11/06/2006
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02h00
GUSTAVO FIORATTI
da Folha de S.Paulo
Se os fãs já eram inconvenientes na era do autógrafo no papel, em tempos de celular com câmera digital eles se tornaram um verdadeiro inferno.
Aos 57 anos, 40 de profissão, o ator Antonio Fagundes perde o bom humor com a mania de tirar foto de famosos em tudo quanto é lugar. Também acha que espectadores de teatro continuam inconvenientes, mesmo após ter criado a peça "Sete Minutos" (2002) só para reclamar de pecados da platéia, como atraso e celular ligado.
Em cartaz em São Paulo com "As Mulheres da Minha Vida", elogiado pela crítica e já visto por mais de 110 mil pessoas, ele interrompeu recentemente o espetáculo porque um homem "tossia tanto que parecia que o pulmão ia sair".
Fagundes admite que possa ter fama de chato, arrogante, mas não se importa. Além do sucesso no teatro, está no cinema com "Achados e Perdidos", estreou na semana passada a quarta temporada de 'Carga Pesada" (Globo) e planeja transformar a série em filme.
À Folha, ele falou na semana passada com simpatia. Mesmo ao comentar seu passado como garoto propaganda das falidas empresas Boi Gordo, Encol e do PT. Leia abaixo.
Folha - Em "Sete Minutos", o sr. reclamava do comportamento do público no teatro. De lá para este novo espetáculo algo mudou?
Antonio Fagundes - Não. Mudou para mim, pelo menos falei a eles o que penso disso tudo. Fiquei mais de dois anos falando para um público grande, mais de 200 mil espectadores, o DVD está aí. Mas até hoje toca o celular durante o espetáculo, é um inferno. Tenho a impressão de que eles se habituaram com isso, mas incomoda algumas pessoas.
Outro dia parei a apresentação, há anos não fazia isso, até porque havia escrito "Sete Minutos" para isso mesmo, não estava agüentando, tinha que falar. Comecei a fazer o espetáculo de 'As Mulheres da Minha Vida' e tinha um homem com uma tosse muito violenta, mas tão violenta que eu não conseguia ouvir minha companheira em cena. Era uma tosse que parecia que o pulmão ia sair, aquela coisa assim [imita a tosse]. Pensei: "além de estar me incomodando, ninguém está ouvindo nada". Parei e falei: "O sr. está passando mal? Deve ter algum médico na platéia".
Folha - Coitado [risos]...
Fagundes - Coitado não. Ele não tossiu mais até o fim do espetáculo. Coitado? O que faz esse cara tossir assim e de repente parar e ficar até o fim assim? Tem alguma coisa louca aí, não? Mas fui muito gentil com ele, e a platéia riu.
Folha - Esse tipo de atitude, como não admitir que nem um minuto de atraso do espectador, criou um folclore em torno de sua imagem, não?
Fagundes - Nem trinta segundos. Quando comecei isso, foi para atender as pessoas da platéia. É a coisa da lei no Brasil. Como fazer que seja cumprida se não é seguida a risca. Se matar alguém você vai mais ou menos preso? Por que tolerar o atraso de 15 minutos e não um de 16? Não é para castigar as pessoas, mas para respeitar quem chega na hora.
Folha - É pontual na vida pessoal?
Fagundes - Sim. É de boa educação. E também não tenho outra saída, preciso me organizar, se comer mais cinco minutos não consigo entrar em cena na hora. Minha vida é regida por essa certa disciplina.
Folha - E se uma mulher chegar atrasada num encontro romântico?
Fagundes - Chegou atrasada? Vai chegar uma vez só. Na segunda não espero, porque na primeira já vou dizer "olha, neguinha..." [risos].
Folha - O sr. adquiriu certa aura de arrogante, de não gostar de dar autógrafos. Em Amparo [interior de SP], onde gravou "O Rei do Gado" [1996/97], moradores que foram figurantes dizem que o sr. é chato.
