10/04/2006
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10h13
da Folha de S.Paulo
Nos traços do italiano Milo Manara, 60, talvez o mais célebre desenhista de HQs eróticas vivo, qualquer mulher vira uma deusa --sem o caráter religioso, é claro, porque suas personagens são muito mais tentações infernais do que símbolos da pureza divina.
Diferentemente de outros mestres do erotismo desenhado, Manara não se celebrizou por uma personagem em particular, mas pelo seu talento para desenhar mulheres, quaisquer mulheres.
E ele as desenhou às pencas. Dos personagens históricos da família Bórgia às super-heroínas de ficção, passando pela Mônica de Mauricio de Sousa, o italiano é o nome mais convocado quando o objetivo é criar sensualidade.
Falando da Itália à Folha, Manara explicou como se tornou referência no gênero, contou seus projetos e falou do gosto pelas HQs populares, como os mangás.
Folha - O sr. estudou arquitetura e pintura. Como se tornou um desenhista de quadrinhos?
Milo Manara - Na faculdade, eu trabalhava com um arquiteto espanhol na Itália, e ele me apresentou às HQs franco-belgas, "Barbarella" [do francês Jean-Claude Forest], "Jodelle" [do belga Guy Peellaert], as HQs para adultos. Antes, eu não conhecia bem os quadrinhos, achava que eram coisa para crianças. Mas, quando descobri este material adulto, percebi que era o meu caminho e segui-o.
Folha - O sr. já trabalhou com cineastas como Fellini e Polanski. Qual é sua relação com o cinema?
Manara - Minha ligação é, antes de mais nada, a de um espectador apaixonado. Ilustrei dois roteiros de Fellini, uma história curta de Almodóvar, já fiz pequenos desenhos para Woody Allen, mas para seu trabalho como músico --ilustrei o programa de um concerto de clarinete que ele faria. Com Polanski, começamos a fazer uma animação, rodamos quatro minutos, mas, na época, ele ainda tinha problemas jurídicos com os EUA, o produtor americano saiu do projeto e paramos tudo. Agora que os problemas estão resolvidos, podemos retomar.
Folha - Alguns dos principais artistas dos quadrinhos eróticos são italianos, como Crepax e Serpieri. Há algo em particular na cultura italiana que favoreça isso?
Manara - Na verdade, o começo do erotismo nas HQs aconteceu na França, com a "Barbarella" [de 1962]. Mas Guido Crepax foi o criador da HQ erótica mesmo, porque "Barbarella" era uma história de ficção científica. Ele foi muito importante no começo da minha carreira, comecei a desenhar após conhecer sua Valentina. O que aconteceu na Itália é que, quando há um mestre, geralmente uma escola se desenvolve ao seu redor.
Folha - O sr. está preparando um projeto para a editora Marvel?
Manara - Sim, me propuseram fazer uma história sobre as personagens femininas dos X-Men. Considero os super-heróis norte-americanos os verdadeiros clássicos, acho que todos os desenhistas, se tivessem a oportunidade, deveriam fazê-los. Não é um universo que eu conheça muito bem, mas, como eles são os clássicos das HQs populares, fiquei contente com a proposta de desenhá-los.
Folha - Há diferença entre as HQs comerciais e as autorais?
Manara - Não acho que haja uma separação entre os tipos de quadrinhos, mas, talvez, entre os tipos de leitor --mas não é uma diferença muito grande. As HQs autorais não existiriam sem as comerciais, porque foram elas que desenvolveram toda a organização de gráficas, distribuição etc. Com isso, as histórias mais autorais tiveram chance de aparecer, mas são as comerciais que impulsionam o mercado editorial.
Folha - O sr. gosta dos mangás japoneses?
Manara - Sim. É um fenômeno do qual gosto muito, acho que a verdadeira vocação das HQs é serem populares, como os mangás são. O futuro dos quadrinhos é esse, usar um papel menos caro, menos cores. Hoje, o cinema faz o que quer com os efeitos especiais. Às HQs caberá uma outra dimensão, algo bem mais simples, "pobre", em termos técnicos.
Folha - O sr. já foi convidado a vir ao Brasil, mas nunca veio. Por quê?
Manara - É tudo uma questão de agenda, eu tenho um irmão que viveu 20 anos no Brasil, mas não tive tempo de visitar o país. Detestaria ir a um país e ficar dois ou três dias. Quando eu vou, quero ficar por dois ou três meses, para ter a chance de conhecê-lo um pouco. Por isso ainda não tive tempo de ir. Em dois ou três dias só dá para conhecer Ipanema, não dá para visitar realmente o Brasil, conhecer o sertão, a Amazônia.
Folha - Para se tornar um desenhista profissional como o sr. é necessário talento ou apenas prática?
Manara - Ambos. No meu caso, há um pouco de talento, mas, acima de tudo, muita prática diária. São quase 40 anos desenhando até seis horas por dia --assim, mesmo se você não for tão talentoso, acaba ficando bom no que faz.
Folha - "Gullivera" e o segundo "Bórgia" acabam de ser lançados no Brasil. Como eles surgiram?
Manara - Foram trabalhos encomendados, ainda sou obrigado a trabalhar por encomenda. "Gullivera" foi um pedido de uma revista italiana, pensei em usar a história de Gulliver [personagem do livro de Johnatan Swift], mas mudando o sexo do protagonista, porque ficaria mais interessante. "Bórgia" foi um convite de Jodorowski, que me chamou para ilustrar seu roteiro. Como gosto do trabalho dele e do período histórico dos Bórgias, achei interessante.
