11/08/2006
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10h32
da Folha de S.Paulo
Nem tudo que reluz é ouro, nem todo filme que chega do Oriente é sinônimo de obra-prima. Bajulado por crítica e festivais, o coreano Kim Ki-duk é um exemplo de como a supervalorização do cinema oriental também produz filmes esquecíveis.
Constante no circuito brasileiro desde "A Ilha", o prolífico Kim Ki-duk busca no efeito poético sua mais alta qualidade, mas também é aí que encontra seu maior defeito. "O Arco" é o exemplo de sua mania em deixar-se perder na ênfase, em saber --e esquecer-- que poesia se faz com técnica, mas que esta se esconde sob sutilezas. A violência sexual de "A Ilha" e o lirismo místico de "Primavera, Verão, Outono, Inverno...
Primavera" arrebanharam uma legião de admiradores para seu cinema. De fato, nesses filmes havia uma maestria na exploração de um espaço delimitado e de um tempo como força destrutiva. Ao retomar o mesmo dispositivo em "O Arco", Kim Ki-duk apenas deixa claros seus limites.
Diálogos silenciosos
Em vez de ilha ou de templo isolado, "O Arco" reúne seus dois protagonistas num barco de pesca meio à deriva. Ali vivem um velho e uma adolescente, espécie de Lolita defendida com rigor monástico, à espera da idade certa para que se possa consumar o casamento entre os dois. Feito só de silêncios, o diálogo desses personagens se constitui exclusivamente de olhares, de música e de afetos (toques noturnos, banhos diários).
Ao descrever essa presença mútua, Kim Ki-duk reafirma a acuidade de seu cinema, com um domínio expressivo dos sons e, sobretudo, de uma exploração admirável do espaço encerrado do barco.
O tempo entra como forma de corrupção dessa perfeição idílica. De um lado, sob a forma de dias e meses que faltam para a idade adulta da garota, motor de uma ansiedade crescente de seu pretendente. De outro, sob a presença crescente de pescadores que utilizam o barco e que trazem consigo a ameaça do fator externo. Por fim, a chegada de um belo jovem vai quebrar a primazia do mais velho.
Há ainda a tripla significação do arco, elemento central do filme e que sustenta seus momentos de força. Ao mesmo tempo instrumento musical, arma e ferramenta de arte divinatória, o arco também conduz as tensões e distensões que definem o ritmo ao longo de todo o filme. E reúne toda a riqueza simbólica que atrai espectadores para certo cinema oriental.
Conduzida com elegância e autocontrole, toda a primeira parte do filme alcança uma poesia que retira do simples sua força. O problema é que o esforço poético de Kim Kim-duk não se satisfaz apenas com o essencial. Sempre que alcança esse ponto vai além, acentua, enfatiza e perde a mão.
Num primeiro momento, ele ganha o espectador com sutilezas. Em seguida, enfastia nosso olhar. Com "O Arco", Kim Ki-duk mira, atira com mais força que precisa e erra o alvo.
O Arco
Direção: Kim Ki-Duk
Produção: Coréia do Sul/Japão, 2005
Com: Jeon Seong-Hwan
Quando: em cartaz no Cinesesc e Unibanco Arteplex
Especial
Leia o que já foi publicado sobre Kim Ki-Duk
Coreano "O Arco" perde força por excesso de poesia
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CÁSSIO STARLING CARLOSda Folha de S.Paulo
Nem tudo que reluz é ouro, nem todo filme que chega do Oriente é sinônimo de obra-prima. Bajulado por crítica e festivais, o coreano Kim Ki-duk é um exemplo de como a supervalorização do cinema oriental também produz filmes esquecíveis.
Constante no circuito brasileiro desde "A Ilha", o prolífico Kim Ki-duk busca no efeito poético sua mais alta qualidade, mas também é aí que encontra seu maior defeito. "O Arco" é o exemplo de sua mania em deixar-se perder na ênfase, em saber --e esquecer-- que poesia se faz com técnica, mas que esta se esconde sob sutilezas. A violência sexual de "A Ilha" e o lirismo místico de "Primavera, Verão, Outono, Inverno...
Primavera" arrebanharam uma legião de admiradores para seu cinema. De fato, nesses filmes havia uma maestria na exploração de um espaço delimitado e de um tempo como força destrutiva. Ao retomar o mesmo dispositivo em "O Arco", Kim Ki-duk apenas deixa claros seus limites.
Diálogos silenciosos
Em vez de ilha ou de templo isolado, "O Arco" reúne seus dois protagonistas num barco de pesca meio à deriva. Ali vivem um velho e uma adolescente, espécie de Lolita defendida com rigor monástico, à espera da idade certa para que se possa consumar o casamento entre os dois. Feito só de silêncios, o diálogo desses personagens se constitui exclusivamente de olhares, de música e de afetos (toques noturnos, banhos diários).
Ao descrever essa presença mútua, Kim Ki-duk reafirma a acuidade de seu cinema, com um domínio expressivo dos sons e, sobretudo, de uma exploração admirável do espaço encerrado do barco.
O tempo entra como forma de corrupção dessa perfeição idílica. De um lado, sob a forma de dias e meses que faltam para a idade adulta da garota, motor de uma ansiedade crescente de seu pretendente. De outro, sob a presença crescente de pescadores que utilizam o barco e que trazem consigo a ameaça do fator externo. Por fim, a chegada de um belo jovem vai quebrar a primazia do mais velho.
Há ainda a tripla significação do arco, elemento central do filme e que sustenta seus momentos de força. Ao mesmo tempo instrumento musical, arma e ferramenta de arte divinatória, o arco também conduz as tensões e distensões que definem o ritmo ao longo de todo o filme. E reúne toda a riqueza simbólica que atrai espectadores para certo cinema oriental.
Conduzida com elegância e autocontrole, toda a primeira parte do filme alcança uma poesia que retira do simples sua força. O problema é que o esforço poético de Kim Kim-duk não se satisfaz apenas com o essencial. Sempre que alcança esse ponto vai além, acentua, enfatiza e perde a mão.
Num primeiro momento, ele ganha o espectador com sutilezas. Em seguida, enfastia nosso olhar. Com "O Arco", Kim Ki-duk mira, atira com mais força que precisa e erra o alvo.
O Arco
Direção: Kim Ki-Duk
Produção: Coréia do Sul/Japão, 2005
Com: Jeon Seong-Hwan
Quando: em cartaz no Cinesesc e Unibanco Arteplex
Especial

