Anne Enright explora hoje na Flip a sensualidade da mulher irlandesa
TERESA CHAVES
Colaboração para a Folha Online
A irlandesa Anne Enright nunca pensou em fazer outra coisa que não fosse escrever. Foi um casamento arranjado, diz ela, que a faz hoje muito feliz. Mas nem sempre foi assim: os anos que passou na faculdade no EUA foram solitários anos de fracasso, experiência que ela descreve como horrível e fundamental. A escritora, conhecida por seu domínio da linguagem e da escrita de contos, foi premiada com seu último romance, "O Encontro" (Alfaguara, 2007), um texto que achou particularmente difícil de escrever. Para ela, os romances são impossíveis de não escrever e assombram o autor até que estejam prontos.
Veja a cobertura da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty
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| Escritora Anne Enright é uma das atrações da Flip neste sábado (4) |
A escritora irlandesa, que participa da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) neste sábado, falou à Folha Online por telefone sobre o destino de escrever (embora não goste desse termo) e suas obras enquanto, logo depois de voltar de viagem, preparava os dois filhos para que fossem dormir. Como ela diz, divertida, "minha vida é isso".
Enright nasceu numa Irlanda não mais tomada pela influência decisiva da igreja católica. Havia mais liberdade e menos censura, o que foi fundamental para que pudesse dar voz às mulheres divertidas e abertas que povoam seus livros. Para ela, ser escritora e mulher é essencial para a liberdade de escrita, sem que pese sobre seus ombros a tradição literária irlandesa de James Joyce (1882-1941), Samuel Beckett (1906-1989) e outros grandes nomes. Tampouco ela quer falar somente da Irlanda --seus romances se passam lá, em Nova York ou na Venezuela do século 19.
Onde quer que seja, Enright faz questão de ter liberdade para desenvolver suas personagens e, principalmente, para mostrar o humor e a sensualidade das mulheres irlandesas. Também aborda constantemente a questão das famílias disfuncionais, muito embora a sua própria tenha muito pouco a ver com isso.
Leia íntegra da entrevista de Anne Enright concedida à Folha Online.
Folha Online - A Irlanda na qual a senhora nasceu é um país muito diferente daquele da primeira metade do século 20. Quais são, para a senhora, as principais diferenças?
Anne Enright - Bem, acredito que o enfraquecimento do poder da igreja católica seja notável na época em que nasci. Eu nasci no primeiro dia do segundo conselho do Vaticano (11 de outubro de 1962), o que foi um grande encontro de católicos em Roma. Como quase todos os países da Europa, a Irlanda vem mudando muito rapidamente desde o início do século 18. Mas não acredito que seja o trabalho de um escritor comentar as mudanças em si, mas sim refletir essas mudanças pelas quais a sociedade passa. Você teria de perguntar a um historiador para saber quais são exatamente essas mudanças... Se você prestar atenção em "O Encontro" você percebe que até mesmo o estilo de escrever mudou, desde 1925 até 2002. Isso porque o pais mudou tanto naquele tempo que a maneira como são escritas as partes que se passam em 1925, 1926 é diferente da maneira como são as partes atuais. É quase como se eu tivesse que usar uma outra língua. Ambas estão em inglês, mas a língua mudou tanto de lá até agora... Também é impossível descrever uma realidade histórica usando o discurso moderno. Há uma certa sensação de pastiche sobre a maneira como as pessoas devem ter pensado ou falado em 1925, parece que está a um mundo de distância da linguagem contemporânea.
Folha Online - A senhora passou dois anos no Canadá, em uma escola internacional, a United World College (UWC). Acredita que esses anos passados no exterior a influenciaram?
Enright - É muito difícil, se vive apenas uma vida, sabe? É muito difícil dizer como a sua vida teria sido sem um determinado evento, ou uma pessoa que você conhece, ou um lugar para onde você vai. Muitos dos meus personagens vivem vidas bastante internacionais, mas acredito que isso seja parte da cultura contemporânea, nós mudamos muito de lugar. E os irlandeses sempre mudaram muito, pois tinham que deixar a Irlanda para conseguir trabalho. Eu saí da Irlanda na minha adolescência não porque não tivesse emprego, mas para continuar minha educação. Eu tive uma versão muito benigna da experiência como imigrante. É uma escola maravilhosa, na minha época 52 países estavam representados ali, todos tinham bolsas de estudo integrais, havia muita conversa entre os estudantes e professores sobre o mundo, e sobre como deveríamos viver. Mas muitas pessoas foram para essa escola por serem brilhantes academicamente, muitos se tornaram advogados, por exemplo, ou homens de negócios. Não era um lugar imensamente artístico, apesar de ter uma educação muito criativa. Mas não foi um número grande de pessoas que se tornaram artistas depois, e sobre isso eu preciso agradecer a força da minha própria origem cultural. Nela ser um escritor significa ser uma figura importante, na nossa sociedade, de uma forma que talvez não seja assim em outros países europeus.
