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Biografia retrata o Cartier-Bresson por trás das lentes; leia trecho
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da Folha Online
Há cinco anos, no dia 2 de agosto de 2004, morria um dos maiores fotógrafos que a humanidade já conheceu: o francês Henri Cartier-Bresson. Autor de algumas das mais conhecidas imagens já clicadas, ele é considerado um dos pais do fotojornalismo moderno e criador da expressão "instante decisivo", sua marca registrada.
Suas fotografias eternizaram personalidades e momentos de grande importância da história, como o pacifista Mahatma Gandhi em seus últimos momentos de vida, mas também não deixaram de registrar anônimos e cenas cotidianas em um período que tudo mudava rapidamente.
| Charles Platiau/Reuters |
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| Henri Cartier-Bresson morreu no dia 2 de agosto de 2004, na França, aos 95 anos |
O título do livro "Cartier-Bresson: O Olhar do Século" (L&PM Editores, 2008), do jornalista e biógrafo de personalidades Pierre Assouline, dá uma ideia de sua importância dentro do século 20. Mais do que retratar a vida e a obra deste histórico fotógrafo, esta edição tenta revelar o homem por trás das lentes. O autor, no decorrer das longas conversas exigidas para a elaboração de um registro destes, acabou por se tornar amigo de Cartier-Bresson, misturando os papéis de entrevistador, amigo e admirador.
Entre episódios marcantes e making ofs de retratos, a obra aborda a folclórica relação que ele mantinha com sua inseparável câmera Leica e a revolucionária fundação da agência Magnum Photos ao lado de outros grandes nomes da fotografia, como Robert Capa e David Seymor.
A seguir, leia um trecho de "Cartier-Bresson: O Olhar do Século":
Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".
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Capítulo 1: De filho para filho (1908-1927)
| Divulgação |
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| Livro apresenta a biografia do fotógrafo francês Cartier-Bresson |
"De onde vem o dinheiro?" Esse é o título de um artigo recortado com cuidado do L'Écho de Paris. Quando entramos no quarto de Henri aos onze anos, é impossível não vê-lo colado no espelho de madeira dourada como em provocação. Estamos na casa dos Cartier-Bresson logo depois da Primeira Guerra, um prédio da época de Haussmann no nº 31 da Rue de Lisbonne, no limite do Parc Monceau, na divisa entre o 8º e a melhor parte do 12º arrondissement de Paris.
"De onde vem o dinheiro?" Essa pergunta o obcecará por toda a vida. Como se houvesse algo de intrinsecamente sujo, impuro e imoral no dinheiro. Ver um carro de luxo na rua, cruzar com uma mulher usando jóias raríssimas numa recepção, flagrar uma pessoa importante chamando com estridência sua criadagem - basta isso para ele se questionar sobre a origem desse poder. A riqueza também não precisa ser espetacular para constrangê-lo. Discreta, ela é ainda mais pérfida. É assim, o dinheiro incomoda.
De tanto ouvir seus pais se queixarem do custo de vida, de o incentivarem à prudência em todos os tipos de despesas e velarem pela frugalidade na alimentação, Henri fica convencido da ruína deles. E não sem motivos: não cometem excessos no estilo de vida, não têm dinheiro na carteira, não dão presentes, a não ser no Natal e nos aniversários, não tiram férias, exceto as visitas aos avós... Tudo o que poderia parecer ostensivo é banido dessa sociedade na qual as crianças são educadas no culto do valor das coisas. No castelo, as cortinas estão sempre cuidadosamente fechadas para que nada seja visto da estrada. Na verdade, o adolescente não faz idéia da fortuna da família. É que na casa desses republicanos convictos, considerados católicos de esquerda, não se fala "nisso". Por causa da vergonha que seus pais sentem de seus bens, ele por muito tempo sentirá uma culpa velada em relação às classes desfavorecidas.Uma vida inteira não será suficiente para dissipá-la.