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MARCO AURÉLIO CANÔNICOda Folha de S.Paulo
Nos traços do italiano Milo Manara, 60, talvez o mais célebre desenhista de HQs eróticas vivo, qualquer mulher vira uma deusa --sem o caráter religioso, é claro, porque suas personagens são muito mais tentações infernais do que símbolos da pureza divina.
Diferentemente de outros mestres do erotismo desenhado, Manara não se celebrizou por uma personagem em particular, mas pelo seu talento para desenhar mulheres, quaisquer mulheres.
| Divulgação |
![]() |
| Personagem-título da HQ "Gullivera", de Manara |
Falando da Itália à Folha, Manara explicou como se tornou referência no gênero, contou seus projetos e falou do gosto pelas HQs populares, como os mangás.
Folha - O sr. estudou arquitetura e pintura. Como se tornou um desenhista de quadrinhos?
Milo Manara - Na faculdade, eu trabalhava com um arquiteto espanhol na Itália, e ele me apresentou às HQs franco-belgas, "Barbarella" [do francês Jean-Claude Forest], "Jodelle" [do belga Guy Peellaert], as HQs para adultos. Antes, eu não conhecia bem os quadrinhos, achava que eram coisa para crianças. Mas, quando descobri este material adulto, percebi que era o meu caminho e segui-o.
Folha - O sr. já trabalhou com cineastas como Fellini e Polanski. Qual é sua relação com o cinema?
Manara - Minha ligação é, antes de mais nada, a de um espectador apaixonado. Ilustrei dois roteiros de Fellini, uma história curta de Almodóvar, já fiz pequenos desenhos para Woody Allen, mas para seu trabalho como músico --ilustrei o programa de um concerto de clarinete que ele faria. Com Polanski, começamos a fazer uma animação, rodamos quatro minutos, mas, na época, ele ainda tinha problemas jurídicos com os EUA, o produtor americano saiu do projeto e paramos tudo. Agora que os problemas estão resolvidos, podemos retomar.
Folha - Alguns dos principais artistas dos quadrinhos eróticos são italianos, como Crepax e Serpieri. Há algo em particular na cultura italiana que favoreça isso?
Manara - Na verdade, o começo do erotismo nas HQs aconteceu na França, com a "Barbarella" [de 1962]. Mas Guido Crepax foi o criador da HQ erótica mesmo, porque "Barbarella" era uma história de ficção científica. Ele foi muito importante no começo da minha carreira, comecei a desenhar após conhecer sua Valentina. O que aconteceu na Itália é que, quando há um mestre, geralmente uma escola se desenvolve ao seu redor.
Folha - O sr. está preparando um projeto para a editora Marvel?
Manara - Sim, me propuseram fazer uma história sobre as personagens femininas dos X-Men. Considero os super-heróis norte-americanos os verdadeiros clássicos, acho que todos os desenhistas, se tivessem a oportunidade, deveriam fazê-los. Não é um universo que eu conheça muito bem, mas, como eles são os clássicos das HQs populares, fiquei contente com a proposta de desenhá-los.
Folha - Há diferença entre as HQs comerciais e as autorais?
Manara - Não acho que haja uma separação entre os tipos de quadrinhos, mas, talvez, entre os tipos de leitor --mas não é uma diferença muito grande. As HQs autorais não existiriam sem as comerciais, porque foram elas que desenvolveram toda a organização de gráficas, distribuição etc. Com isso, as histórias mais autorais tiveram chance de aparecer, mas são as comerciais que impulsionam o mercado editorial.
Folha - O sr. gosta dos mangás japoneses?
Manara - Sim. É um fenômeno do qual gosto muito, acho que a verdadeira vocação das HQs é serem populares, como os mangás são. O futuro dos quadrinhos é esse, usar um papel menos caro, menos cores. Hoje, o cinema faz o que quer com os efeitos especiais. Às HQs caberá uma outra dimensão, algo bem mais simples, "pobre", em termos técnicos.
Folha - O sr. já foi convidado a vir ao Brasil, mas nunca veio. Por quê?
Manara - É tudo uma questão de agenda, eu tenho um irmão que viveu 20 anos no Brasil, mas não tive tempo de visitar o país. Detestaria ir a um país e ficar dois ou três dias. Quando eu vou, quero ficar por dois ou três meses, para ter a chance de conhecê-lo um pouco. Por isso ainda não tive tempo de ir. Em dois ou três dias só dá para conhecer Ipanema, não dá para visitar realmente o Brasil, conhecer o sertão, a Amazônia.
Folha - Para se tornar um desenhista profissional como o sr. é necessário talento ou apenas prática?
Manara - Ambos. No meu caso, há um pouco de talento, mas, acima de tudo, muita prática diária. São quase 40 anos desenhando até seis horas por dia --assim, mesmo se você não for tão talentoso, acaba ficando bom no que faz.
Folha - "Gullivera" e o segundo "Bórgia" acabam de ser lançados no Brasil. Como eles surgiram?
Manara - Foram trabalhos encomendados, ainda sou obrigado a trabalhar por encomenda. "Gullivera" foi um pedido de uma revista italiana, pensei em usar a história de Gulliver [personagem do livro de Johnatan Swift], mas mudando o sexo do protagonista, porque ficaria mais interessante. "Bórgia" foi um convite de Jodorowski, que me chamou para ilustrar seu roteiro. Como gosto do trabalho dele e do período histórico dos Bórgias, achei interessante.
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