Folha Online - De certa forma, parece que a senhora estava um pouco predestinada a escrever livros, mas levou um certo tempo para fazê-lo...
Enright - É verdade, mas eu me sinto muito desconfortável com a ideia de destino. Novelistas, em particular, estão sempre muito interessados em causa e efeito: colocamos uma coisa em um livro, e depois colocamos outra coisa, e parecemos acreditar que a primeira causou a segunda. Mas nas nossas vidas é muito difícil ver causa e efeito. Se nos apaixonamos, tendemos a acreditar que foi destino, que havia apenas aquela pessoa por quem poderíamos nos apaixonar; que as estrelas estavam corretamente posicionadas no dia em que vimos aquela pessoa pela primeira vez. Temos a nossa própria ideia do nosso destino, do papel que nós mesmos fazemos em nossas próprias vidas. Mas acho que é trabalho de um escritor sempre questionar isso, de dizer que poderia haver outras pessoas para você se apaixonar se coisas diferentes tivessem acontecido, e causa e efeito são muito difíceis de se definir com precisão. Então eu não sei se eu estava destinada a ser uma escritora ou não. No meu caso, eu diria que foi mais uma questão de um casamento arranjado, sabe? As pessoas achavam que eu devia ser escritora, e eu meio que concordava com isso. Eu estou bastante satisfeita com meu casamento arranjado! Mas eu não sei se era o meu destino.
Folha Online - Por que a senhora pensava que poderia se tornar uma escritora?
Enright - Na verdade, eu sempre escrevi. Mas muitas pessoas escrevem. Quando eu olho em volta para os jovens que estão começando a vida de escritores eu acho que as pessoas que sobrevivem como escritores são aquelas que mais querem escrever, ou que precisam escrever, e que conseguem organizar sua necessidade de escrever da melhor maneira. Então as pessoas perguntam o que faz um escritor, se é a habilidade de contar a verdade... Bom, claro que isso é importante. É a habilidade de escrever bem uma frase? Ora, claro que isso é muito importante. É preciso que ele tenha vivido um pouco? Eu não sei. Mas eu sei que o que realmente faz um escritor é querer ser um escritor. É entrar no jogo por horas, dias ou anos, até que você escreva alguma coisa! É simples assim. Então sim, eu escrevia poesia ruim enquanto estava na escola, e eu continuei a escrever poesia ruim por um tempo na universidade. Eu estava envolvida com teatro enquanto estava na faculdade, e escrevi algumas peças curtas para o teatro dos estudantes, depois escrevi alguns contos... Eu simplesmente continuei! Mais tarde consegui um emprego numa rede de televisão e comecei a trabalhar como produtora, mas eu também tinha um livro em mãos naquela época, em 1991. E esse livro se parecia comigo, ele parecia ser meu, e eu estava orgulhosa do meu livrinho de uma maneira muito profunda. Pareceu uma versão muito mais autêntica de mim mesma, essa pessoa que escrevia, do que a pessoa que produzia televisão. Então, lá fui eu.
Folha Online - A senhora viajou para os EUA para estudar redação criativa. Acredita que tenha aprendido algo sobre como escrever, já que para a senhora escrever parece mais uma necessidade do que um emprego?
Enright - É verdade. Acho que escrever é como uma disciplina espiritual, uma prática espiritual. Você aprende fazendo. Não é uma coisa que possa ser ensinada: você pode aprender, mas não pode ser ensinado. Eu fui para a Universidade de East Anglia, em 1985. E foi um certo momento de definição sobre o que eu realmente queria fazer com a minha vida. Foi como dizer: sim, eu quero fazer esse curso, e quero ser uma escritora. Um momento de comprometimento e de definição pessoal. Então eu fui. Passei um ano muito solitário, escrevendo muito mal e fazendo mal tudo aquilo que eu tentava fazer lá. Mas eu aprendi um bocado sobre o processo de escrever... Eu aprendi sobre fracasso, que é algo que eu acho que todo escritor deveria aprender sobre, pois há tanto fracasso embutido no processo. E eu aprendi que sempre que você se senta à mesa para trabalhar você sempre irá falhar, isso é parte do seu trabalho... Samuel Beckett dizia que nós precisamos fracassar melhor --e essa é a única coisa a fazer. Mas sim, eu tive um ano muito interessante. Aquele curso de escrita criativa era um dos poucos que existia na minha época, e aprendíamos que você conseguiria uma editora, ou um trabalho para seu livro, havia um projeto profissional por trás disso. E ainda que não soubéssemos tudo o que as pessoas sabem hoje sobre vendermos nosso trabalho, isso abriu nossos olhos para a ideia de um público e para escrever um livro que possa um dia ser publicado e vendido.