Em Cartier-Bresson, há o lado Cartier e o lado Bresson. Nada como um sobrenome composto para expressar a dupla origem de uma família. O registro civil só o oficializará em 1901. Mas os dois lados não esperaram o sacramento administrativo para se fazerem um só.
O primeiro dos Cartier é um lavrador de Silly-le-Long, no Oise, descendente de uma antiqüíssima família de agricultores que possuíam boas terras a norte de Roissy. Sua família vinha de Noyers-sur-Serein, no norte da Borgonha, ao lado de Avallon. Parece que a grande sorte de sua vida fora fornecer com regularidade o feno para os cavalos de comerciantes parisienses, os Bresson...
Antoine, o primeiro Bresson, já vendia filamentos de algodão torcidos e fiados em Paris durante a Revolução. É por causa dele que a tradição familiar não passa despercebida. De mercado em mercado, ele acaba se instalando no de Saint-Germain. Depois de sua morte, a loja de tecidos é retomada por sua viúva e depois ampliada por seus filhos. De endereço em endereço, ela prospera na Rue Saint-Denis.
Os Bresson e os Cartier realmente começam a criar laços mais estreitos quando os primeiros entregam suas crianças a amas dos segundos. Era comum, na época, que a cidade cedesse ao campo a criação dos bebês. Mas era mais raro que essa transferência de responsabilidade estivesse sujeita a uma troca de favores. É o caso aqui, pois o pai Cartier não demora em colocar seus dois filhos como aprendizes na loja Bresson em meados do século XIX, quando esta lança bobinas de fios para costura no mercado. Os dois casam com filhas do patrão e não se fazem de rogados para que sua condição de genros fosse elevada à de associados. Essa perspectiva já fora cogitada pelo velho pai Bresson, uma vez que, quando Claude-Marie Cartier perdera prematuramente a mulher, logo se casara com sua jovem cunhada. Coisas que aconteciam sob a autoridade de um patriarca satisfeito em ver uma família de comerciantes se transformar numa dinastia de industriais.
A casa de comércio começa a adquirir um verdadeiro estatuto de empresa com a aquisição de máquinas a vapor destinadas à fabricação do fio de algodão. O Segundo Império ainda está a meio caminho3. Nesse momento, a Sociedade Francesa de Algodão de Costura passa a ter dois endereços: um parisiense, no Boulevard de Sébastopol, onde são feitas as vendas, e outro no subúrbio, onde fica a fábrica.
A usina foi erguida em Pantin, cidade escolhida por suas facilidades de comunicação com as filiais do leste. Ela está localizada ao longo da Rue du Chemin-Vert, transformada antes do fim do século em Rue Cartier-Bresson, o que não poderia deixar de acontecer, visto seu império no local: 23 mil metros quadrados e uma média de 450 empregados, com picos nos anos prósperos e cortes nos demais. Ali, não se trabalha o algodão bruto, mas o algodão para coser, para bordar, para cerzir, para tricotar, bem como para fabricar laços. Para facilitar, ainda que de maneira errônea, fala-se em "fiação Cartier-Bresson", porém a sociedade se dedicava a todas as outras operações algodoeiras com exceção justamente dessa. O que era, afinal? Um local para lavar, tingir, retorcer e colocar os fios em bobinas.
Apesar de logo se tornarem capitães de indústria, os dirigentes da manufatura de Pantin não perdem o espírito paternalista. Empregam tanto seu próprio pessoal, bastante jovem e sobretudo feminino, quanto instalam a própria casa e o pomar no meio da fábrica. Quando se trata de fazer boas obras, os Cartier-Bresson não poupam despesas. Creche, escola, asilo, igreja... É o mínimo que patrões impregnados da moral cristã podem oferecer a empregados desestabilizados pelos efeitos da revolução industrial sobre as famílias. Tudo o que reúne é bom a olhos que se assustam ante o espectro da dispersão, considerada uma conseqüência direta do triunfo da técnica.
