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Saramago diz que leitura é para minoria e dispara críticas
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O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel da Literatura, questionou a utilidade de o Estado estimular a leitura, afirmando que "voluntarismos" não valem a pena no que "sempre foi e será coisa de uma minoria".
Saramago está na lista de cem personalidades --que inclui nomes como o jogador de futebol Luís Figo e o presidente do Grupo Sonae, Belmiro de Azevedo-- que aceitaram integrar a Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura, iniciativa dos ministérios portugueses da Cultura e da Educação que será apresentado ao público hoje.
Em debate na Biblioteca Municipal de Oeiras, distrito de Lisboa, Saramago afirmou ontem que não sabe o que será o Plano Nacional de Leitura, dizendo que "há dinheiro para gastar", mas que resta "esperar para ver que resultados vai ter". "Não vale a pena o voluntarismo, é inútil, ler sempre foi e sempre será coisa de uma minoria. Não vamos exigir a todo mundo a paixão pela leitura", afirmou. Ele explicou que o fato de pertencer à comissão do plano é "uma fatalidade, como as bexigas" --referindo-se à comemoração de quando recebeu o Nobel, em 1998.
"O estímulo à leitura é uma coisa estranha, não deveria ter que haver outro estímulo além da necessidade de um instrumento que permita conhecer", opinou. "As coisas vão mal quando é preciso estimular. Ninguém precisa de estímulos para se entusiasmar com o futebol", disse, lembrando que por trás do esporte há uma "operação de propaganda fabulosa".
Instrução x educação
Segundo Saramago, atualmente se confunde a "instrução", ligada ao conhecimento, com a "educação", ligada aos valores. "Onde está a educação na escola em que os professores são agredidos, humilhados, desprezados", questionou, dizendo que eles "são os heróis do nosso tempo". No entanto, lembrou que há "professores incompetentes", que trabalham "sem vocação". E fez uma recomendação: a leitura em voz alta deve ser encorajada na sala de aula.
O Nobel da Literatura também criticou a linha de ensino que prega que a correção ortográfica não é importante. "Qualquer operário sabe que tem que ter suas ferramentas limpas e em condições de serem usadas. A língua é a ferramenta por excelência".
Atualidades
Questionado pela platéia do debate sobre questões mundial e de sua obra, José Saramago lamentou a instabilidade no Timor Leste, um contraste com "a alegria" dos portugueses com a conquista do direito à soberania dos timorenses, em 1999. "Não há ninguém que tenha a lucidez suficiente de dizer que isto assim não pode ser", disse.
O escritor lamentou ainda que "quem manda no mundo não seja o (premiê britânico Tony) Blair nem o (presidente norte-americano George W.) Bush, mas uma plutocracia". "Os órgãos democráticos são governados por poderes não democráticos, o poder do dinheiro", concluiu.
A ministra portuguesa da Cultura, Isabel Pires de Lima, retrucou hoje as declarações do Nobel da Literatura sobre o Plano Nacional de Leitura. "Discordo desta opinião e acho que José Saramago está se referindo a um plano qualquer de leitura", comentou a ministra.
Isabel Pires de Lima afirmou que o objetivo do plano é lutar contra a idéia de que a leitura é para uma minoria. "Este plano tem justamente como objetivo fazer com que a leitura não seja apenas para eleitos, pois é um direito fundamental de uma sociedade democrática". "A sociedade portuguesa reconhece que há um déficit de leitura e é responsabilidade do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação promover a leitura e hábitos de leitura", argumentou.
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