Folha Online - Como é o seu processo de escrita?
Enright - Eu escrevo no escuro, nunca sei para onde estou indo! Eu apenas tenho uma ideia da emoção ou da forma do livro, mas eu não sei como farei aquela jornada. Eu tenho uma ideia do destino, mas não sei como será a viagem. É difícil, e é delicado, mas também é imensamente divertido! O motivo pelo qual toma tanto tempo é porque você está sempre testando as coisas até chegar à coisa certa, até alcançar o efeito certo. Então você coloca uma coisa em uma história, depois outra coisa, mexe nas coisas em volta... Mas é um grande prazer ver as coisas funcionarem, sabe? Eu não necessariamente tenho um estilo de escrita convencional. Então a satisfação que eu procuro seja talvez uma satisfação também pouco usual, eu quero alcançar partes do cérebro do leitor que outros livros não necessariamente alcançam. Então, quando eu toco a nota certa, fico bastante satisfeita com isso.
Folha Online - O que é mais prazeroso, um romance ou um conto?
Enright - Ah, contos são bastante amigáveis, mais fáceis para mim de escrever. Eles são muito instintivos. Eu posso pensar todo um conto na minha cabeça até que eu precise sentar para ver como continua. Mas um romance, ara, mim, é um compromisso sério, é como estar casada:você não tem como escapar de escrever um romance. Você não pode parar de escrever, não pode deixá-lo em um canto, você tem que fazer! E não há nenhum caminho que leve para fora do romance exceto passar por dentro dele. Um conto eu posso pegar e largar depois por cinco anos, até que eu saiba como proceder. Eu não tenho o mesmo problema, o mesmo sentido de busca que tenho com um romance. Eu realmente adoro contos, eles são muito amigáveis - mas eu não consigo a satisfação maior com eles, talvez. Eu realmente gosto de contos, e tem pontos da minha vida nos quais eu acho que só escrevo contos, que é isso o que eu faço, e nada mais.
Folha Online - A senhora esperava algum dos prêmios que "O Encontro" trouxe?
Enright - Hum, eu não sei. Naquele ponto, eu já vinha sentando em uma mesa há 15 anos, e eu já tinha me resignado com a ideia de ter apenas um sucesso moderado. Sabe, há um bocado de dias em 15 anos! Há muitos dias! E há muitas horas nesses dias. Eu não teria continuado a tentar, eu não teria tentado se eu estivesse preocupada com isso. Você tem que ir além das ideias de sucesso e fracasso, você tem que continuar e perceber que é assim que a sua vida vai ser. Acho que eu já tinha chagado nesse estágio, de só escrever livros pelo resto da minha vida, que faria um certo sucesso em relação a um pequeno grupo de leitores, e que eu estava satisfeita em viver a minha vida assim, seria uma boa vida. Então sim, eu fique assustada quando o livro trouxe um tipo bem diferente de sucesso. Eu estava feliz, claro, mas não completamente. Uma parte de mim só queria viver a outra vida que eu já tinha resolvido viver, muito obrigada!
Folha Online - A senhora escreve sobre as chamadas famílias disfuncionais, mas também diz que nenhuma delas tem alguma relação com a sua própria família e com a sua vida. De onde vem a sua inspiração?
Enright - Ora, nada é muito extremo... Não tem muita relação com a minha família, é isso. Você só tem uma vida, um único lugar a partir do qual escrever! Necessariamente eu escrevo sobre a minha experiência, e necessariamente invento algumas coisas, eu roubo coisas da vida de outras pessoas, roubo da minha própria vida. Você mexe com a forma da história, mexe com outras coisas, então quando pega algo da sua própria vida não se parece mais com uma autobiografia, é apenas perceber que se pode usar aquilo. Não é uma grande busca por conhecimento pessoal, é uma percepção de que aquela memória se encaixa ali. Mas é um livro, é ficção, é algo inventado, e eu estou feliz com isso.



suerly gonçalves veloso
sugonl@uol.com.br
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Taí a Ivete Sangalo, pagodes e sertanejos para agradarem esses coitados.
Fiquem com eles e eu com o Chico
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AI, OLHA AÍ, OLHA AÍ
OLHA, AÍ
É O MEU GURI
Além de excelente compositor, também o é escritor.
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