Na França do início do século XX, Cartier-Bresson é um nome ilustre, pois é sinônimo de uma marca muito conhecida. Não existe lar onde não se encontrem os novelos de fio para bordar ornados com a etiqueta da loja, na qual se vêem uma mãe e uma filha entregues a seus trabalhos de costura, sob a inscrição "Cartier-Bresson, fios e algodões 'À la croix', cores sólidas". No centro, as iniciais C e B estilizadas, dispostas numa oval com contorno de fita e separadas por uma cruz. Mais do que uma sigla, este é o verdadeiro brasão desses grandes burgueses.
Apesar de batizado com o nome do avô paterno, Henri Cartier-Bresson puxou muito mais à sua mãe. Dizem que ele se parece com ela, por sua beleza, sua sensibilidade e seu caráter. Ou melhor, Henri é filho de uma normanda. Descendente de uma velha família de Rouen, dona de uma grande propriedade no vale que acabava em Dieppe, Marthe - nascida Le Verdier - é uma mulher de graça superior. Seus retratos, tirados por Boissonnas e Tapenier no ateliê da Rue de la Paix, revelam um porte, um aspecto, uma elegância e um brilho naturais. Nervosa, sempre cheia de dúvidas, ela podia ficar absorta em suas leituras por dias inteiros e só sair para se sentar ao piano.
Ela se orgulhava de prestigiosos antepassados, à frente dos quais figuravam a irmã do grande Corneille, Charlotte Corday - que afogara Marat antes de subir ao cadafalso -, assim como um par de França, prefeito de Rouen, tesoureiro de sua filarmônica e amigo do eremita de Croisset4. O jovem Henri cresce em meio a essas recordações. Bem mais tarde, ao medir o caminho percorrido, perceberá que, chegado ao fim, identificava-se à perfeição com aquilo que José Maria de Heredia escrevera um dia sobre Maupassant:
Pertence à grande linhagem normanda, da estirpe de Malherbe, Corneille e Flaubert. Como eles, tem o gosto sóbrio e clássico, a bela harmonia arquitetônica e, sob essa aparência regrada e prática, uma alma audaciosa e atormentada, aventuresca e inquieta.
A Normandia de Cartier-Bresson é tanto história quanto geografia, uma região com muralhas de falésias calcárias e um planalto de argila de sílex e limo fértil, o Pays de Caux. Sua infância no departamento de Seine-Inférieure, terra dos avós maternos, é mais assombrada do que embalada pela atmosfera misteriosa do porto de Rouen, pelos vultos esperando no cais, pelo movimento enigmático dos navios do fim do mundo, pelos marinheiros se balançando na popa dos cargueiros da Libéria, pela mitologia das tabernas enfumaçadas.
No casal Cartier-Bresson, Marthe é a intelectual, a musicista, a meditativa. André, seu marido, é completamente diferente, por inclinação natural e por força das circunstâncias. Esse homem severo, de uma correção que chega à rigidez, é antes de tudo um homem de princípios, tornando-se assim desde muito jovem, devido à morte de seu pai. Ocupado demais com suas responsabilidades familiares para se entregar à vida das idéias, ele escolhera a Escola de Altos Estudos Comerciais para ter acesso mais rápido à direção geral da empresa. Não deixava de ser um homem de gosto, só que toda a sua sensibilidade artística se concentrara no desenho, na pintura e no mobiliário. Ele voltara com três cadernos cheios de desenhos de uma viagem de volta ao mundo para estudar mais de perto a evolução da indústria algodoeira. No entanto, quando seu filho insistia para que contasse alguma coisa sobre o resto do mundo, ele invariavelmente respondia com a mesma frase: "Aqui, em Fontenelle, há o mais belo pôr do sol..."
3. Segundo Império Francês: regime bonapartista de Napoleão III, que vai de 1852 a 1870. (N.T.)
4. Trata-se de Gustave Flaubert, que se recolheu a essa cidade por longos anos. (N.T.)
*
"Cartier-Bresson"
Autor: Pierre Assouline
Editora: L&PM Editores
Páginas: 352
Quanto: R$ 56,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
Livraria da Folha
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