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Ilustrada
29/09/2009 - 07h32

Filme de Esmir Filho mostra adolescente entre o real e o virtual

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LEONARDO CRUZ
da Folha de S.Paulo, enviado especial ao Rio

"Longe é o lugar onde a gente pode viver a verdade." A frase, escrita pelo protagonista do filme, sintetiza o espírito do belo e agridoce "Os Famosos e os Duendes da Morte", exibido na noite de anteontem na competição do Festival do Rio. O filme é a estreia do diretor Esmir Filho --conhecido pelo curta "Tapa na Pantera"-- em longas-metragens.

Divulgação
Ismael Caneppele (Julian) e Tuane Eggers (Jingle Jangle) em "Os Famosos e os Duendes da Morte"
Ismael Caneppele (Julian) e Tuane Eggers (Jingle Jangle) em cena de "Os Famosos..."

"Os Famosos" mostra o cotidiano de um adolescente tímido que habita dois universos paralelos: o real, numa cidadezinha gaúcha de raízes alemãs que ele define como "cu do mundo"; e o virtual, o lugar longe, onde ele se autodenomina Mr. Tambourine Man, mantém um diário em um blog, bate-papo com amigos e vê vídeos da garota chamada Jingle Jangle.

O longa é uma versão do romance do escritor (e coautor do roteiro) Ismael Caneppele, que cresceu em Lajeado, no vale do Taquari, onde se passa a história. Foi Caneppele quem apresentou sua obra a Esmir Filho.

O diretor viu no texto a chance de ampliar o tema da adolescência, que explorara em curtas premiados como "Saliva" (2007, sobre o primeiro beijo de uma menina) e "Alguma Coisa Assim" (2006, sobre a primeira decepção amorosa).

"O que me atraiu no livro do Ismael foi essa forma muito forte como ele traduziu o sentimento de ser adolescente hoje, de estar num mundo do qual parece que você não faz parte", diz Esmir, 26, numa conversa logo após a exibição do filme, no Cine Odeon. "Também me interessou o contraste entre o isolamento da cidade do interior e a rede de blogs, fotologs e Flickrs, que meninos e meninas usam para falar ao mundo."

Para entender esse contraste e preparar o roteiro, Esmir passou temporadas de dois a três meses em Lajeado, conhecendo moradores e visitando locais do livro de Caneppele.

Com a escrita adiantada, o diretor iniciou uma pesquisa na internet para descobrir como se expressavam os jovens da região. Foi nessa busca que encontrou Henrique Larré, escolhido para interpretar Mr. Tambourine Man, e Tuane Eggers, que faz Jingle Jangle. Para fechar o elenco, somou a esse trabalho entrevistas com mais de 400 adolescentes locais.

Vazios e fantasmas

No filme, o dia a dia desses garotos se passa na pequena cidade e nas estradas e trilhas que cortam as florestas da região. O vazio dos meninos se reflete no clima quase fantasmagórico do lugar, de poucas pessoas nas ruas, noites frias e manhãs tomadas pela neblina.

O ambiente espectral também surge nos vídeos de Jingle Jangle a que Mr. Tambourine assiste. São imagens amadoras, em baixa resolução, feitas para o YouTube, em que a garota aparece com o namorado Julian (o próprio Caneppele), caminhando pelo mato, andando numa noite de chuva e correndo por uma ponte que se revela fundamental para a trama.

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A trilha sonora dialoga bem com tudo isso. Quase todas as músicas foram criadas e interpretadas por Nelo Johann, jovem gaúcho autor de um folk sombrio, que lembra as composições melancólicas dos primeiros anos dos escoceses do Belle & Sebastian. Além disso, como o próprio pseudônimo indica, Mr. Tambourine Man é fã de Bob Dylan, e essa canção do músico americano surge em momentos-chave do longa.

Tanto pela temática adolescente quanto pelas opções estéticas, "Os Famosos e os Duendes da Morte" remete ao cinema de Gus van Sant, a filmes como "Paranoid Park" (2007) e "Elefante" (2003). E não deixa a desejar. Essa associação é reforçada pela segura atuação de Henrique Larré, que fisicamente lembra muito o jovem Keanu Reeves de "Garotos de Programa" (1991).

O ótimo longa de Esmir Filho, que antes de estrear no Brasil já fora exibido no Festival de Locarno (Suíça), terá mais duas sessões hoje no Festival do Rio, às 15h50 e às 22h20, no Estação Vivo Gávea 3. "Os Famosos" também será apresentado na Mostra de São Paulo, que começa em 22/10.

Distribuído pela Warner, deve entrar em cartaz no circuito nacional até março de 2010.

O jornalista LEONARDO CRUZ viaja a convite do Festival do Rio.

 

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