Fagundes - É mesmo? Todo lugar que passo ganho essa fama. Sou sempre bem-humorado, mas aí a gente esbarra no problema da educação. Naturalmente ninguém pergunta em que condições as pessoas descobriram que eu sou chato. Não consigo, por exemplo, ser simpático com alguém se estou enterrando um amigo e ele quer que eu tire foto com a família dele e dê autógrafo. É o meu limite. Estou enterrando um amigo, chorando, e as pessoas gritando em volta. Tive que sair de um velório de um amigo, em que a polícia teve até de ser chamada. Confesso a você que fui extremamente antipático com aquelas 30 pessoas e serei novamente.
Existem algumas ocasiões na nossa vida em que a gente não pode ser simpático. Se tenho uma entrevista marcada com você, não posso perder o avião porque alguém acha que eu estou lá para parar e tirar uma foto com ela, que nem sabe mexer na máquina. Vou embora correndo e ela me chamando de nojento [risos]. Agora a coisa está complicando, antigamente era só autógrafo, agora é foto também, todo mundo está com câmera em todos os lugares. Num grupo com 15 pessoas você tem que tirar 15 fotos, uma com cada câmera.
Folha - Depois de tantas peças políticas, optou por uma comercial, da Broadway. Por que a mudança?
Fagundes - Não há mudança, acabei de fazer um filme, "Achados e Perdidos", com essas características, fala de um ex-delegado envolvido com esquadrão da morte, corrupção. Continuo tendo essa preocupação. E não acho que "As Mulheres da Minha Vida" não seja um texto político. Não é talvez engajado, partidário, não propõe nenhuma revolução, mas fala de relações pessoais. Todas as peças são políticas. Você prepara o cidadão para ficar uma hora e meia se aliviando da tensão trazida pela sociedade, pela má distribuição de renda, e sair daqui com uma cabeça mais fresca para pensar nas coisas.
Folha - Depois de tantos anos, como avalia o desentendimento que teve com o diretor Gerald Thomas?
Fagundes - Ele pensa radicalmente diferente de mim com relação ao teatro. Ele usa muito a palavra comercial, com a qual não concordo. Há coisas que o público gosta de ver e as que não gosta. Fora isso, é o mesmo público. Quero sempre ampliar meu público, trabalho com comunicação e quero sempre o maior número de pessoas. O Gerald Thomas, quando nos conhecemos, tinha um pé atrás com o que fazia muito sucesso. Já eu penso que nem sempre as coisas que fracassam são boas. Mas tenho certeza de que ele está mudando, porque está fazendo até comédia.
Folha - O sr. fala em ampliar o público. Não há como trabalhar com um valor de ingresso mais baixo do que os R$ 40 de "As Mulheres..."?
Fagundes - Existe o problema da meia-entrada, que nunca consegui entender. A cultura tem tão pouca força política, a gente não tem lobby trabalhando por nós, que alguns políticos acabam fazendo média em cima da gente. Fora isso disso, o teatro sempre foi elitista, desde a Grécia Antiga. Eles tinham 40 mil lugares, e a população que freqüentava era de 50 mil. Ficavam dez mil para fora.
Folha - O sr. é a favor de extinção da meia-entrada?
Fagundes - Eu sou. Talvez, se a gente abolisse a meia-entrada, os ingressos não seriam tão altos. Estudante paga meia, idoso paga meia, aposentado paga meia, pessoa de escola pública paga meia, todo mundo paga meia. Ou seja, na verdade, o ingresso é R$ 20 e não R$ 40. Então, como é que eu faço?
Se pusesse o ingresso num valor mais razoável estava perdido. E nós não repassamos ao público a inflação da produção. Tudo subiu, até o papel do ingresso. Um tijolinho [anúncio] na Folha é uma fortuna. Os jornais antes faziam roteiro completo todos os dias, agora só sai na sexta. Tenho de pagar o tijolinho na quinta, ou o cara nem fica sabendo que tem espetáculo.
Folha - O sr., que foi garoto propaganda do PT, concorda com as críticas que Paulo Autran e Marco Nanini fizeram da gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura? Também acha que ele abandonou o teatro?
Fagundes - A crítica pode ser pertinente dependendo do contexto. Se analisá-la do contexto real, não existe ministro da Cultura que consiga fazer o que quer que seja em nenhuma área com 0,1% da dotação orçamentária do governo. Você pode chamar o Goethe, que ele vai ficar fazendo discurso, como o Gil fica cantando, mas é preciso dinheiro.
