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Ilustrada
14/10/2009 - 07h46

"Tentaram me impedir de cantar jazz", diz Tony Bennett

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GUILHERME WERNECK
colaboração para a Folha de S.Paulo

O pintor Benedetto terá de quebrar a rotina nos próximos dias. Não poderá acordar e tomar o rumo do ateliê, como faz quando está em casa. Em vez de trabalhar nas aquarelas em que retrata as praias do Brasil a partir de Nova York, Benedetto terá de botar os pincéis de molho para dar lugar aos compromissos de seu duplo mais famoso, o cantor Tony Bennett.

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AP
O cantor nova-iorquino Tony Bennett é cercado por mulheres e fãs após apresentação, em 1951
O cantor Tony Bennett é cercado por mulheres e fãs após apresentação, em 1951

Aos 83 anos, o cantor desembarca no Brasil para uma série de shows que começa por Porto Alegre, no dia 21, e se estende até o dia 31 em Recife, passando por Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.

Sem muitas surpresas, o repertório é aquele que Bennett construiu nos últimos 60 anos como crooner, músicas que vão de baladas a standards do jazz. Não faltarão as clássicas "I Left My Heart in San Francisco", "Fly Me to the Moon" e "The Way You Look Tonight".

O que surpreende nessa série de shows é a formação enxuta da banda formada pelo pianista Lee Musiker, o guitarrista Gray Sargent, o baterista Harold Jones e o baixista Marshal Wood. A novidade fica por conta da participação da filha do cantor, Antonia Bennett, 35.

Tony Bennett faz entretenimento puro, essencial. É o último de pé da linhagem que cresce com o "boom" da indústria da música nos anos 1950, poucos anos antes de o rock virar de ponta cabeça a cultura de massa. "Eu amo entreter as pessoas, fazer com que elas se sintam bem" diz o cantor à Folha, por telefone, em Nova York.

Por ser um grande vencedor e mesmo estando do lado dos vencidos, do ponto de vista dos esforços da indústria da música, Bennett tem uma carreira das mais interessantes.

Ele começou na Columbia em 1950, com a condição de não imitar o Frank Sinatra.

Uma estratégia que deu certo em termos, já que o próprio Sinatra resolve adotá-lo. "Ele [Sinatra] era 10 anos mais velho que eu, e acabou se tornando meu mestre porque era um artista maravilhoso. Eu o adorava. E, quando ele disse à revista "Life" que, de todos os cantores, ele me considerava o melhor que já tinha ouvido na vida... Eu nunca superei isso. Até hoje", diz.

Contratado para cantar baladas, Bennett teve de lutar pela sua integridade artística e para poder ser hoje o grande porta-voz do cancioneiro americano. Foram mais de dez anos para conseguir gravar seu estilo preferido, o jazz.

"Minha gravadora tentou me impedir de cantar jazz por muitos anos, dizendo que eu não venderia muitos discos. Eu tinha de brigar, dizia que era a melhor música inventada nos Estados Unidos. Foi uma luta, mas no final deu tudo certo porque me deram um contrato de US$ 10 milhões pelo meu catálogo." Outra cruzada foi contra o rock. "Eu não gostava mesmo. Até deixei a gravadora um tempinho e mudei para a Inglaterra para fugir do rock."

Nos anos 70, pagaria a língua ao gravar músicas orquestradas de uma série de roqueiros, de seu antigo desafeto Elvis Presley aos Beatles.

Mas, cavalheiro como ele só, não é de falar mal de gravações passadas. "Não tenho problemas de cantar nada do que gravei", diz. "Se você faz uma coisa boa, ela é sempre boa. Quando você ouve Sinatra ou Nat King Cole, João Gilberto ou Tom Jobim, é sempre bom", completa.

Mulherengo

Nessa temporada brasileira, Bennett vai tirar um tempo para encontrar o amigo João Gilberto, que conheceu no Rio, em sua primeira temporada no Copacabana Palace, ainda nos anos 50. "Eu era um artista bem novo, ninguém me conhecia. Me falaram de um cantor muito bom. Conheci João Gilberto na praia, no começo da bossa nova."

Tony Bennett sempre teve fama de mulherengo. Pergunto se ainda tem jeito com as mulheres aos 83. Rindo, ele desconversa: "Algumas vezes sim, em outras não".

TONY BENNETT
Quando: em SP, 26/10, às 20h30; em outras cidades, informações no site www.mediamania.com.br
Onde: HSBC Brasil (r. Bragança Paulista, 1281, tel. 0/xx/11/ 4003-1212)
Quanto: de R$ 400 a R$ 1.000 (em SP)

 

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