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Ilustrada
12/05/2006 - 09h11

"A Concepção" apresenta utopia criativa

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CHRISTIAN PETERMANN
do Guia da Folha

Desde a exibição em outubro de 2005 no Festival de Brasília, de onde saiu injustamente premiado apenas com os Candangos de montagem e trilha sonora, "A Concepção", de José Eduardo Belmonte, já mostrou sua vocação para a polêmica. O filme dividirá opiniões e paixões. Mas, a despeito disto, a obra, uma das mais abusadas e irrequietas da retomada, tem sido mal-interpretada.

A mídia, apoiando-se numa idéia de transgressão que o filme não busca, descreve a trama como um retrato da juventude clubber e/ou niilista de Brasília. Nada mais equivocado. Belmonte apresenta aqui o "concepcionismo", uma teoria de vida que elimina o ego e a identidade a partir da negação da memória. Os personagens queimam seus documentos e se reinventam a cada dia, dando forma a uma utopia de puro sexo, drogas e rock'n'roll.

A idéia é farsesca, até mesmo lúdica, como demonstra a alcunha do misterioso personagem de Matheus Nachtergaele, X, uma espécie de antiguru do movimento. Sua interação com Lino (Milhem Cortaz) e Alex (Juliano Cazarré), filhos de diplomatas, é a principal pulsão nervosa do longa.

Usando bitolas diversas, narrativa lisérgica e acentuado erotismo, Belmonte expõe um hedonismo sem respaldo realista. A história respira como quebra-cabeças, resultado da ótima montagem de Belmonte e Paulo Sacramento. Nessa fantasia moral, com vagas reminiscências de filmes como "Trainspotting" e "Os Idiotas", é a experiência sensorial que conta. A colagem sonora do compositor e DJ ZéPedro Gollo se torna, portanto, importante narradora.

Concordando-se ou não com sua liberalidade, a ascensão e queda dessa utopia concebida atesta criatividade visceral e contemporaneidade. E há quanto tempo esses atributos não são associados a um filme brasileiro?

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