"É legal ter uma grande tela para poder brincar", diz Steven Soderbergh
FERNANDA EZABELLA
da Folha de S.Paulo
Steven Soderbergh não tem medo da mentira. Ele a filma. E, frequentemente, também a utiliza, se isso significa promover a paz mundial ou fazer seus filmes acontecerem.
Isso porque o trabalho ficou mais difícil se comparado com 20 anos atrás, quando o diretor americano estreou com "Sexo, Mentiras e Videotape" (1989), indicado ao Oscar por roteiro.
| Divulgação |
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| Cineasta Steven Soderbergh mescla filmes de baixo orçamento com blockbusters |
Ainda assim, Soderbergh, 46, o diretor mais eclético de Hollywood, diz se divertir tanto com seus longas de baixo orçamento como os blockbusters caríssimos. E faz filmes sem parar. No Brasil, só neste ano, ele estreia seu terceiro longa, no dia 16, a comédia "O Desinformante!", baseada na história real de um mentiroso compulsivo que engambelou o FBI nos anos 90.
O filme é estrelado por Matt Damon ("A Identidade Bourne"), que engordou 14 quilos para o papel. O diretor também trouxe ao país nos últimos meses a cinebiografia "Che 2 -A Guerrilha" e "Confissões de uma Garota de Programa", obra mais experimental sobre uma prostituta de luxo.
Em fevereiro, ele roda o filme de espionagem "Knockout", com a lutadora americana Gina Carano, e ainda tem um projeto 3D sobre Cleópatra com Catherine Zeta-Jones. Leia a seguir trechos da entrevista que o diretor concedeu à Folha, por telefone.
Folha - Como você conseguiu transformar Matt Damon num cara feio, velho e gordo?
Soderbergh - Você achou ele feio? Mas ele é assim mesmo [risos]. Ele engordou uns 14 quilos, foi ideia dele. Queria ficar parecido com Mark Whitacre [protagonista do filme].
Folha - Você o conheceu?
Soderbergh - Sim, mas faz só duas semanas. Ele ficou animado com o filme, disse que era muito apurado.
Folha - E você acreditou?
Soderbergh - Não, é claro que não. Mas quero que todo mundo minta para mim. Me faz me sentir melhor.
Folha - Vários filmes seus falam sobre mentirosos.
Soderbergh - Para haver paz, tem de haver algum tipo de mentira rolando. Caso contrário, se você falar a verdade sobre tudo, alguém vai te matar.
Folha- Você usa a mesma técnica com os estúdios?
Soderbergh - É claro. Se posso conseguir as coisas do meu jeito, vou tentar não fazê-los se sentirem mal dizendo exatamente a verdade.
Folha - Você mente mais hoje ou quando começou, há 20 anos?
Soderbergh - Provavelmente mais agora porque conheço muito mais gente.
Folha - Ficou mais fácil ou mais difícil fazer cinema?
Soderbergh - Mais difícil. Antes, as pessoas pensavam que podiam fazer dinheiro com qualquer tipo de filme. Hoje, elas acham que existe um certo tipo de filme. E talvez estejam certas. Eu odiaria estar começando agora. É fácil fazer um filme bacana, com pouco dinheiro, mas quem irá vê-lo?
Folha - Mas como você pode reclamar? Seu nome é uma grife.
Soderbergh - Aparentemente não é. Tenho as mesmas iniciais de um diretor que é realmente uma grife [Steven Spielberg]. As pessoas vão vê-lo independente de qual o assunto do filme. Mas existem poucos diretores como esse.
Folha- Como você decide seus projetos, quando fazer coisas pequenas ou grandes?
Soderbergh - Eu só penso em fazer algo que será diferente do que acabei de fazer. É legal ter uma grande tela para poder brincar. Mas é ótimo fazer um filme como "Confissões...", com 11 pessoas, de maneira rápida, com bastante liberdade.
Folha - É mais complicado ter liberdade nos filmes caros?
Soderbergh - Todo tipo de filme tem uma corda que o impede de sair voando. Se você fizer um filme com US$ 100 milhões, é melhor ser um filme que muitas pessoas vão gostar ou você é um idiota. Agora, quando você faz um filme de US$ 1,5 milhão, você pode ser tão esquisito quanto quiser.
Folha - Você emenda um projeto no outro. Nunca tira férias?
Soderbergh - Sim, tirei uma nessa manhã. Duas horas. Basta para mim.
com ADRIANA KÜCHLER e DIÓGENES CAMPANHA, FLÁVIA MARTIN e MATHEUS PICHONELLI
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