É preciso impedir que as igrejas comprem os teatros, reformar alguns, criar companhias estatais. O problema é financeiro, vontade política ele tem, mas o que adianta? Isso não é culpa do PT, mas dessa estrutura que vivemos desde 1500. Nenhum partido tem um projeto cultural. O grande projeto cultural seria dar 5% do orçamento para a cultura. O Autran e o Nanini têm razão, mas não pode particularizar.
Folha - E o PT não poderia ter feito isso, em sua avaliação?
Fagundes - Eu não esperava isso deles, porque não via em nenhuma plataforma do PT algo voltado à cultura. O grande mérito do artista relacionado ao PT é que ele já sabia que não ia ganhar nada, todos estavam defendendo melhor distribuição de renda, saúde, educação. Sabíamos que a cultura nunca foi preocupação do PT.
Folha - O sr. voltaria a fazer propaganda para o PT?
Fagundes - Não, parei há anos, quando percebi que o PT chegaria ao poder e que eu não teria a chance de me manifestar. Primeiro porque não sou consultado, depois porque não há espaço. Comecei a me sentir desconfortável em apoiar alguém e saber que se passasse a discordar dela, não teria espaço para falar. Seria interessante que a cada três meses aquelas pessoas que apoiaram voltassem a ser consultadas. Mas continuo votando no PT.
Folha - Que avaliação faz sobre a crise do mensalão e a responsabilidade do presidente Lula?
Fagundes - Estamos ainda muito em cima do laço para conversar sobre isso. Ainda não é história, é jornalismo ainda não devidamente apurado. Tem um monte de coisa que a gente não sabe, e é prematuro falar contra ou a favor. Preciso deixar a coisa esfriar para fazer um julgamento. Tenho opiniões, mas quero balizá-las melhor antes de sair dando declarações.
A gente sempre soube que democracia é a eleição entre o ruim e o pior. É claro que foi um banho de água fria em todos nós. Mas enquanto o sistema político não for reformado, qualquer partido terá esse problema de esbarrar com os caras corruptos. O PSOL, quando entrar, também. No Congresso Nacional, com 550 deputados, quantos são corruptos? Diria 498, e teria dificuldade de apontar os honestos.
Folha - O que achou de o Delcídio Amaral ter recebido o apelido de "Antonio Fagundes da CPI"?
Fagundes - Pois é, coitado [risos]. Espero que eu não tenha de ser o Delcídio da CPI corrupção teatral [risos].
Folha - O sr. participou de um movimento da Globo pela defesa da cultura brasileira. Os críticos dizem que, na verdade, a emissora pretende manter o controle da produção de conteúdo artístico do país.
Fagundes - A mesma animosidade que existia contra o PT existe contra a Globo no sentido contrário. Isso é um pecado, porque a Globo é a maior produtora de televisão do mundo. Se tivéssemos a auto-estima alta estaríamos nos vangloriando de ter a Globo. No dia que a Globo acabar, vamos entender o que é televisão, vamos sentir falta e aí será tarde.
As TVs não se arriscam, elas copiam a Globo. O Luiz Fernando Guimarães tem espaço para fazer o que quer, o Guel Arraes pode criar, as novelas falam de problemas sociais. Claro que há erros, mas a culpa talvez não seja só da Globo, mas do sistema de comunicação do país. Talvez possa ser mais democrático, dar mais espaço a TVs regionais, ter melhores redes públicas.
Folha - O seriado "Carga Pesada" também vai virar um filme?
Fagundes - A gente tem essa idéia, até porque de todos os seriados que viraram filme, o nosso é o que cabe mais. É espaço aberto, horizonte, estrada, morro, mar, o que cabe muito mais numa tela de cinema do que numa telinha. Nós só gravamos em ambientes externos, não entramos em estúdio nem quando a [cena é] numa casa. Usamos a casinha que foi construída. Mas ainda é só um desejo, uma nova luta, como foi da de voltar com a série. Fiquei dois anos tentando convencer a emissora.
