Adriana Calcanhotto dá canções autorais a Partimpim
MARCUS PRETO
da Folha de S.Paulo
Como nas histórias para as crianças, de bruxas, fadas e feiticeiras, "Partimpim Dois" surgiu assim: do nada. Não havia a menor notícia de que a persona infantil de Adriana Calcanhotto --nascida para o sucesso em um álbum de 2004 e posta na cama feito Bela Adormecida no ano passado, quando a cantora retornou com o adulto "Maré"-- voltaria a ver a luz do dia tão cedo.
| Divulgação |
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| A cantora Adriana Calcanhotto como Partimpim, que lança seu segundo disco |
Foi uma surpresa, Adriana afirma, até para ela própria --que já tinha listado um grande número de possíveis músicas para compor esse segundo volume, mas não via entre elas uma unidade, um álbum.
"De vez em quando eu vou lá e espio minhas listas, vejo o que está acontecendo", diz. "Só consigo começar a trabalhar de fato quando algumas das canções enumeradas ali se agrupam e acontece um clique, revela-se um disco." Em maio, o clique aconteceu. Espiando as mais de cem músicas listadas, Adriana percebeu que 11 delas poderiam, juntas, formar o novo "Partimpim".
A escalação é, de novo, bem abrangente. Abraça da erudita "O Trenzinho do Caipira", tema de Heitor Villa-Lobos que ganhou letra do poeta Ferreira Gullar, à popularíssima "Gatinha Manhosa", da primeira fase de Roberto e Erasmo Carlos --que, na voz de Partimpim, torna-se canção de amor a uma gata mesmo, no sentido literal.
A cantora tira dessa diversidade, ela afirma, o impulso para manter Partimpim em movimento. "Não gosto dessa compartimentação de "música para criança". As crianças estão ali, ouvindo o que os pais, as babás, as empregadas ouvem", diz.
Foi assim com ela, quando pequena. Dividia os ouvidos entre os sons mais sofisticados que seu pai colocava para ele mesmo e os que rolavam na cozinha, em radinhos de pilha sintonizados nas AM. "Sim, eu tinha meus discos "de criança".
Mas me sentia um pouquinho subestimada por eles." Diferentemente do primeiro, "Partimpim Dois" traz canções autorais de Adriana, a carnavalesca "Baile Partimcundum", "Ringtone do Amor" e "Menina, Menino". Mas a maior diversão da artista, dá para notar, é trazer para terreno infantil um repertório que jamais imaginávamos ver nesse universo.
Por seu valor estético, "Bim Bom", umas das raras composições de João Gilberto, é um bom exemplo. Por seu conteúdo, "Alexandre", de Caetano Veloso, é outro.
Lançada por seu autor no álbum "Livro" (1998), "Alexandre" foi composta à mesma maneira dos épicos históricos de Jorge Ben (Jor)-"Taj Mahal" e "Zumbi", por exemplo- e conta, em letra quilométrica, a saga de Alexandre, o Grande. Transportada para o universo Partimpim, o herói da canção de Caetano revela afinidades com Monteiro Lobato e sua história poderia estar em algum dos melhores episódios do "Sítio do Pica-Pau Amarelo".
Difícil vai ser explicar para as crianças os versos em que Caetano revela a relação de Alexandre "com Hefestião, seu amado", com quem "correu em honra de Pátroclo -os dois corpos nus- junto ao túmulo de Aquiles, o herói enamorado, o amor". "Sim, isso vai demandar um trabalhinho aos pais", diz a cantora. "Mas essa é função deles. Minha parte eu já fiz."
PARTIMPIM DOIS
Artista: Adriana Partimpim
Gravadora: Sony Music
Quanto: R$ 24,90
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