outros escritores e vivenciar o que parece ser uma incrível cidade.
Folha Online - O que você diria aos pais que querem interessar seus filhos em música?
Ross - Acho que deveriam incentivar seus filhos a ouvir tipos diferentes de música, mas sem forçá-los caso eles não queiram. Descubram do que eles gostam: gostam de Mozart? De Gustav Mahler? De Stravinsky? E, se tiver a oportunidade de levar seus filhos para um concerto ao vivo, acho que isso é muito mais interessante do que ouvir uma gravação. Não importa quão bonito um disco seja, ver os músicos tocando e ver suas ações, os movimentos que fazem para produzir aqueles sons incrivelmente complicados, e sentir a beleza e o poder do som ao vivo... Acho que é muito impressionante. Pode parecer muito simples, mas quando uma orquestra está tocando em volume máximo no final de uma sinfonia de Mahler (1860-1911), é um som muito alto, mas é um volume que é atingido sem amplificação, é o total do trabalho que as pessoas fazem com seus instrumentos. Eu me lembro que, quando tinha dez anos, me levaram para assistir a segunda sinfonia de Mahler, a "Ressurreição". Eu me lembro de ter ficado tão impressionado pelo volume e riqueza do som, todas as suas texturas diferentes, a forma como todos esses sons se alinhavam lado a lado e a sensação de que Mahler havia criado esse imenso mundo musical que era quase um substituto para uma paisagem natural. Então acho que se você consegue achar esse tipo de concerto e levar seus filhos, talvez você não precise fazer mais nada depois disso, se você conseguir encontrar a experiência correta. E, claro, tocar um instrumento ajuda imensamente a se apaixonar pela música. Sentir o que é, sentir a alegria de dominar um instrumento de alguma forma, ajuda a criar ouvintes para a vida inteira, não importando se eles terão carreiras como músicos.
Folha Online - O senhor ainda toca?
Ross - Na verdade, não! Eu não tenho mais um piano. Às vezes consigo tocar pianos de outras pessoas, e eu sempre me divirto com isso, mas na maior parte das vezes eu me contento em ser um ouvinte e deixar que os especialistas toquem... Mas algum dia eu quero ter uma casa que seja grande o suficiente para um piano --o que é algo bem difícil em Nova York!
Folha Online - O senhor gosta de alguma coisa em particular na música brasileira?
Ross - Eu ouço bastante música brasileira, me interesso e espero poder comprar alguns discos durante a viagem. Gosto de [Heitor] Villa-Lobos (1887-1959), [Mozart] Camargo Guarnieri (1907-1993)... Há muitos compositores brasileiros avant-garde aqui em Nova York, como Felipe Lara... E claro que sou enfeitiçado pelo som sofisticado da música popular brasileira. Sou um grande fã de Caetano Veloso, João Gilberto... São parte de um grupo maravilhoso de músicos. Recentemente tenho ouvido muito Pixinguinha (1897-1973), um músico fantástico do início do século 20 que parece misturar elementos populares e clássicos, o que é uma coisa que eu encontro com certa frequência na música brasileira. É muito saudável, é maravilhoso ver músicos clássicos e populares falarem quase a mesma língua, acho que coisas grandiosas podem ser esperadas nessas composições.
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suerly gonçalves veloso
sugonl@uol.com.br
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Taí a Ivete Sangalo, pagodes e sertanejos para agradarem esses coitados.
Fiquem com eles e eu com o Chico
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AI, OLHA AÍ, OLHA AÍ
OLHA, AÍ
É O MEU GURI
Além de excelente compositor, também o é escritor.
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