Ser galã é função ingrata, diz José Mayer
AUDREY FURLANETO
da Folha de S.Paulo, no Rio
"Maria não seria virgem se José fosse Mayer." Ou "Vanusa bebeu para esquecer José Mayer". E ainda: "Zé Mayer pegou Eva antes mesmo de Adão". Enfim, Zé é o cara. Às vésperas dos 60, o ator inspirou essas frases de um blogueiro no Twitter e, em uma semana, virou o segundo nome mais pesquisado do microblog no mundo. Mas o que é que o galã tem?
"Borogodó. Ele tem borogodó", dizia uma mulher na fila de 400 pessoas para vê-lo, ou melhor, ver a leitura que ele fez de textos de Érico Veríssimo no último sábado, na Bienal do Livro, no Rio.
O ator entrou no palco tentando assobiar. Não conseguiu. "Eu nunca aprendi a assobiar assim", disse ao microfone. Da plateia, um grito feminino: "Se você quiser, eu te ensino!". Zé (suspiros) ficou vermelho. Depois da leitura, ele falou à Folha.
FOLHA -O que você tem que os outros homens não têm?
JOSÉ MAYER - Hahaha! Eu tenho bons papéis, bons personagens para interpretar, e talvez isso faça uma diferença. Você não acha, não?
| Thyago Andrade/AgNews | ||
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| Mayer em leitura na Bienal do Livro do Rio; Para ser galã, "É preciso exalar masculinidade à primeira vista", ensina |
FOLHA - São só os papéis ou você está sendo modesto?
MAYER - Não, não. Acho que são os personagens. Eu fiz tantos personagens interessantes, sedutores, com essa função romântica. No capítulo de ontem, tinha Roberto Carlos com uma música inédita maravilhosa. Quer dizer, eu tenho circunstâncias que me favorecem muito, e essa fama acaba vazando, para usar um termo do Erico [Verissimo], dos personagens e se agregando a mim, entendeu?
FOLHA - Mas é você, e não o personagem, que é o segundo nome mais pesquisado do Twitter no mundo.
MAYER - No mundo inteiro, né? Eu vi. Até a imprensa britânica ficou curiosa. É incrível! É a brincadeira com o ator que sempre faz o papel. É um indício de que a novela das oito é um tema de conversação. Acho que os brasileiros se reúnem no cotidiano, nos escritórios, para conversar sobre novela, política, futebol e mulheres, claro.
FOLHA - O que te faz um galã?
MAYER - Bom, inicialmente, masculinidade, né? É preciso ser masculino. É preciso exalar masculinidade à primeira vista. Talvez tenham de mim essa primeira impressão. O meu movimento, meu jeito de olhar, minha fala, meu tom de voz, talvez inspirem... É a atitude masculina, basicamente. E o exercício da minha profissão, que me deu uma certa experiência, um certo, digamos, charme, no sentido de capacidade de tornar interessante um trabalho que estou apresentando. Isso é domínio técnico. Talvez o charme venha do ator, não sei se vem do homem. Será? Quem sabe...
FOLHA - Você acha que o título de galã não te cai bem?
MAYER - O título de galã [cai bem], se não for naquele sentido pejorativo de homem burro e bonito, como se costuma dizer sobre as louras, que elas tem dois neurônios, tico e teco... Quando o galã é compreendido como aquele que tem uma função de ser um centro da história por onde tudo passa, um homem que é referencial, um homem que seja de fácil identificação, nesse caso, eu sou galã, sim. Normalmente é uma função ingrata, viu?
FOLHA - Por quê?
MAYER - Os galãs são pessoas muito ponderadas, não têm tintas fortes, não tem a radicalidade de um vilão, não têm emoções extremas, estão sempre em fogo brando. É difícil você manter a atenção do público na frequência quase monótona.
FOLHA - Preferia o papel da novela anterior [em "A Favorita", Mayer viveu um hippie maluco]?
MAYER - Do ponto de vista de quantidade de trabalho, por exemplo, eu prefiro. Eu passei nove meses sem fazer quase nada. O galã é mais consistente do ponto de vista da dramaturgia, ocupa mais a trama, é mais determinante na história. O Augusto César [papel da novela "A Favorita"] era periférico. A grande qualidade dele era trabalhar muito pouco, pelo mesmo contrato. É uma vantagem, né? [risos]
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