Folha - O autor Carlos Lombardi disse que convidaria o sr. para "Pé na Jaca" [próxima novela das sete]. Será a sua volta às novelas?
Fagundes - Ele até falou que eu vou fazer um pai-de-santo [risos]. Acho que não porque "Carga Pesada" continua no ar e é um projeto muito querido.
Folha - Depois de atuar na propaganda do Boi Gordo [na qual garantia o investimento na empresa, que faliu], passou a ter mais cuidado com convites para publicidade?
Fagundes - Foi um problema. Eu sumi, quase não faço mais comerciais. Você é chamado para ser o porta-voz de uma empresa e não tem acesso ao livro caixa da empresa, nem condições de fazer uma auditoria. Eu fiz a Encol também [construtura que faliu]. Mas eu posso dizer que ganhei dinheiro com a Boi Gordo. Troquei meu cachê por investimento e deu certo dois anos depois. Mas como eu faço? Não tem saída, o melhor mesmo é não fazer. Preservo minha imagem, tenho 40 anos de trabalho honesto.
Folha - Momento "Caras": o sr. gasta R$ 4.500 em caixa de charuto. O que mais vale o investimento?
Fagundes - Gosto muito de vinhos. É bom dar entrevista falando sobre isso porque ganho muito presente [risos]. Pode me mandar um Amarone Allegrini [cerca de R$ 360].
Folha - O sr. já ganhou tudo quanto é título: o homem mais sexy, o bumbum mais bonito...
Fagundes - [interrompe] O bumbum?! Nem "Caras" ousaria chegar a esse nível [risos].
Folha - Para isso, perto dos 60 anos, é preciso ser um metrossexual, cuidar da pele, do cabelo etc?
Fagundes - Não, o máximo que eu faço é ser limpinho [risos]. Todo banho todo dia, sou perfumadinho, corto as unhas.
Folha - O sr. está namorando?
Fagundes - É momento "Caras" mesmo! Não, não estou.
Colaboraram VALMIR SANTOS, da reportagem local, e NELSON DE SÁ, colunista da Folha
Especial
Leia o que já foi publicado sobre Antonio Fagundes
Antonio Fagundes comenta fama de arrogante; leia entrevista
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LAURA MATTOSGUSTAVO FIORATTI
da Folha de S.Paulo
Se os fãs já eram inconvenientes na era do autógrafo no papel, em tempos de celular com câmera digital eles se tornaram um verdadeiro inferno.
Aos 57 anos, 40 de profissão, o ator Antonio Fagundes perde o bom humor com a mania de tirar foto de famosos em tudo quanto é lugar. Também acha que espectadores de teatro continuam inconvenientes, mesmo após ter criado a peça "Sete Minutos" (2002) só para reclamar de pecados da platéia, como atraso e celular ligado.
| Caio Guatelli/FI |
![]() |
| Fagundes admite que possa ter fama de chato, arrogante, mas não se importa |
Fagundes admite que possa ter fama de chato, arrogante, mas não se importa. Além do sucesso no teatro, está no cinema com "Achados e Perdidos", estreou na semana passada a quarta temporada de 'Carga Pesada" (Globo) e planeja transformar a série em filme.
À Folha, ele falou na semana passada com simpatia. Mesmo ao comentar seu passado como garoto propaganda das falidas empresas Boi Gordo, Encol e do PT. Leia abaixo.
Folha - Em "Sete Minutos", o sr. reclamava do comportamento do público no teatro. De lá para este novo espetáculo algo mudou?
Antonio Fagundes - Não. Mudou para mim, pelo menos falei a eles o que penso disso tudo. Fiquei mais de dois anos falando para um público grande, mais de 200 mil espectadores, o DVD está aí. Mas até hoje toca o celular durante o espetáculo, é um inferno. Tenho a impressão de que eles se habituaram com isso, mas incomoda algumas pessoas.
