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Ilustrada
20/10/2009 - 10h45

Para produtor de Lennon, "São Paulo é Nova York nos anos 70"

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ANDRÉ BARCINSKI
colaboração para a Folha de S.Paulo

Em meio a dezenas de aparelhos de som de última geração montados em um estúdio na Vila Mariana, alguns itens destoam. Como duas caixas velhas, surradas pelo tempo, que mais parecem saídas de um brechó.

Letícia Moreira/Folha Imagem
O produtor americano Roy Cicala com um de seus antigos aparelhos em seu novo estúdio em SP
O produtor americano Roy Cicala com um de seus antigos aparelhos em seu novo estúdio

"São as caixas de som que usamos para gravar Hendrix, Jobim, Miles Davis e Elton John", diz Roy Cicala, 70. "E essa máquina aqui, sabe o que é?", apontando para uma antiga carcaça de metal com botões grandes. "É a reverb [eco] que usei em todos os discos de Lennon. Eu gravei "Imagine" nela. John adorava o efeito."

Cicala, um dos produtores e técnicos de som mais famosos dos anos 70 e 80, quando foi sócio do estúdio Record Plant, de Nova York, dá os últimos retoques em seu novo estúdio, o South American Plant, uma parceria com o produtor brasileiro Apollo Nove (Bebel Gilberto, Paralamas do Sucesso). "Trouxe vários aparelhos meus, máquinas que não se acham facilmente por aí."

O produtor tem uma filha brasileira e está no país há quatro anos. "Vim passar duas semanas e acabei ficando. Eu amo o Brasil, amo São Paulo. Essa cidade me lembra muito a Nova York dos anos 70: perigosa, porém excitante."

Conhecedores da obra de Cicala dizem que sua grande virtude é, de fato, a gravação ao vivo. "Acabamos de fazer o DVD do Nasi (ex-Ira!), e o Roy gravou tudo ao vivo. Era uma banda gigante, com 45 microfones, e ele tirou um som maravilhoso", diz Apollo Nove.

O produtor americano já participou da gravação dos novos álbuns de Forgotten Boys -já à venda-, de Cibelle e de um projeto conjunto dos belgas do Soulwax com a dupla MixHell (formada por Iggor Cavalera e Layma Leiton).
Outro trabalho que Cicala produziu foi o novo álbum do paulistano Ciro Pessoa, mentor do Cabine C, banda cultuada em São Paulo nos anos 80.

Tiro no estúdio

Técnicos e assistentes se divertem com suas histórias. Ele testemunhou um episódio famoso da carreira do produtor Phil Spector: durante a gravação do álbum "Rock and Roll" (1975), de John Lennon, Spector sacou uma arma e deu um tiro no teto do estúdio.

"Phil era um gênio, mas totalmente insano", conta Cicala. "Enquanto John cantava, ele ameaçava apertar o botão e parar a fita, mas daí mudava de ideia e segurava o braço com a outra mão. Era como se tivesse duas personalidades: uma estava gostando do que ouvia, enquanto a outra queria parar."

Roy Cicala já viu de tudo: os excessos de Jimi Hendrix, Keith Moon (The Who) e Aerosmith ("Eles me obrigaram a montar uma bateria dentro de uma chaminé para obter mais eco no som. Claro que não deu certo"), presenciou brigas de socos e pontapés entre Lou Reed e a namorada, um travesti chamado Rachel.

Também comandou uma das sessões mais surreais da música pop, em março de 1974, quando Paul McCartney apareceu de surpresa no estúdio e acabou fazendo uma "jam session" com John Lennon, Stevie Wonder e Harry Nilsson. Foi a única vez que Lennon e McCartney tocaram juntos depois do fim dos Beatles.

Cicala lembra com carinho especial de John Lennon, com quem gravou sete álbuns. Ele guarda um bilhete em que Lennon agradece um empréstimo para a compra de equipamentos de som, em 1974. "John estava cheio de problemas financeiros, brigando para não ser deportado pelo governo, e eu adiantei a grana para ele gravar "Walls and Bridges". Eu faria o disco de graça, se ele pedisse."

A ligação de Cicala com a música brasileira começou em 1963, quando era assistente do produtor musical Phil Ramone e trabalhou nas gravações de "Garota de Ipanema" com Stan Getz e Astrud Gilberto. "Aprendi tudo com Phil", diz. "Ele me ensinou a gravar uma grande orquestra com apenas dois microfones, capturando o som ao vivo. Não há nada mais bonito do que o som de músicos talentosos tocando juntos."

Cicala foi o técnico de outras gravações, como o "Concerto para Bangladesh" (1971) e o disco ao vivo "Frampton Comes Alive" (1976), grande sucesso de Peter Frampton.

 

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