Biógrafo diz que, como Gardel, Mercedes Sosa "não morreu"
DENISE MOTA
colaboração para a Folha de S.Paulo
Amigo de quatro décadas da cantora argentina, autor de "Mercedes Sosa, La Negra" (ed. Sudamericana, 2003), que escreveu ao lado da artista, o jornalista e dramaturgo Rodolfo Braceli, 69, diz que Sosa, como Carlos Gardel, "não morreu". "Cada dia canta melhor", afirma, em alusão à famosa frase reservada, até anteontem, ao célebre cantor de tango.
| Annemarie Heinrich/Divulgação |
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| A cantora argentina Mercedes Sosa, que morreu aos 74 anos |
Ainda sob o impacto da notícia da morte da cantora, no domingo, Braceli, que prepara um volume atualizado com histórias da vida de Sosa, falou à Folha sobre as memórias com "La Negra", como era chamada.
Uma delas viveu com Milton Nascimento dentro do carro da cantora, que adorava dirigir em alta velocidade. "Íamos sete pessoas no automóvel --Mercedes, Milton e eu na frente. Perto do Aeroparque [aeroporto para voos domésticos em Buenos Aires], o carro parou em plena linha de trem. Ao longe, vinha uma locomotiva e, naturalmente, vivemos segundos de inquietação. Milton, não. Ele aumentou o volume do toca-fitas. Depois do susto, perguntei porque fez aquilo e ele disse: "Porque, se aquele era o final, seria o final mais feliz da minha vida". Escutávamos a Negra cantando uma música dele."
Sosa conheceu o jornalista no começo dos anos 60, quando estava casada com Manuel Oscar Matus, pai de seu filho Fabián-- e acabava de chegar a Mendoza. "Vivia rodeada de escritores, pintores, poetas. Era vaidosa, tinha uma cinturinha de vespa e era uma esponja que absorvia tudo. Suas noites terminavam entre intelectuais e com ela cantando. Mercedes vivia uma dupla gravidez: a de Fabián e a do novo cancioneiro (movimento lançado em 1963 que tinha entre os objetivos integrar o cancioneiro popular ao desenvolvimento criador do povo). Aí se tornou mulher, mãe, quebrou a casca do ovo como cantora e viveu entre amigos luminosos. Éramos felizes e não sabíamos."
Do livro fazem parte passagens "belas e dolorosas" da vida de Sosa. "Ali estão o aborto, a vida com o filho, com os netos, com a mãe, o pensamento." Também as ameaças de morte que recebeu em 1975 da organização Triple A, o exílio e a volta à Argentina, em 1982.
Na última vez em que conversou com a cantora, por telefone, há dois meses, o hino nacional foi tema do bate-papo. Sosa concordava com o que havia proposto o escritor em artigo de jornal: que o verso "o juremos con gloria morir", parte do estribilho da composição argentina, fosse substituído por algo "mais modesto": "o juremos con gloria vivir". No álbum "Cantora", ela deixa registrada essa versão do hino de seu país.
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