Outro dia parei a apresentação, há anos não fazia isso, até porque havia escrito "Sete Minutos" para isso mesmo, não estava agüentando, tinha que falar. Comecei a fazer o espetáculo de 'As Mulheres da Minha Vida' e tinha um homem com uma tosse muito violenta, mas tão violenta que eu não conseguia ouvir minha companheira em cena. Era uma tosse que parecia que o pulmão ia sair, aquela coisa assim [imita a tosse]. Pensei: "além de estar me incomodando, ninguém está ouvindo nada". Parei e falei: "O sr. está passando mal? Deve ter algum médico na platéia".
Folha - Coitado [risos]...
Fagundes - Coitado não. Ele não tossiu mais até o fim do espetáculo. Coitado? O que faz esse cara tossir assim e de repente parar e ficar até o fim assim? Tem alguma coisa louca aí, não? Mas fui muito gentil com ele, e a platéia riu.
Folha - Esse tipo de atitude, como não admitir que nem um minuto de atraso do espectador, criou um folclore em torno de sua imagem, não?
Fagundes - Nem trinta segundos. Quando comecei isso, foi para atender as pessoas da platéia. É a coisa da lei no Brasil. Como fazer que seja cumprida se não é seguida a risca. Se matar alguém você vai mais ou menos preso? Por que tolerar o atraso de 15 minutos e não um de 16? Não é para castigar as pessoas, mas para respeitar quem chega na hora.
Folha - É pontual na vida pessoal?
Fagundes - Sim. É de boa educação. E também não tenho outra saída, preciso me organizar, se comer mais cinco minutos não consigo entrar em cena na hora. Minha vida é regida por essa certa disciplina.
Folha - E se uma mulher chegar atrasada num encontro romântico?
Fagundes - Chegou atrasada? Vai chegar uma vez só. Na segunda não espero, porque na primeira já vou dizer "olha, neguinha..." [risos].
Folha - O sr. adquiriu certa aura de arrogante, de não gostar de dar autógrafos. Em Amparo [interior de SP], onde gravou "O Rei do Gado" [1996/97], moradores que foram figurantes dizem que o sr. é chato.
Fagundes - É mesmo? Todo lugar que passo ganho essa fama. Sou sempre bem-humorado, mas aí a gente esbarra no problema da educação. Naturalmente ninguém pergunta em que condições as pessoas descobriram que eu sou chato. Não consigo, por exemplo, ser simpático com alguém se estou enterrando um amigo e ele quer que eu tire foto com a família dele e dê autógrafo. É o meu limite. Estou enterrando um amigo, chorando, e as pessoas gritando em volta. Tive que sair de um velório de um amigo, em que a polícia teve até de ser chamada. Confesso a você que fui extremamente antipático com aquelas 30 pessoas e serei novamente.
Existem algumas ocasiões na nossa vida em que a gente não pode ser simpático. Se tenho uma entrevista marcada com você, não posso perder o avião porque alguém acha que eu estou lá para parar e tirar uma foto com ela, que nem sabe mexer na máquina. Vou embora correndo e ela me chamando de nojento [risos]. Agora a coisa está complicando, antigamente era só autógrafo, agora é foto também, todo mundo está com câmera em todos os lugares. Num grupo com 15 pessoas você tem que tirar 15 fotos, uma com cada câmera.
Folha - Depois de tantas peças políticas, optou por uma comercial, da Broadway. Por que a mudança?
Fagundes - Não há mudança, acabei de fazer um filme, "Achados e Perdidos", com essas características, fala de um ex-delegado envolvido com esquadrão da morte, corrupção. Continuo tendo essa preocupação. E não acho que "As Mulheres da Minha Vida" não seja um texto político. Não é talvez engajado, partidário, não propõe nenhuma revolução, mas fala de relações pessoais. Todas as peças são políticas. Você prepara o cidadão para ficar uma hora e meia se aliviando da tensão trazida pela sociedade, pela má distribuição de renda, e sair daqui com uma cabeça mais fresca para pensar nas coisas.
Folha - Depois de tantos anos, como avalia o desentendimento que teve com o diretor Gerald Thomas?
Fagundes - Ele pensa radicalmente diferente de mim com relação ao teatro. Ele usa muito a palavra comercial, com a qual não concordo. Há coisas que o público gosta de ver e as que não gosta. Fora isso, é o mesmo público. Quero sempre ampliar meu público, trabalho com comunicação e quero sempre o maior número de pessoas. O Gerald Thomas, quando nos conhecemos, tinha um pé atrás com o que fazia muito sucesso. Já eu penso que nem sempre as coisas que fracassam são boas. Mas tenho certeza de que ele está mudando, porque está fazendo até comédia.
Folha - O sr. fala em ampliar o público. Não há como trabalhar com um valor de ingresso mais baixo do que os R$ 40 de "As Mulheres..."?
Fagundes - Existe o problema da meia-entrada, que nunca consegui entender. A cultura tem tão pouca força política, a gente não tem lobby trabalhando por nós, que alguns políticos acabam fazendo média em cima da gente. Fora isso disso, o teatro sempre foi elitista, desde a Grécia Antiga. Eles tinham 40 mil lugares, e a população que freqüentava era de 50 mil. Ficavam dez mil para fora.
Folha - O sr. é a favor de extinção da meia-entrada?
Fagundes - Eu sou. Talvez, se a gente abolisse a meia-entrada, os ingressos não seriam tão altos. Estudante paga meia, idoso paga meia, aposentado paga meia, pessoa de escola pública paga meia, todo mundo paga meia. Ou seja, na verdade, o ingresso é R$ 20 e não R$ 40. Então, como é que eu faço?
Se pusesse o ingresso num valor mais razoável estava perdido. E nós não repassamos ao público a inflação da produção. Tudo subiu, até o papel do ingresso. Um tijolinho [anúncio] na Folha é uma fortuna. Os jornais antes faziam roteiro completo todos os dias, agora só sai na sexta. Tenho de pagar o tijolinho na quinta, ou o cara nem fica sabendo que tem espetáculo.
Folha - O sr., que foi garoto propaganda do PT, concorda com as críticas que Paulo Autran e Marco Nanini fizeram da gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura? Também acha que ele abandonou o teatro?
Fagundes - A crítica pode ser pertinente dependendo do contexto. Se analisá-la do contexto real, não existe ministro da Cultura que consiga fazer o que quer que seja em nenhuma área com 0,1% da dotação orçamentária do governo. Você pode chamar o Goethe, que ele vai ficar fazendo discurso, como o Gil fica cantando, mas é preciso dinheiro.
É preciso impedir que as igrejas comprem os teatros, reformar alguns, criar companhias estatais. O problema é financeiro, vontade política ele tem, mas o que adianta? Isso não é culpa do PT, mas dessa estrutura que vivemos desde 1500. Nenhum partido tem um projeto cultural. O grande projeto cultural seria dar 5% do orçamento para a cultura. O Autran e o Nanini têm razão, mas não pode particularizar.
Folha - E o PT não poderia ter feito isso, em sua avaliação?
Fagundes - Eu não esperava isso deles, porque não via em nenhuma plataforma do PT algo voltado à cultura. O grande mérito do artista relacionado ao PT é que ele já sabia que não ia ganhar nada, todos estavam defendendo melhor distribuição de renda, saúde, educação. Sabíamos que a cultura nunca foi preocupação do PT.
Folha - O sr. voltaria a fazer propaganda para o PT?
Fagundes - Não, parei há anos, quando percebi que o PT chegaria ao poder e que eu não teria a chance de me manifestar. Primeiro porque não sou consultado, depois porque não há espaço. Comecei a me sentir desconfortável em apoiar alguém e saber que se passasse a discordar dela, não teria espaço para falar. Seria interessante que a cada três meses aquelas pessoas que apoiaram voltassem a ser consultadas. Mas continuo votando no PT.
Folha - Que avaliação faz sobre a crise do mensalão e a responsabilidade do presidente Lula?
Fagundes - Estamos ainda muito em cima do laço para conversar sobre isso. Ainda não é história, é jornalismo ainda não devidamente apurado. Tem um monte de coisa que a gente não sabe, e é prematuro falar contra ou a favor. Preciso deixar a coisa esfriar para fazer um julgamento. Tenho opiniões, mas quero balizá-las melhor antes de sair dando declarações.
A gente sempre soube que democracia é a eleição entre o ruim e o pior. É claro que foi um banho de água fria em todos nós. Mas enquanto o sistema político não for reformado, qualquer partido terá esse problema de esbarrar com os caras corruptos. O PSOL, quando entrar, também. No Congresso Nacional, com 550 deputados, quantos são corruptos? Diria 498, e teria dificuldade de apontar os honestos.
Folha - O que achou de o Delcídio Amaral ter recebido o apelido de "Antonio Fagundes da CPI"?
Fagundes - Pois é, coitado [risos]. Espero que eu não tenha de ser o Delcídio da CPI corrupção teatral [risos].
Folha - O sr. participou de um movimento da Globo pela defesa da cultura brasileira. Os críticos dizem que, na verdade, a emissora pretende manter o controle da produção de conteúdo artístico do país.
Fagundes - A mesma animosidade que existia contra o PT existe contra a Globo no sentido contrário. Isso é um pecado, porque a Globo é a maior produtora de televisão do mundo. Se tivéssemos a auto-estima alta estaríamos nos vangloriando de ter a Globo. No dia que a Globo acabar, vamos entender o que é televisão, vamos sentir falta e aí será tarde.
As TVs não se arriscam, elas copiam a Globo. O Luiz Fernando Guimarães tem espaço para fazer o que quer, o Guel Arraes pode criar, as novelas falam de problemas sociais. Claro que há erros, mas a culpa talvez não seja só da Globo, mas do sistema de comunicação do país. Talvez possa ser mais democrático, dar mais espaço a TVs regionais, ter melhores redes públicas.
Folha - O seriado "Carga Pesada" também vai virar um filme?
Fagundes - A gente tem essa idéia, até porque de todos os seriados que viraram filme, o nosso é o que cabe mais. É espaço aberto, horizonte, estrada, morro, mar, o que cabe muito mais numa tela de cinema do que numa telinha. Nós só gravamos em ambientes externos, não entramos em estúdio nem quando a [cena é] numa casa. Usamos a casinha que foi construída. Mas ainda é só um desejo, uma nova luta, como foi da de voltar com a série. Fiquei dois anos tentando convencer a emissora.
Folha - O autor Carlos Lombardi disse que convidaria o sr. para "Pé na Jaca" [próxima novela das sete]. Será a sua volta às novelas?
Fagundes - Ele até falou que eu vou fazer um pai-de-santo [risos]. Acho que não porque "Carga Pesada" continua no ar e é um projeto muito querido.
Folha - Depois de atuar na propaganda do Boi Gordo [na qual garantia o investimento na empresa, que faliu], passou a ter mais cuidado com convites para publicidade?
Fagundes - Foi um problema. Eu sumi, quase não faço mais comerciais. Você é chamado para ser o porta-voz de uma empresa e não tem acesso ao livro caixa da empresa, nem condições de fazer uma auditoria. Eu fiz a Encol também [construtura que faliu]. Mas eu posso dizer que ganhei dinheiro com a Boi Gordo. Troquei meu cachê por investimento e deu certo dois anos depois. Mas como eu faço? Não tem saída, o melhor mesmo é não fazer. Preservo minha imagem, tenho 40 anos de trabalho honesto.
Folha - Momento "Caras": o sr. gasta R$ 4.500 em caixa de charuto. O que mais vale o investimento?
Fagundes - Gosto muito de vinhos. É bom dar entrevista falando sobre isso porque ganho muito presente [risos]. Pode me mandar um Amarone Allegrini [cerca de R$ 360].
Folha - O sr. já ganhou tudo quanto é título: o homem mais sexy, o bumbum mais bonito...
Fagundes - [interrompe] O bumbum?! Nem "Caras" ousaria chegar a esse nível [risos].
Folha - Para isso, perto dos 60 anos, é preciso ser um metrossexual, cuidar da pele, do cabelo etc?
Fagundes - Não, o máximo que eu faço é ser limpinho [risos]. Todo banho todo dia, sou perfumadinho, corto as unhas.
Folha - O sr. está namorando?
Fagundes - É momento "Caras" mesmo! Não, não estou.
Colaboraram VALMIR SANTOS, da reportagem local, e NELSON DE SÁ, colunista da Folha
Especial


